terça-feira, agosto 10, 2004

Reflexões científicas sobre a bíblia

REFLEXÕES SOBRE CONSTATAÇÕES CIENTÍFICAS E PARACIENTÍFICAS ACERCA DE ALGUMAS PASSAGENS BÍBLICAS – 2ª edição.

Douglas Gregorio::
Resumo: trata-se de um longo texto que comenta do ponto de vista científico e paracientífico uma série de questões bíblicas, desmistificando uma série de lendas e equívocos, sem contudo atacar questões teológicas ou contestar dogmas de fé.

Introdução – a fé e a ciência

A religião e a ciência se parecem com personagens de canções sertanejas, pois ao longo da história sempre se portaram como um casal que vive entre tapas e beijos.

Em diversas ocasiões entraram em conflito para depois se reconciliarem.

Alguns episódios foram muito marcantes. Por exemplo, no Renascimento, época na qual muito se discutiu a respeito das concepções sobre o universo conhecido; todos sabemos que a versão oficial da Igreja na época era fundamentada nas teses aristotélicas que diziam que nosso planeta estaria estático no centro de um universo perfeito.

Os cientistas da pré-modernidade, ao contrário diziam: não o planeta Terra, mas o Sol estaria no centro de um sistema em movimento.

Por defender a teoria heliocêntrica cientistas foram mortos, torturados, presos e censurados pela Igreja. Giordano Bruno foi condenado à fogueira pela Santíssima Inquisição. Copérnico só deixou publicar o seu “A Revolução das Orbes Celestes” no dia de sua morte. Galileu, como bem se sabe, sofreu censura e prisão sendo obrigado a abjurar suas idéias para escapar da morte.

Centenas de anos depois o papa João Paulo II veio a público e apresentou o reconhecimento oficial de erro da Igreja no caso Galileu, gerando perplexidade na comunidade científica internacional pela postura cínica.

E assim, entre tapas e beijos, ciência e religião caminham lado a lado ao longo da história humana.

O texto que se segue trata de um tema muito delicado: o lado racional da existência da pessoa de Jesus.

O objetivo não é o de contestar dogmas ou denunciar atitudes de má fé da Igreja, desmascarar lendas e mitos ou coisa que o valha, mas sim o de chamar a atenção para alguns detalhes que geram grandes equívocos no entendimento daquele que talvez tenha sido o momento mais importante da história do ocidente: o curtíssimo período estimado em pouco mais de 30 anos no qual viveu um homem chamado Jesus na região do atual oriente médio, o qual a maioria das pessoas acredita ter sido a encarnação do Criador de todo o universo.

Seus ensinamentos morais e teológicos mudaram o curso da história do ocidente, exercendo até os dias de hoje, passados mais de dois mil anos, descomunal influência sobre a cultura de mais da metade da civilização. Um homem que dividiu a história. Tanto que o próprio calendário em vigência na maior parte do mundo tem como ponto zero o ano em que se estima que ele, Jesus, tenha nascido.

Mesmo as pessoas mais descrentes e avessas à religião são obrigadas a viver segundo leis civis totalmente baseadas na moral cristã.

Simples ou gigantescos, pobres ou suntuosos, templos cristãos de várias denominações se espalham pelo mundo. Além das igrejas tradicionais existe um sem número de doutrinas, seitas e organizações, e cada uma delas reivindica ser a legítima herdeira e representante da doutrina de Jesus. A influência política e social das organizações e instituições cristãs podem ser sentidas em todos os momentos da história, inclusive no presente.

O texto a seguir não pretende ser um estudo completo, muito menos tem um caráter acadêmico. Expõe somente algumas considerações científicas e religiosas coletadas ao longo de uma vida de estudos... até o momento.

ADVERTÊNCIA – aconselho que só prossiga a leitura caso você souber administrar em sua consciência de forma harmônica a abordagem de assuntos, a princípio religiosos, à luz da história e da arqueologia, ou seja, à luz da ciência.

Não é objetivo deste texto contestar valores da doutrina cristã ou judaica, muito menos dogmas de fé. Em nenhum momento minha intenção foi a de apresentar qualquer tipo de denúncia ou coisa parecida. Não se trata disso absolutamente.

Em resumo, este texto fala de um Jesus histórico, o Jesus humano que viveu em sociedade. Não fala sobre o Jesus dos altares, o Jesus teológico, o Jesus que vive na convicção daqueles que vivenciam a experiência da fé. O Jesus do qual fala este texto é o Jesus que nasceu, viveu e morreu na Palestina num determinado período da história.

O assunto é delicado, portanto, peço bastante bom senso e compreensão porque não quero provocar a discórdia, muito menos ofender cristãos ou judeus de quaisquer denominações.

Nota sobre a segunda edição – nada foi excluído do texto original da primeira edição deste estudo. Esta segunda edição, além de aprimorar a redação e editoração do texto, acrescenta e aprofunda algumas informações, mas reitero que nada foi excluído do texto original da primeira edição.

O AUTOR.
Outono de 2004

As fontes de informação – a bíblia e os escritos apócrifos.

Se fôssemos comentar questões sobre conflitos que ocorrem entre constatações racionais e relatos literários da bíblia de um modo geral, o que não é objetivo deste texto, surgiriam debates como, por exemplo, sobre o processo do êxodo dos judeus do Egito que aparece no antigo testamento, o qual estima-se ter ocorrido há mais de cinco mil e setecentos anos.

As famosas “pragas” que recaíram como maldições sobre o Egito, as quais teriam sido obra da ira do Todo Poderoso segundo o relato bíblico, podem ser analisadas sob outro ponto de vista que não seja o religioso.

Ainda hoje há épocas do ano em que as águas se tornam barrentas assumindo cor avermelhada como sangue, obviamente épocas de chuvas. Considerando as latitudes equatoriais do Egito, haveria muito granizo e chuvas ácidas que arrasariam plantações como se elas tivessem sido submetidas a uma chuva de fogo; a umidade excessiva faria com que moscas se multiplicassem, espalhando doenças de pele que provocariam feridas, ou ainda outros tipos de doenças contagiosas das quais os recém-nascidos e lactentes seriam vítimas fatais. As rãs também se multiplicariam, dada a abundância de alimento que teriam.

Nenhum destes fenômenos seria fora do comum.

Ainda sobre este assunto ocorrem épocas do ano nas quais as marés que ocorrem na delta do Nilo fazem com que se torne possível atravessar a pé porções de terra que antes eram o fundo do Mar Vermelho.

Assim, podemos perceber que muitas vezes as tradições religiosas podem lançar mão de fenômenos naturais floreando-os com artifícios literários.

No novo testamento, bem como nas tradições religiosas pós-bíblicas isto não deixa de acontecer.

Vejam o conflito que existe nas informações que Lucas, em seu evangelho, nos dá a respeito de fatos históricos narrados. Fala Lucas que o nascimento de Jesus deu-se durante o reinado de Herodes, quando então Quirino seria o govenador romano da Síria, época na qual o imperador Augusto havia ordenado um recenseamento[1].

Pois bem, os registros históricos dizem o seguinte: quando Quirino governou a Síria, Herodes já havia morrido, e não existe registro ou sequer alusão em qualquer outra fonte possível e imaginável que o Imperador Augusto tenha convocado um recenseamento.

A bíblia, no seu novo testamento, conta com quatro evangelhos tidos como “oficiais”. Porém, é de conhecimento geral que existem diversos outros escritos históricos, muitos dos quais escritos por personalidades bíblicas importantes como os apóstolos Pedro, Tiago, Bartolomeu e vários outros, falando sobre os ensinamentos, a vida e os feitos de Jesus, ou mesmo sobre épocas bíblicas anteriores ou posteriores a Jesus.

Tais escritos, os ditos livros “apócrifos” indiscutivelmente são documentos históricos dos tempos bíblicos, e sob uma série de alegações ao longo da história foram apartados da versão “oficial” que temos hoje da bíblia. No entender da ciência, os apócrifos não podem, em hipótese alguma, serem ignorados.

Um dos motivos que a Igreja alega para excluí-los do cânon bíblico é o de que foram escritos em épocas muito distantes da passagem de Jesus pela terra, mais precisamente a partir do segundo século da Era Cristã, o que lhes torna suspeitos de apresentarem informações imprecisas. Porém, fato é que, mesmo os quatro evangelhos oficiais não possuem confirmações cabais da data nas quais foram escritos.

Além disso, os apócrifos possuem informações que entram em choque com a imagem que se tem dos fatos e personagens bíblicos em geral, inclusive de Jesus, que poderiam gerar sérios conflitos.

Tomemos como exemplo o apócrifo evangelho árabe da infância de Jesus, adotado pelos cristãos coptas do Egito. Ele possui passagens que podem ser consideradas, no mínimo, polêmicas.

Ele narra que numa ocasião Jesus menino brincava com seus amiguinhos moldando bichos de barro; com seus poderes sobrenaturais, miraculosamente fazia com que os bichinhos ganhassem vida e se movessem. Estava com seus amiguinhos nesta brincadeira miraculosa quando se desentendeu com um deles, e o matou com uma simples ordem. Na seqüência, este evangelho narra outra passagem na qual Jesus criança, irritado com um golpe acidental que recebeu de uma criança que corria próximo a ele, também a mata com uma simples ordem. Há outra passagem ainda na qual Jesus é encaminhado à escola onde um professor repreende suas travessuras infantis. Desgostoso com a reprimenda que recebera, o menino Jesus também mata o professor de forma sobrenatural. Tais fatos fazem com que seus pais decidam por afastá-lo do convívio comunitário até que amadureça e aprenda a controlar seus poderes, uma vez que ele matava qualquer pessoa diante da mínima contrariedade.

Se Jesus realmente cometeu tais atos não há como provar do ponto de vista racional e científico, e também não podemos dizer que os evangelhos, sejam os apócrifos ou os “oficiais” constituam fontes idôneas e precisas da narração biográfica de Jesus porque, afinal de contas, foram escritos por partidários, seguidores e discípulos, não podendo portanto ser considerados fontes neutras de informações históricas.

Por exemplo, existe quase que uma unânimidade entre os atuais pesquisadores ao afirmarem ser pouco provável que Jesus tenha nascido em Belém. Mais provável que Jesus tenha nascido na cidade de Nazaré. A própria Igreja, que tradicionalmente reage de forma veemente a contestações do gênero, assume uma surpreendente postura semi-aberta de defesa desta tese. Como ficaria então a devoção que existe à Igreja da Natividade em Belém, construída sobre o local onde se acredita Jesus ter nascido, local este assinalado por uma estrela de prata afixada no chão?!

A data é outra controvérsia entre os historiadores, incluindo aí historiadores que também são padres católicos. O padre John Meier fala que Jesus teria nascido no ano 7 ou 6 a.C., dois anos antes da morte de Herodes em 4 a.C, e precisa a morte de Jesus em 7 de abril do ano 30 [2].

Continuando nesta linha de raciocínio, a visita dos reis magos e o posterior massacre dos meninos recém-nascidos seriam apenas lendas carregadas de simbolismo, tal como aparecem no segundo capítulo do evangelho de Mateus: os três reis simbolizam numericamente a plenitude; o fato de representarem nações diferentes simboliza a universalidade do advento do Cristo para a humanidade, e o fato de serem reis simboliza a superioridade da realeza do submissão de todo e qualquer poder temporal à realeza daquele que seria o Filho de Deus. Os três presentes seriam o ouro, símbolo da realeza, o incenso, símbolo da divindade e a mirra, símbolo da amargura que remete à dor, portanto, a condição humana e a missão de Jesus.

Com certeza, Mateus quis muito mais transmitir idéias teológicas através do simbolismo utilizado do que descrever os fatos e circunstâncias que envolveram o nascimento de Jesus tal como ele tenha de fato ocorrido.

No apócrifo evangelho Armênio da infância de Jesus ocorrem descrições de um faustoso cortejo dos reis magos em visita a Herodes a fim de tomar satisfações sobre o nascimento do messias, apresentando-lhe uma carta que herdaram do próprio Seth, que teria sido o terceiro filho de Adão, do qual descenderia o messias, no caso, Jesus. Cabe a nós observar que o livro do Gênese que nos fala sobre Seth data de 3000 anos anteriores ao nascimento de Jesus. Será que uma carta seria conservada por tanto tempo assim?!

Segundo o padre Jaldemir Vitório, o texto que alude ao nascimento de Jesus no evangelho de Mateus lança mão do gênero literário “midrash”, que utiliza a vida de grandes personagens históricos para narrar a vida de outro personagem histórico posterior. Assim, o nascimento em Belém seria uma associação ao rei Davi do antigo testamento[3].

Além da questão da natividade, não há sinais de que Jesus teria exercido a profissão de carpinteiro. Mais provável que tenha sido pescador ou agricultor, pelo que podemos deduzir com base nas próprias informações obtidas nos evangelhos “oficiais” e também das condições sócio-econômicas da época. Ao observar as parábolas evangélicas atribuídas a Jesus e as descrições de situações cotidianas por ele vividas, encontraremos constantes alusões à agricultura: plantações de videiras, trigo, mostarda, oliveiras, figueiras, flores do campo e outras, bem como barcos, águas, redes, peixes, inclusive há várias passagens nas quais Jesus aparece dentro das embarcações.

Se Jesus utilizava elementos do imaginário popular para compor suas pregações de modo que as pessoas mais simples pudessem entender o teor de seus ensinamentos, por que em nenhum momento, nem em escritos apócrifos, nem em escritos oficiais, encontrou-se uma narração aludindo à madeira trabalhada, confecção de móveis, oficinas e ferramentas de carpintaria?! Alguns estudiosos afirmam que, na época, o termo “carpinteiro” era usado para se referir a trabalhadores humildes, algo como o popular termo “peão” que se usa hoje para trabalhadores de baixa qualificação.

Outro sinal de contradição que aparece nos evangelhos está na genealogia de Jesus tal como ela é descrita por Mateus e como é descrita por Lucas. Ambos os evangelistas apresentam longas listas de antepassados, porém, só existem apenas dois nomes em comum entre ambas.

É no mínimo um fato que merece uma checagem mais precisa a transição das tradições orais[4] para a tradição escrita, pois o tempo e as influências envolvidas submetem a essência das mensagens à diversas influências que podem alterar o seu teor e desviar os fatos da veracidade.

Os ditos, feitos, doutrina e ensinamentos de Jesus eram transmitidos por tradição oral até aproximadamente 70 anos após a data estimada de seu nascimento, quando então Marcos escreveu o seu evangelho, considerado o primeiro a ser escrito.[5] Por isso mesmo é que muitas narrações dos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) começam com as frases: “naquele tempo”, “naqueles dias”, “naquela época” e outras similares.

Por estes exemplos podemos perceber o quanto existem de desencontros e contradições dentro da própria bíblia, que antes de mais nada trata-se de um documento histórico composto de escritos reunidos, escritos estes originados de épocas e lugares muitas vezes muitos distantes, séculos, milênios até. Foram transmitidos a nós de diversas formas, sujeitos a alterações e mesmo a adulterações ao longo dos séculos; traduções sobre traduções, versões as mais diversas sujeitas a fatores mil que podem influenciar, tais como diferenças culturais de tempo e lugar, perseguições e interpretações políticas e religiosas, e vários outros.

Convenhamos que, do ponto de vista racional, a probabilidade de que os escritos bíblicos tenham chegado a nós alterados de alguma forma é muito maior que a probabilidade de serem hoje, tal como são, fiéis à sua origem.


Leitura científica e leitura religiosa da bíblia.

Não se falará aqui sobre a questão da interpretação da bíblia, pois como já firmamos na introdução, o objetivo deste texto não é o de contestar dogmas teológicos. Trata-se de depurar os fatos históricos documentados pelos textos bíblicos, separando as conclusões que temos ao longo da história sobre seu real significado, das tradições religiosas, literárias e populares criadas com fins pedagógicos ou publicitários.

O que estamos querendo dizer é que, para se ter uma noção precisa do que ocorreu na época de um fato bíblico, precisamos abordar este texto de forma científica, à luz da arqueologia, sociologia, política, economia e outras ciências, comparando os fatos paralelos a este fato, as documentações paralelas aos escritos bíblicos, sem temer estar contrariando alguma tradição teológica divulgada a título de compreensão popular e transmissão facilitada da mensagem.

Vamos tomar por exemplo a crucificação de Jesus, como veremos no ítem a seguir.

Jesus foi um condenado por causas essencialmente políticas.

A tortura da cruz era especialmente reservada para os inimigos de Roma, ou seja, para os opositores políticos do Império Romano. Logo, Jesus e os ditos “ladrões” crucificados ao seu lado foram condenados por motivos que merecem uma análise mais apurada do que considerar somente aquilo que a bíblia nos diz.

A inscrição que era colocada sobre a cruz tinha por função explicar o motivo da condenação. E por que esta inscrição foi escrita em três idiomas: grego, latim e hebraico? Simples: grego porque era um idioma internacional, equivalente ao que o inglês é para nós hoje. Hebraico porque esta era a língua local e latim porque era a língua oficial do Império Romano[6].

“Jesus de Nazaré, o rei dos judeus”, este foi o motivo da condenação de Jesus. Pode parecer que isto não seja motivo, aliás, nem lógica tem esta relação. Vamos então esclarecer algumas coisas: proclamar-se rei era o mesmo que desafiar diretamente o poder do Império Romano, já que diante de César não poderia haver outros reis. E Jesus proclamou-se rei no interrogatório ao qual foi submetido[7]. Mesmo ressalvando que seu reino não era deste mundo, conceitualmente Jesus proclamou-se rei, e esta foi a causa central da sua condenação ao suplício na cruz.

No ato da crucificação, ocorreu uma discussão entre as autoridades judaicas e Pilatos quanto à inscrição na cruz. Os judeus queriam que estivesse escrito: “Eu sou o rei dos judeus”, mas os romanos escreveram “O rei dos Judeus”, ao que as autoridades romanas responderam: “O que escrevi, escrevi”.[8] O que significa isto?

Se nós vivessemos naquela época, e passassemos diante de uma pessoa crucificada, moribunda, e vissemos a inscrição “Fulano, o rei do povo x”, o que iríamos pensar? Podíamos até sentir pena de ver uma pessoa passando por tanta dor, mas não há como negar que seria no mínimo irônico ver o “rei” naquela situação; e que povo fraco este que permitiu que seu rei fosse submetido a tudo aquilo...

Assim, dizer que Jesus era “o rei dos judeus” era zombar de todos os judeus, pois, ao olhar para aquela cena, quem associaria aquela imagem à imagem de um rei? E vale lembrar que um rei representa toda uma nação. Em outras palavras, foi uma atitude irônica dos romanos para com Jesus e os judeus em geral. Por isso os judeus insistiram para que os romanos escrevessem “eu sou o rei dos judeus” porque, ao colocar a frase na voz ativa, toda a carga irônica excluiria do seu escopo os judeus em geral, recaindo somente sobre a pessoa de Jesus ao permitir a seguinte réplica: “nenhum judeu reconhece um rei neste homem, quem está dizendo isso é ele”.

A recusa dos romanos em alterar a frase fazia parte de sua arrogante política de humilhação dos povos dominados.

Até aqui nada de contraditório, mas, Jesus foi um condenado político, e a causa imediata da condenação de Jesus ainda não está clara.

Proclamar-se rei era um crime político perante os romanos, mas este ato não se resumiu a uma resposta dada num interrogatório.

Imaginemos se um simples mendigo lançasse insultos em praça pública contra César. O máximo que aconteceria seria simplesmente ser surrado pelos soldados romanos até se calar, se é que os soldados se preocupariam com isso. Por que então Jesus era tão ameaçador a ponto de merecer a condenação à morte?

Alguns podem contestar a tese de que a causa da condenação de Jesus teria sido política em função das passagens onde os fariseus, juntamente com partidários do rei Herodes, buscavam algo para incriminá-lo publicamente. Para tanto, usaram-se do questionamento sobre o imposto que era pago pelos judeus aos dominadores romanos; a resposta foi muito mais astuta que a pergunta: “A César o que é de César e a Deus o que é de Deus” [9]. Porém, podemos perceber o quanto estas passagens reforçam por sí mesmas a tese da condenação política.

Ciente da conotação política de seu ministério, a resposta de Jesus nada mais foi que uma resposta política. Como líder de destaque em seu tempo, Jesus não seria ingênuo ao ponto de cair numa armadilha retórica cujos objetivos eram o de deixá-lo sem saída: se a resposta fosse positiva, Jesus estaria publicamente desmoralizado; se a resposta fosse negativa como seus adversários esperavam, estaria de forma pública e notória configurada uma causa de prisão: incitação popular à insubordinação.

Entregar-se à prisão, ainda de forma tão tola, obviamente não estava nos planos de Jesus naquele momento. Por isso sua saída retórica demonstrou a superioridade perceptível ao ser duplamente positiva: paguemos então nossos impostos, se este é o preço a ser pago para que possamos continuar servindo ao nosso Deus – o fim compensa o meio.

A bíblia fala que Jesus invadiu o templo de Jerusalém armado com um chicote e revirou as mesas dos cambistas.

Foi esta a causa imediata da prisão de Jesus.

Era no templo de Jerusalém que ocorria a troca da moeda local pela moeda romana, ou seja, o câmbio. Era um local de negócios. Mais que simples pombos e outras quinquilharias, o templo na verdade funcionava como centro financeiro daquela região.

Não é difícil supor que o templo equivalia às nossas atuais bolsas de valores. Com certeza era no templo que se reuniam os homens de negócios para realizar suas transações.

Um lugar tão importante assim, obviamente, seria muito movimentado e policiado. Será que um só homem armado com um chicote conseguiria entrar e causar todo um tumulto? Não seria ele rapidamente contido e expulso dali pelos vigias? Mas não. Foi dito que ele revirou mesas e expulsou os “vendilhões”.

Obviamente que Jesus não fez tudo isso sozinho. Não é difícil entender que Jesus só conseguiria ter invadido o templo acompanhado de uma multidão revoltosa enfurecida; afinal de contas, Jesus era um pregador seguido por multidões. Tratava-se portanto de uma revolta popular com forte conotação política, o que tornava Jesus um elemento ameaçador à ordem política e social ditada pelos dominadores romanos, os quais contavam com o apoio da classe dominante local.

Após sua prisão, Jesus foi submetido a julgamento popular que deu ao povo reunido em praça pública o poder de escolha entre Barrabás e Jesus. Ambos eram acusados do mesmo crime: sublevar a população contra o poderio romano.

Barrabás era um zelota. Os zelotas constituiam um movimento político de cunho guerrilheiro, cujo objetivo era o de combater a dominação romana na palestina. Barrabás nunca foi um ladrão como a história o acusou, bem como os outros dois crucificados ao lado de Jesus também eram zelotas, e não ladrões. Ladrões nunca eram crucificados, somente condenados por motivos políticos eram crucificados.

As imagens da crucificação que se fizeram ao longo da história contém diversos equívocos de pequena importância, mas que podem intrigar os leigos.

Nas imagens tradicionais, Jesus aparece com cravos fincados nas palmas das mãos e nos pés, um sobre o outro, atravessados pelo cravo a partir do “peito” do pé, sobre uma cunha colocada debaixo dos pés como escora.

Existiam diversas técnicas da tortura da crucificação. Famosa foi, por exemplo, a crucificação de André, que se deu em X, ou a de Pedro, que se deu de cabeça para baixo, segundo a história, por pedido do apóstolo que alegava não ter a dignidade para morrer da mesma forma que o seu Senhor.

A técnica utilizada para crucificar Jesus foi a crucificação latina, e funcionava da seguinte forma: primeiro, o condenado era submetido a horas de torturas preliminares que o deixavam exausto. Tais torturas eram basicamente o açoitamento com chicote latino, composto de três tiras de couro com duas bolas de chumbo nas pontas cada. A pessoa era algemada com os braços acima da cabeça, presa a um poste, e dois carrascos aplicavam golpes, um de cada lado, intercalando de forma intermitente os golpes.

Como já sabemos, o condenado era obrigado a carregar a cruz até o local onde seria crucificado. Os locais de crucificação eram pré-determinados pelas autoridades romanas, e nestes locais já existiam postes adequados à crucificação, assim, o que era carregado pelo condenado não seria o conjunto da cruz, composto de poste vertical e trave horizontal, mas somente esta última peça.

Os cravos eram fincados não nas palmas das mãos, pois neste local eles não sutentariam o peso do corpo. Na verdade, eles eram fincados pouco abaixo dos pulsos, na extremidade do braço, onde se encontram em bifurcação os dois longos ossos que compõe a parte anterior do braço, garantindo assim a sustentação, funcionando como argola.

Da cintura para baixo, o crucificado era colocado na posição de perfil (de lado), colocando-se uma tabuinha sobre seus tornozelos nas quais era fincado um longo cravo que atravessava os pés logo acima dos tornozelos, já junção com as pernas, que eram ligeiramente dobradas obrigando o crucificado a se apoiar sobre o cravo, potencializando suas dores.

O objetivo desta técnica de tortura era a de causar uma morte lenta e muito dolorosa, já que a causa da morte seria a asfixia. Exaurido de suas forças e obrigado a sustentar o peso de seu corpo sobre cravos que atravessavam sua carne e seus ossos, o organismo reagia com dificuldades de circulação do sangue, considerando que no processo de açoitamento já teria perdido sangue, e as feridas dos cravos provocariam uma lenta hemorragia, o que provocava fortes formigamentos pelo corpo todo.

Na crucificação latina as canelas do condenado eram fraturadas no ato da fixação na cruz para tornar o apoio ainda mais dolorido.

Todo o processo culminava com uma lenta e progressiva diminuição da capacidade respiratória até provocar horas mais tarde o colapso dos pulmões, não sem antes ter sofrido fortes dores abdominais pelo comprometimento do diafragma.

Dependendo da situação do acusado, por piedade os carrascos aplicavam golpes de lança ou espada para acelerar o processo; Jesus teve seu corpo atravessado por uma lança.[10]

Para se comprovar que a cruz era reservada exclusivamente para os inimigos políticos de Roma que contra ela ousavam insuflar as massas, e não para criminosos comuns, podemos citar o exemplo do líder escravo Espártaco e seus milicianos, escravos revoltosos. Mulheres e crianças das milícias de Espártaco foram escravizadas e os homens sobreviventes da batalha na qual a milícia foi subjugada, todos crucificados, inclusive Espártaco.

A aparência de Jesus

O filme “Jesus de Nazaré”, lançado em 1977 pelo diretor Franco Zefirelli fez grande sucesso. Nele, o ator que representa Jesus, Robert Powell, era um homem tão belo que provocava suspiros nas platéias femininas. Tinha cabelos loiros e encaracolados, alva pele indo-européia, brilhantes olhos profundos de um azul bem vivo.

Esta imagem foi utilizada por muitos artistas ao longo da história para retratar a pessoa de Jesus.

A bíblia não faz menção à aparência física da pessoa de Jesus.

Fato é que, na Palestina daqueles tempos, os judeus apresentavam características muito próximas à dos atuais árabes: pele numa tonalidade escura intermediária entre a pele ariana e a pele negróide, olhos entre o castanho escuro e o preto como os cabelos, de aspecto também intermediário entre o ariano encaracolado e o negróide.


Seriam os ensinamentos e práticas de Jesus originais e autóctones?

Sobre a questão da origem da bagagem cultural demonstrada por Jesus, as atenções recaem sobre o misterioso período de pobre documentação histórica que remonta a infância e a juventude de Jesus, já que se estima que seu trabalho começou a obter notoriedade pública a partir dos seus últimos três anos de vida.

Muitas suposições e teorias já se desenvolveram sobrte esta questão. De uma forma generalizada a hipótese mais comum é a de que de alguma forma Jesus estaria se dedicando a estudos.

Isto entraria em contradição com o status que envolvia a pessoa de Jesus, o “filho do carpinteiro”, cujo significado já foi explicado anteriormente. Afinal de contas, sabemos que o acesso das classes populares à alfabetização é algo que surgiu recentemente na história da humanidade, a partir da Revolução Francesa no século XVIII, e mais acentuadamente a partir do século XX, pois mesmo na atualidade encontra-se significativas parcelas das classes menos favorecidas analfabetizadas em países mais pobres.

Até então, a alfabetização era um privilégio das elites. Como Jesus obteve seus conhecimentos ainda permancece um mistério.

Existe uma hipótese de que Jesus teria sido educado no Egito, sob a responsabilidade de sociedades iniciáticas. Pode até ser possível, já que Mateus nos fala que a família de Jesus, logo após seu nascimento, foi para o Egito fugindo da perseguição de Herodes [11], porém, o evangelista é taxativo com relação ao curto período de permanência no Egito e o retorno à Galiléia quando Jesus ainda era um bebê, nada falando sobre o envolvimento de Jesus em escolas iniciáticas egípcias. Assim, estamos diante de uma possibilidade extremamente hipotética.

Outra hipótese, e esta sim muito mais provável, seria a de que Jesus teria sido educado pelos Essênios. Segundo estudos arqueológicos sobre os Manuscritos do Mar Morto, não só sobre o teor dos textos, mas também as circunstâncias que os originaram, sabe-se que os Essênios compunham uma sociedade iniciática estabelecida na região onde teria vivido Jesus.

Judeus por convicção radical, os Essênios seguiam uma rígida disciplina moral e alimentar. Celibatários, dedicavam-se com afinco ao estudo das antigas escrituras, em especial da bíblia.

De vida simples, os Essênios adotavam um estilo de vida isolado em comunidades semelhantes aos monastérios nas desérticas e afastadas regiões de Qmran, ao sul de Israel.

Os Manuscritos do Mar Morto e as circunstâncias que os originaram refletem indubitavelmente todo o ambiente ideológico e histórico no qual viveu Jesus. Tratam-se de uma biblioteca escrita em papiros, encontradas em cavernas da já citada região de Qmran em 1947, considerada uma das mais estupendas descobertas arqueológicas do século XX.

As cavernas nas quais estavam escondidos em jarras situam-se próximas a um sítio arqueológico no qual se constatou a existência de um antigo monastério Essênio destruído por volta do ano 68 da Era Cristã, descoberto pelo padre Roland de Vaux, arqueólogo, no início dos anos 50. Numa região de revoltas políticas e de constantes invasões e guerras, nada mais sensato que preservar uma biblioteca de uma provável destruição escondendo-a num local onde dificilmente seria descoberta por invasores.

Os Manuscritos do Mar Morto reunem documentos datados entre 67 a.C. e 200 d. C., portanto, a comunidade esteve ativa na época contemporânea de Jesus.

Não há nos Manuscritos do Mar Morto nenhuma alusão à pessoa de Jesus, porém, ocorrem uma série de coincidências que de certa forma ligam Jesus aos Essênios.

Os Essênios organizavam-se em grupos de doze discípulos e um líder. Realizavam o ritual eucarístico do pão e vinho. Realizavam o ritual do batismo com água [12], praticavam o celibato, dedicavam-se à cura das doenças, acreditavam na não-violência e pregavam a divisão igualitária dos bens entre os membros da comunidade.

O retiro espiritual realizado por Jesus no deserto dedicando-se ao jejum e meditação por quarenta dias com o objetivo de colocar-se à prova seria uma prática Essênia [13].

A túnica de Jesus era tramada numa única peça, sem costuras [14]. Tramar a túnica numa única peça sem costuras era um costume Essênio[15].

Até o momento não se estabeleceu nenhuma prova cabal de que Jesus teria tido ligação com os Essênios, porém, como podemos perceber, as coincidências são enormes, detalhistas até.

Há uma certa controvérsia sobre a seguinte questão: teria Jesus sido influenciado pelos Essênios ou o contrário? Pois bem, os Essênios entraram em processo de decadência na época posterior à morte de Jesus, e o cristianismo começou a se desenvolver por volta de 70 d.C., e o desaparecimento dos Essênios coincide com esta data. Assim, mais provável que Jesus tenha sido influenciado pelos Essênios que o contrário.


Teria a obra de Jesus terminado na cruz?

Desde o final do século XIX pesquisadores de diversas nacionalidades contestam o desaparecimento de Jesus após sua morte na cruz. Mas, como isso seria possível?

Segundo a tradição evangélica, o corpo de Jesus teria desaparecido da sepultura, ressuscitado. Após algumas aparições e a transmissão de mais alguns ensinamentos, ele teria ascendido aos céus.

Mas há pesquisadores que afirmam que as coisas foram além disso.

Nicolas Notovitch, russo, afirmou que em 1894 teria descoberto no Tibete um manuscrito que estava em guarda de um mosteiro budista na cidade de Himis, no qual haviam registros da vida de um homem santo naquele mosteiro chamado Issa, que seria Jesus.

Nos trinta anos posteriores desenrolou-se uma polêmica sobre o tal manuscrito. Pesquisadores chegaram a acusar Notovitch de fraude, entre eles o hindu Abhedananda, pesquisador, e seu amigo inglês Max Muller, especialista em línguas orientais.

Tanto Abhedananda como Muller chegaram a afirmar categoricamente que a história de Issa não passava de uma grande fraude, anos antes de 1929, quando numa atitude paradoxal lideraram um projeto de pesquisa que culminou na publicação da tradução e comentário do tal manuscrito, corroborando a crença na veracidade da história de Issa.

Os lamas do mosteiro de Himis anos antes negaram a visita de Notovitch e a existência do manuscrito. Porém, naquele ano de 1929, surgiu uma forte corrente de lamas de Himis que contradiziam as declarações dos colegas, afirmando que Notovitch havia sim visitado o mosteiro, e o manuscrito, autêntico.

No mesmo ano de 1929, outro pesquisador russo, Nicolas Roerich, estava realizando trabalhos na região de Ladakh e Caxemira, onde constatou registros da passagem no local de um santo homem chamado Issa, grande mestre de virtude e profeta.

Segundo os registros pesquisados por Roerich, Issa teria vindo de uma terra distante e recebido profunda instrução em mosteiros e outros centros religiosos e culturais da Índia a respeito dos escritos védicos e correntes diversas do hinduísmo. Consta ainda que, após entrar em conflito com as classes sacerdotais por se opor ao sistema de castas, alegando que o mesmo não era o desígnio de Deus para a humanidade, Issa teria sido expulso da Índia, e dirigiu-se ao Nepal.

No Nepal, Issa teria por muitos anos se dedicado ao estudo do budismo, e depois continuou suas viagens, sempre denunciando as hipocrisias das classes sacerdotais, defendendo a redenção das classes menos favorecidas e minorias sociais.

Por tais práticas, Issa também sofreu perseguições na Pérsia de onde foi expulso, tendo retornado então à Palestina, onde reafirmou sua origem israelita.

Ainda hoje, na cidade de Srinagar, na região de Anzimar, na Caxemira, pode-se visitar uma antiga tumba de um profeta chamado Yuz Assaf. Esta sepultura está orientada de leste para oeste, tal como perscreve a tradição judaica. Sobre esta tumba se encontra uma lápide decorada com a imagem de Yuz Assaf, e o mesmo apresenta cicatrizes nas mãos e nos pés.

Yuz Assaf teria morrido por volta dos oitenta anos, e teria se casado, gerando filhos.
Até hoje, os descendentes de Yuz Assaf reivindicam o reconhecimento da descendência direta de Jesus.


Epílogo

Enfim, encerramos esta pequena reflexão de cunho científico sobre a história e a arqueologia de fatos e questões que se relacionam a Jesus, a bíblia e o cristianismo.

Eu espero que este trabalho colabore com a sua reflexão, meu caro leitor, e enriqueça o seus conhecimentos acerca de um dos principais pilares da cultura ocidental: as origens judaico-cristãs.

Para os que não têm fé, que este estudo não seja uma arma de ataque contra os crentes, já que não foi criado com este objetivo. Aos que têm fé, que este estudo sirva para que reflitam sobre suas convicções, agora enriquecidos com maiores conhecimentos sobre aquilo que tanto respeitam.

Longe de ser um tratado completo, este estudo ignora a maioria das milhares de versões sobre as mais diversas passagens bíblicas. É só um pouquinho daquilo que eu conheço e quero, sem nenhuma intenção lucrativa, dividir com você, leitor amigo.

Douglas Gregorio Miguel ::
outono de 2004.

Bibliografia:

- École Biblique de Jerusalém / A Bíblia de Jerusalem / Edições Paulinas, São Paulo, 1985. (antigo e novo testamento).

- Marques, Oscar C. / O Mistério da Rosa Mística / Editora Tecnoprint, Rio de Janeiro, 1991 (em especial o capítulo 5: “A Fraternidade Essênia, ramo esotérico da Fraternidade Branca”).

- Tricca, Maria H. O. (org.) / Apócrifos, os Proscritos da Bíblia / Mercuryo, São Paulo, 1989.

- Tricca, Maria H. O. (org.) / Apócrifos II, os Proscritos da Bíblia / Mercuryo, São Paulo, 1992.

- Vermes, Geza (org.) / Os Manuscritos do Mar Morto / Mercuryo, São Paulo, 1995.

- Wilson, Edmund / Os Manuscritos do Mar Morto / Cia. Das Letras, São Paulo, 1994.

- Putin, P. e Schoereder, G. / Os Anos Misteriosos de Jesus / in Revista Sexto Sentido nº 04 / pp. 32 – 35 / Mythos, São Paulo, 1994.

- Cavalcante, R. / Quem foi Jesus? / in Revista Super Interessante nº 183 / pp. 41 – 49 / Abril, São Paulo, 2002.

- Toledo, R. P. de / O Jesus da História / in Revista Veja de 23 de dezembro de 1992 / pp. 48 – 59 / São Paulo, Abril, 1992.
[1] - Lc 1, 5; 2, 1-2.
[2] - Meier, John / Rethinking the Historical Jesus / Doubleday, New York, 1991.
[3] - Declaração dada à revista Super Interessante nº 183, publicada em dezembro de 2002.

[4] - Tradições orais: conhecimento não documentado, não escrito, transmitido de boca em boca.
[5] - Não confundir a ordem com a qual se apresentam os livros bíblicos com a ordem cronológica na qual foram escritos; na bíblia, o primeiro evangelho “oficial” que aparece é o de Mateus, mas cronologicamente, o primeiro evangelho a ser escrito foi o de Marcos.
[6] - A título de curiosidade, a famosa sigla INRI que temos divulgada hoje em dia é a abreviatura de parte do que estava escrito no alto da cruz, especificamente a frase em latim, a saber: IESUS NAZARENUS REX IUDEORUM – Jesus Nazareno Rei dos Judeus.
[7] - Jo 18, 37.
[8] - Jo 19, 21-22.
[9] - Mt 22, 15-22; Mc 12, 13-17; Lc 20, 20-26.
[10] - Para maiores detalhes sobre as técnicas de crucificação confira: Keller, Werner / E a Bíblia Tinha Razão / Melhoramentos, São Paulo, 2000.
[11] - Mt, 2 13 – 23.
[12] - É quase que certo que João Batista teria sido um Essênio, pois a descrição de sua pessoa e de seus hábitos como temos no evangelho de Mateus 3, 4 é extremamente semelhante ao modo de vida dos Essênios.
[13] - Mt. 4, 1-2.
[14] - Jo 19, 23.
[15] - Marques, Oscar C. / O Mistério da Rosa Mística/ Tecnoprint – Rio de Janeiro, 1991 – p. 80.

sábado, julho 31, 2004

A Vitória Grega - Olimpíadas 2004

A Vitória Grega
Resumo: um comentário sobre as olimpíadas de Atenas - o significado da simbologia da cerimônia de abertura e as implicações políticas e culturais previstas do evento.
Quando os gregos criaram os jogos olímpicos com toda certeza nem desconfiavam dos desdobramentos que este evento teria vários séculos depois.

A Olímpiada de Moscou em 1980 foi um marco na história dos jogos olímpicos modernos, na medida em que a cerimônia de abertura representava a efervecência que antecipava os acontecimentos do final da década: a abertura da então União Soviética para o mundo, o advento da mundialização e as radicais transformações na cultura e nos costumes que viriam a partir de então.

Os espanhóis e os coreanos tiveram um êxito muito grande no que diz respeito à grandiosidade exigida e na interrelação sócio-econômica e histórica que decorreu do evento: o surgimento da União Européia e o ápice dos tigres Asiáticos.

Como foi amplamente comentado na imprensa, os gregos estão apostando tudo nesta olimpíada no sentido de provocar a “decolagem” da Grécia no cenário internacional, em especial no que diz respeito ao seu já tão forte turismo.

Há questões que se referem a momentos culturais da humanidade, como foi por exemplo, o Iluminismo em relação à Revolução Francesa; mas este movimento cultural deu-se de forma ligada a uma determinada época.

A filosofia e a cultura helênica vai muito além disso, aliás, muito além das fronteiras da própria Grécia – Alexandre, O Grande que o diga – trata-se da configuração mais completa dos fundamentos da civilização ocidental.

E os gregos exploraram isto de forma magistral na cerimônia de abertura das olimpíadas.
O Centauro – meio homem, meio cavalo – símbolo mitológico do lado animal que existe dentro de cada um de nós e que precisa ser domado, este eterno conflito entre razão e instinto – bem foi colocado na cerimônia como elemento primordial que fecundou a criatividade humana – o conflito – como bem diria Heráclito, “da tensão entre a corda e o arco na cítara nasce a mais bela harmonia” – a harmonia dos contrários.

Tanto assim foi que Eros esteve presente do começo ao fim da bela cerimônia que bem poderia ser interpretada segundo um instrumental de Nietzsche – a razão de Apolo em contraposição à embriaguês de Dionísio.

A tragédia grega – o despedaçar do bode que ocorria no final das cerimônias bacantes nas quais a embriaguês e a libertinagem garantiam o caos gerador – também esteve presente de forma bem direta – o esfacelar da cabeça, representando os vários momentos do desdobramento da cultura grega no ocidente – de memorável representação da pedra cúbica pitagórica, presente de forma intensa até os dias de hoje no simbolismo esotérico – por exemplo, o trono do Imperador, arcano IIII do tarô – a pedra fundamental da criação, centelha divina dentro de cada homem – a racionalidade construtora da cultura, seu alicerce mais fundamental.

Espetacular desfile da “clepsidra” na qual toda a história helênica e ocidental foi contada de forma direta e completa, a partir da civilização minóica até a civilização contemporânea. Édipo, espetacular, Héracles (Hércules) em combate com a Hidra, a guerra de Tróia e por aí vai.

Nada mais mediterrâneo que a oliveira, presente de Palas-Atena, a deusa da sabedoria, para os homens. Alimento indispensável ao homem mediterrâneo com seu azeite de múltiplo uso, uma árvore resistente que adapta-se aos mais variados tipos de terreno – assim como se idealizava a Hélade (grécia) de Péricles, o Pai da Democracia, contemporâneo de Sócrates, Platão, Aristóteles e outros grandes mestres da cultura helenista, mãe de toda cultura ocidental.

E percebam – do começo ao fim, Eros, o impulso fecundador, sempre presente... aliás, a cerimônia em seu momento mais humano – pós-Centauro – foi iniciada pelo casal de amantes – sede fecundos! E gerai uma civilização! E aqui estamos nós!

Mudando um pouco o foco dos comentários, exponho a má impressão sobre o mau gosto da roupa da delegação brasileira na abertura – um verde-abacate-cítrico cheirando a New Wave dos anos 80 (dá-lhe B 52), com uma ridícula textura-estampa nas gravatas e saias que, se não fossem os comentaristas da Globo, eu jamais ligaria com a textura das calçadas de Ipanema – mais uma vez o Rio de Janeiro apresenta-se em nome do Brasil, ignorando todo nosso ecletismo e grandesa cultural.

Longe de mim querer alimentar a tola rivalidade entre paulistanos e cariocas, já que enquanto bandeirante sou suspeito em relação a quem adora papar goiaba, a velha hegemonia ditatorial presente em nossas entidades esportivas só pode ter como resultado absurdos como esta ridícula escolha do projeto de Mônica Conceição para os trajes de abertura – isso sem comentar a candidatura sem base alguma do Rio de Janeiro para as Olimpíadas. Mas isto é outra história.
Parabéns para as delegações africanas que apresentaram belíssimos e imponentes trajes, como por exemplo, a Etiópia, a Libéria, Mali, Niger, Nigéria e Benin, mostrando que não só a miséria é algo que a eles deva ser relacionado. A Malásia (Ásia) também fez memorável desfile de abertura.

Já Barbados, Brasil e Botsuana... deixaram muito a desejar neste sentido.

Parabéns para Gianna Angeloupolos, presidente do comitê organizador, pela presença carismática, confiante a acolhedora que passou ao mundo no discurso de boas vindas e abertura das Olimpíadas.

Bancaremos os próximos Pan-Americanos – onde? – Rio de Janeiro, ótimo, vejamos no que vai dar. E assim, bancando eventos e espetáculos esportivos do gênero, quem sabe os países emergentes poderão encontrar um caminho na fascinante teia de comunicação internacional para mandar o seu recado: podemos trabalhar, podemos vencer! E que bela vitória grega!
Douglas Gregorio::

segunda-feira, maio 31, 2004

Tróia

Segue um comentário do filme Tróia, com explicações literárias, arqueológicas e mitológicas, bem como indicações de livros e outros filmes do gênero.
TRÓIA (Troy) - E.U.A - 2004
Brad Pitt como AQUILES.
Eric Bana como HEITOR.
Orlando Bloom como PÁRIS.
Diane Krueguer como HELENA.
Sean Bean como ODYSSEUS (Ulisses).
Direção de Wolfgang Petersen.
Roteiro de David Berniof, baseado no poema A ÍLIADA de Homero.
Estúdio: Warner Bros.
Tempo: 165 minutos.

É claro que um helenista (aficionado de cultura grega) como eu não poderia se furtar a assistir e comentar um filme como este. Quando soube que estava sendo preparado o lançamento de Tróia há alguns meses, uma ansiedade muito grande tomou conta de mim. Acredito que fui recompensado.

Meu primeiro contato com a mitologia grega deu-se por volta dos meus dez anos, quando então li as obras de Monteiro Lobato "O Minotauro" e "Os Doze Trabalhos de Hércules".

Desde aquela época, meu interesse por mitologia em geral, em especial a grega e a egípcia nunca mais acabou.

Um cego não pode escrever... então ele conta suas histórias oralmente. Assim foi Homero, o rapsodo grego que desenvolveu os poemas orais, posteriormente escritos não se sabe por quem, que deram origem a duas das principais obras da mitologia grega: a Ilíada e a Odisséia, sendo a primeira inspiração para o grande lançamento da semana: TRÓIA.

Após o sucesso de Gladiator (2000), Holywood está tentando retomar o sucesso dos grandes épicos que "arrebentaram" nos anos 60, com destaque para "Spartacus" e "Ben Hur". E Tróia, esta superprodução que já está batendo recordes (porém, não todos os que seus produtores esperavam) está vindo nesta linha.

O filme não faz menção aos aspectos mitológicos do poema, privilegiando o aspecto histórico. Infelizmente. Talvez porque a imensa variedade de versões dos mitos faz com que isto se torne um tanto que impreciso.

Tirando a "carinha de bebê" de Brad Pitt, julguei sua representação de Aquiles muito condigna para com o mito. Talvez um Schwarzenegger reunisse imagem e genialidade dramática para conduzir o papel atendendo à expectativa mítica de forma mais completa, porém, Brad Pitt encarnou a rudez e a friesa do sanguinário semideus Aquiles de forma aplaudível, e mesmo genial. Além disso, o mais famoso brutamontes do cinema deve estar mais ocupado com seus compromissos de governador da Califórnia.

Como podemos observar, é claro que Tróia deve ter custado a Brad Pitt vários meses de musculação intensiva, e talvez... provavelmente... ajudado por anabolizantes... ou ainda por algum tratamento especial de imagem.

O clima de aventura toma conta do filme do primeiro ao último minuto, e podem acreditar: nem se sente os 165 minutos passarem.

Cenários e figurinos espetaculares. Fotografia e efeitos especiais idem. Além da atuação memorável de Brad Pitt, Eric Bana "arrebentou" com sua formidável representação do herói Heitor que quase ofuscou Brad Pitt. Com certeza, Diane Krueger fez jus ao papel de Helena, a mulher mais bela do mundo, de certo que pouco destaque teve ao longo do filme.

Filme rodado no litoral mexicano, com uma série de problemas, entre eles nada mais, nada menos que dois furacões, e, coincidência irônica do destino, Brad Pitt sofreu uma lesão no tendão de Aquiles e as filmagens precisaram ser suspensas por duas semanas.

No final do filme, no discurso de encerramento de Odysseus (Ulisses) ocorre uma dica: parece que teremos a continuação da história num novo filme, muito provavelmente na continuação do poema de Homero, a Odisséia, que narra o retorno de Odysseus para a ilha que reinava, Ítaca, retorno esse que veio a durar vinte anos devido à maldição do deus do mar Posseidon, um dos protetores de Tróia.

A guerra de Tróia segundo a mitologia clássica: Aqueles que viriam a ser os pais de Aquiles, a nereida (deusa do mar) Tétis e o mortal Peleu decidiram se casar. Então, ocorreu uma grande festa no Olimpo. Éris, a deusa da discórdia foi desconvidada. Ofendida, rumou ao Jardim da Hespérides e obteve o valioso fruto de ouro, o "Pomo das Hespérides", que seriam as valiosas frutas de ouro maciço que traziam também poderes místicos, um tesouro cujo acesso era negado até mesmo aos deuses.
Éris lançou no meio da festa o pomo de ouro com a inscrição: "À mais formosa". Hera (Juno), Atena (Minerva) e Afrodite (Vênus) começaram então a brigar entre si pelo prêmio. Estava feita então, a discórdia. Daí a expressão "pomo da discórdia".

Para resolver o impasse, os deuses decidiram convidar o mortal Páris para decidir. Assim, Hera lhe ofereceu riqueza e poder, Atena, sabedoria e sagacidade guerreira e Afrodite, o amor da mulher mais bela do mundo. É claro que Afrodite acabou levando o pomo de ouro. Só que a mulher mais bela do mundo já era casada: Helena, esposa de Menelau, rei dos gregos, primo do general Agamenon. Com a ajuda de Afrodite, Páris rapta Helena, e esta se apaixona por ele, e passam a viver em Tróia (Ílion - daí Ilíada).

Menelau e seus parentes não se conformam com a afronta e partem com uma frota de mil navios cheios de soldados para resgatar Helena de Tróia, cercada por muros que jamais foram transpostos por inimigos.

O exército grego tinha como seu mais destacado guerreiro Aquiles, o aqueu, líder da elite dos guerreiros, os Mirmidões. Extremamente hábil em todas as artes bélicas, Aquiles era dotado da força dos deuses. Sua mãe, Tétis, no ato do seu nascimento, segurando-o pelos pés o mergulhou no Rio Styx (Estíge ou Estígia), o rio que banha o reino dos mortos, tornando-o invunerável, exceto pelos calcanhares por onde foi segurado. Junto de Aquiles seguia o rei de Ítaca, não menos destacado guerreiro, conhecido pela apurada astúcia, seu melhor amigo, Odysseus (Ulisses). Havia uma profecia que dizia que se ele, Odysseus, partisse para Tróia, não voltaria para sua casa em menos de 20 anos. Outra versão diz que essa era uma maldição de Posseidon (Netuno), deus do mar. A história destes vinte anos originou o outro poema de Homero, a Odisséia, já retratada no cinema nos anos 60 sob o título de "Ulisses".

Os Troianos, por sua vez, seriam defendidos por seu mais destacado guerreio Hector (Heitor), "o domador de cavalos", pelo seu rei e pai Príamo e seu irmão Páris.

Estava feita a guerra.

Anos e anos se seguiram de batalhas e batalhas, até que Aquiles entrou em desacordo com Agamenon sobre a posse de Criseida (Briseida em algumas versões), sacerdotisa de Apolo, protetor de Tróia, feita refém durante a profanação do templo de Apolo por Aquiles. Em algumas versões, ambos teriam se apaixonado. Este decidiu retirar-se da batalha, baixando a moral dos exércitos gregos, dado que, quando ele estava em batalha, a vitória era certa.

Então, o Mirmidão Pátroclo, o principal pupilo de Aquiles (seu primo em algumas versões), vestiu sua armadura e assumiu seu lugar nas batalhas, sendo morto por Heitor que o confundiu com Aquiles. Inconformado com a morte do discípulo, Aquiles retorna ao combate, forçando a volta dos troianos para dentro de seus muros, exceto de Heitor que bravamente decidiu enfrentá-lo. Por três dias Heitor foge de Aquiles correndo em torno dos muros de Tróia até que, finalmente, recebe um golpe com a lança de Peleu, pai de Aquiles, na garganta.

Para humilhar os troianos, Aquiles amarra Heitor pelos pés e o arrasta num grotesco espetáculo.

Mais tarde, Tróia é finalmente invadida através de um plano de Odysseus. Os navios gregos se retiram, fingindo rendição, porém, se escondem numa baía entre as montanhas. Deixam como sinal de rendição um presente: uma grande escultura de um cavalo. Os troianos festejam e se embebedam, baixando a guarda, levando o cavalo para dentro dos muros de Tróia como um troféu.

Porém, na calada da noite, de dentro do cavalo surge um tropa grega, entre os quais Odysseus e Aquiles, que prontamente iniciam o saque em Tróia, abrindo os portões para as tropas gregas que até então estavam escondidas.

Mais tarde, os troianos se rearmariam e mais guerras se dariam, sob o comando de Enéias.

Muitos, muitos mais detalhes, personagens e versões deste mito existem, algumas retratadas no filme, e várias outros não. Porém, é basicamente esta a passagem que foi utilizada pelo roteirista.

Dicas de livros:
Homero / Odisséia / Trad. A. P. Carvalho/ Abril Cultural, São Paulo, 1981.
Bulfinch, T. / O Livro de Ouro da Mitologia / Trad. David Junior / 25ª / Ediouro, Rio de Janeiro, 2001.
Pinsent, J. / Mitos e Lendas da Grécia Antiga / Trad. O. M. Cajado / 2ª / Edusp-Melhoramentos - São Paulo 1978.
Lobato, M / Os Doze Trabalhos de Hércules - Tomos 1 e 2 / 13ª / Brasiliense - São Paulo, 1965.
Existem um sem-número de títulos versando sobre mitologia grega em geral e sobre a guerra de Tróia.

Dicas de filmes:
"Fúria de Titãs", dir. Desmond Davis, Warner Bros. - E.U.A. 1981 - 118 min., com Harry Hamlin, Lawrence Olivier, Ursula Andress, Judi Browker.
Narra o mito de Perseu, o herói que decepou o pescoço da Medusa, o monstro que transformava em pedra as pessoas que o olhassem nos olhos, domando Pégaso, o cavalo alado, lutando contra Tritão, o monstro dos mares, pelo amor de Andrômeda.

"Ulysses", dir. Mario Camerini - Itália, 1954, 104 min., com Kirk Douglas e Anthony Quinn. Narra a "Odisséia", poema de Homero que é continuação da Ilíada, com o retorno de Ulisses (Odysseus) vivido por Kirk Douglas. Rei de Ítaca, viveu um atribulado retorno errante durante 20 anos para sua casa, após a guerra. Nele são retratadas passagens mitológicas muito conhecidas, tais como o episódio em que Ulisses ordena que seja amarrado ao mastro de seu navio, tapa os ouvidos de seus homens com cera e se delicia com o canto das sereias, ou ainda sua luta com o cíclope Polifemo, gigante de um único olho no meio da testa.

DOUGLAS GREGORIO::
Maio de 2004.

sábado, abril 10, 2004

Eu sou Spartacus!

Resumo: trata-se de um comentário a um dos maiores filmes de todos os tempos.

Spartacus
Dirigido pelo legendário Stanley Kubrick (Laranja Mecânica, Lolita, 2001 Odisséia no Espaço), estrelado por um dos maiores galãs da história de Hollywood, Kirk Douglas (Ulisses, Minha Filha Quer se Casar, Glória Feita de Sangue, A Montanha dos Sete Abutres), pai do não menos famoso Michael Douglas, e também pelo recentemente falecido Peter Ustinov, Laurence Olivier e Tony Curtis. 4 Oscars.

Exibido à exaustão pela TV brasileira nas décadas de 70 e 80, o filme é ambientado na época pré-imperial da República Romana, e narra a história de Spartacus, escravo cujo destino o conduziu a uma escola de gladiadores. Sempre inconformado com a escravidão, Spartacus era conhecido por sua rebeldia e insubordinação.

Durante uma rebelião fugiu da tal escola, e depois organizou um movimento que agregava cada vez mais escravos rebeldes e os escravos eram a esmagadora maioria da população na época. Spartacus liderou então a formação de uma milícia treinada segundo as técnicas que aprendera na escola de gladiadores, fazendo com que obtivessem durante muito tempo grandes vitórias sobre a poderosa e temida Legião Romana, dadas as técnicas de combate bem mais aprimoradas pelos gladiadores que lutavam sempre para defender as próprias vidas.

O objetivo do movimento de Spartacus eram um só: fugir da Itália, deixando para trás a condição escrava.

Ao mesmo tempo a República Romana vivenciava seus últimos dias: os plebeus liderados pelo Senador Graccus (Charles Laughton) lutavam pela manutenção da República, na qual poderiam manter direitos conquistados; já os patrícios estavam cansados de dividir o poder com os plebeus, e lutavam pela instauração do império, liderados pelo Senador e General Crassus (Laurence Olivier).

De início o movimento de Spartacus foi subestimado como uma corriqueira revolta que desapareceria dentro de algumas semanas, mas o Senado Republicano começou a se incomodar quando viu o movimento assumir as proporções de uma milícia e subjugar enormes contingentes da Legião Romana.

Servindo de mero joguete político nas mãos dos adversários Graccus e Crassus, o movimento de Spartacus foi enfim destruído pela união dos exércitos de Julio César, Pompeu e Crassus, quando este último dobrou a paga do contrato que Spartacus realizou com piratas que conduziriam sua milícia em seus navios para fora da Itália, além de lançar mão dos numerosos recursos estratégicos dos quais dispunha com larga vantagem sobre a milícia de Spartacus.

Final extremamente emocionante e triste, quando Spartacus se vê obrigado por Crassus a matar uma das pessoas a quem mais amava, seu companheiro e praticamente filho adotivo Antoninus (Tony Curtis) para livrá-lo do destino reservado ao vencedor: a pena capital aplicada a todos os que desafiavam o poder de Roma, a mesma que Jesus Cristo receberia anos mais tarde.

Destaque para cenas de ação, como a do combate entre Spartacus e o gladiador negro na escola de Cápua; a hilariante cena do show de prestidigitação de Antoninus no acampamento da milícia em que "prega uma peça" em Spartacus e a cena final em que a esposa de Spartacus apresenta-lhe seu filho ainda bebê que nascera em meio à batalha na qual ele havia sido preso, despedindo-se suplicando que ele morra para não sofrer, além de, é claro, a cena do massacre final da mílicia encurralada entre três exércitos da Legião Romana, após a qual os sobreviventes impedem a identificação de Spartacus por Crassus aos gritos de "Eu sou Spartacus!"

A genialidade de Kubrick, somada a não menor genialidade de Kirk Douglas que não foi só ator, mas também produtor executivo, geraram um personagem comovente e apaixonante, dotado de um profundo sentimento de ódio pela escravatura, marcado por sua rudez e ignorância, sendo ao mesmo tempo doce e humanitário, apaixonado por sua espôsa Varínea, e fiel companheiro de todos a quem amava.

Fã de Kirk Douglas que sou, acompanhei sua carreira e digo que Spartacus indiscutivelmente foi seu ponto mais alto, seguida da sua interpretação do grande artista Vincent Van Gogh.

Além de tudo isso, o mais tocante é que o roteiro, baseado no romance de Howard Fast, é inspirado na vida real de Spartacus, um dos maiores heróis de toda história da humanidade.

Quem assistiu o recente "Gladiator" de Ridley Scott (2000) perceberá marcantes coincidências entre os dois filmes, em vários pontos temáticos idênticos, tais como: tramas políticas no mundo romano antigo, escravagismo, gladiadorismo, a amizade com o gladiador negro, relações afetivas mórbidas do personagem central com a mulher amada e filho bebê, mas no meu entender Spartacus de 1960 não foi superado nem quarenta anos depois com toda a tecnologia aplicada.

Podemos até perceber uma inegável semelhança física e também em estilo de performance entre atores que representaram papéis semelhantes nos dois filmes: Laurence Olivier como o arrogante e ganancioso general Crassus em Spartacus, e Joaquin Phoenix que interpretou o mesquinho e covarde imperador Commodus em Gladiator.

Porém, tenho que admitir que os recursos tecnológicos atuais, somados às atuais tendências da sétima arte que permitem toques de ousadia mais agressivos que nos anos 60, fazem com que as cenas de ação de Gladiator obtenham vantagem em realismo e emoção sobre as cenas de ação de Spartacus. Ressalvo que, como sou nascido em 1967, não tive a oportunidade de assistir Spartacus na telona, como assisti Gladiator, e bem sabemos que na telinha qualquer cena de ação fatalmente perde em emocionalismo e realismo.

Curiosidade: os gritos da multidão "Eu sou Spartacus" na cena da derrota da milícia foram gravados durante uma partida de futebol americano no Spartan Stadium na Universidade de Michigan. A produção mobilizou 8500 figurantes.

Eu em particular tenho especial apreço por este filme que consagrou a genialidade de Kirk Douglas, tornando meus pais fãs do ator. Nem é preciso dizer qual foi a homenagem que fizeram ao escolherem meu nome. E eu me orgulho disso.

Spartacus é considerado por muitos como um dos maiores clássicos da história de Hollywood, um dos maiores épicos de todos os tempos, e para quem se interessou e ainda não viu, ou já viu e quer rever, será interessante locar as cópias e estabelecer um paralelo com "Gladiator".

Prepare-se: como nas grandes produções da época, é bem longo - 183 minutos.

Douglas Gregorio::
março de 2004.

domingo, fevereiro 01, 2004

Carandiru Superstar

História viva, uma lenda urbana: Carandiru Superstar.
Resumo - Trata-se da crônica de uma visita ao presídio do Carandiru nos dias que se seguiram à sua desativação no ano de 2002, com a descrição detalhada dos aspectos físicos e depoimentos de carcereiros e visitantes.

Como todos sabemos, o maior presídio da América Latina hoje não existe mais. A Casa de Detenção do Estado de São Paulo, mais conhecida como "Carandiru", foi desativada há algumas semanas. Necessidade, inadequação, propaganda política em véspera de eleição... fato é que o Carandiru deixou de existir, e está aberto à visitação pública.

Antes de prosseguir, cabe aqui algumas explicações: o Complexo Penitenciário do Carandiru continua ativo. Ele é composto de uma série de instituições penais, como a Penitenciária do Estado e a penitenciária feminina. A instituição desativada foi a maior e a mais problemática de todas elas, a já citada Casa de Detenção. As demais continuam ativas.

Era uma quinta-feira, dia três de outubro de 2002. Céu parcialmente nublado, tarde de calor em início de primavera. Após uma visita ao dentista cujo consultório fica nas imediações do Carandiru, senti-me como que contaminado pela febre da curiosidade. Bastava alguns poucos quarteirões e a travessia da avenida Cruzeiro do Sul que eu estaria lá dentro... da cadeia!

Será que foram simplesmente as circunstâncias que me levaram a visitar o Carandiru? Não acredito. Caso contrário não teria saído de minha casa com a máquina fotográfica abastecida.
Nojento, bizarro, triste, pavoroso... sabe-se lá quais os adjetivos que melhor classificam a sensação de estar próximo ou simplesmente se pensar no Carandiru. Mas posso afirmar com toda segurança que o estranho fascínio que me atraiu na oportunidade de conhecê-lo por dentro não contaminou só a mim, como você leitor verá a seguir.

Após fazer as minhas orações e pedir proteção espiritual - ora bolas, é um direito que eu tenho, afinal de contas estava adentrando um local de comprovada aura macabra - cheguei ao Carandiru, e de início fiquei um pouco surpreendido em estar vivenciando a situação de estar pisando num solo que foi proibido por muitas décadas.

Logo na fachada, na avenida Cruzeiro do Sul, uma faixa sobre o portal que dizia: CASA DE DETENÇÃO ACABOU, e pequenos cartazetes de computador colados nos muros à altura dos olhos, dizendo: "visitas de terça a domingo, das dez às dezesseis horas. Depois, fiquei sabendo que a visitação se encerra no dia 20 de outubro.

Primeira parte: corredores fechados por grossos e pesados portões de ferro que separavam cada estágio do prédio: pátio de estacionamento, pátio de recepção, "hall" principal que dava acesso aos pavilhões e outros.

Algumas placas toscas indicavam os caminhos a seguir. Eu tinha opção de ir para a esquerda, ou para a direita, e escolhi esta última. Antes, tive de fornecer nome e telefone a um dos dois recepcionistas engravatados que habilmente digitavam estes poucos dados de cada um dos visitantes... muitos visitantes.

Se não me falha a memória, comecei pelo pavilhão,... 10? 7? 6? Sei lá, comecei por um dos três que estavam abertos à visitação.

Mais muros, mais portões pesados até finalmente chegar num portal fechado pelas tradicionais barras verticais que nos lembram muito bem uma cadeia.

Entrei.

A primeira coisa que avistei foi uma placa branca esmaltada com letras em azul-marinho que dizia: “Jesus Salva”, placa esta marcada pelas sucessivas pinturas de parede que com certeza ocorreram ao longo dos anos.

Na sua porção mais central onde naturalmente circulam as pessoas, os degraus das escadas estavam tão desgastados pelo uso contínuo durante anos sem manutenção que exibiam polidos tijolos que ficavam por debaixo de uma camada de concreto que não existia mais. As paredes... pois bem... mesclando uma estética que girava entre o “sentimentalmente brega” ao “excessivamente comercial”, eram artísticamente decoradas... é sério, acreditem. A cada patamar das escadarias tinhamos um grande painel, um afresco, sim, afresco, sem exagero.

Primeiro painel: um grande coração florido com a frase: "mãe, parabéns pelo seu dia!"; com as paredes em branco salpicado de bolinhas vermelhas e verdes, do tamanho da circunferência de uma laranja.

Segundo andar, um painel imenso: Hércules, personagem Disney reproduzido com extrema perfeição de formas e cores, numa cena que envolvia vários outros personagens do filme.
Terceiro andar, Pocahontas, idem.
Talvez nesta narrativa eu esteja trocando a ordem dos painéis, o que não compromete a descrição.

Finalmente, o quarto andar. Um funcionário indicava a direção a seguir. Um longo e sombrio corredor de poucas janelas, fios elétricos aparentes no teto, tudo em azul-marinho descascado. Agora sim, a coisa parecia ficar com cara de cadeia. Um infindável número de pequenas portas de ferro pesado, com uma pequena janelinha em retângulo: as celas, abertas sim, porém não era permitido adentrar.

Camas de concreto junto às paredes, um box sem paredes com um vaso sanitário e um chuveiro. A célebre janela quadriculada por barras, de onde vem a expressão: "ver o sol nascer quadrado". Era isso a cela.

Caminhei por um longo corredor. Dobrei à esquerda e, na próxima esquina, uma aglomeração em torno de um rapaz aparentando entre 25 e 30 anos, de óculos escuro, displicentemente sentado num banquinho com os pés apoiados noutro. Crachá de identificação e radiotransmissor na mão. Tratava-se de um dos agentes penitenciários, popularmente conhecidos como carcereiros.

Empolgado, ele explicava às centenas de curiosos como eu que circulavam por ali histórias, lendas e como era a vida no Carandiru.

São algumas de suas explicações. Vou manter o linguajar coloquial e popular, com todos os erros de português:

"A administração só indicava o pavilhão, era o preso novo que tinha que achar um numa cela. Entre estas mais de cem cela, era ele que tinha que achar um lugar pra ficar, não havia controle algum. A administração sabia dizer o pavilhão que o preso ficava, mas a cela que ele ficava só pelo costume, não tinha nada registrado.”

“Bandido é folgado mesmo. Eles tinha no café da manhã: pão com manteiga, pão sem manteiga, frutas, café, e semanalmente cada um recebia um saquinho com duzentas gramas de leite em pó. E quanta gente boa aí fora nem se lembra da última vez que bebeu leite... bandido é folgado mesmo. Se vocês via na TV eles fazendo rebelião porque comia mal, era só desculpa. Nós (funcionários) comia a mesma comida que eles, fornecida pela De Nadai. Bandido é folgado mesmo, quando mais você dá, mais ele qué".

"As duas maior fuga foi uma de quarenta e três presos, e outra de cento e cinquenta e quatro presos. Mas foram exceção, a maioria dos túneis era descoberta antes deles acabá de cavá".

"As cela abria de manhã e fechava às dezesseis hora. Durante o dia eles circulava livre pelo pavilhão e pelo pátio, só não podiam ir de um pavilhão pra outro... de certo que sempre tinha um jeitinho de alguns fazê uma visitinha no outro pavilhão”.

Uns trabalhava, um pouco, mas a maioria passava o dia inteiro sem fazer nada mesmo".

"Toda segunda-feira era o dia do acerto, que era feito aqui, exatamente neste corredor, o corredor dez, que fica mais nos fundo do pavilhão. Era só dois agente para vigiá o pavilhão todo, e ficava dificil controlar o que ocorria aqui, pois até chegá alguém, o fato já tinha acontecido. Eles acertava dívida, diferença, bronca, tudo o que você pudesse imaginar. Era a chamada "segunda-feira nervosa". Nos acerto ocorria as coisa mais estranha possível. Uma coisa que costumava acontecer era a seguinte: se alguém devia demais e precisava pagar com a vida, só tinha uma saída: pagá com sua mulher, caso ele tivesse uma, durante a visita íntima. Isto se o cara achasse a mulher gostosa e aceitasse ela como pagamento. E a mulher... ou concordava, ou perdia o companheiro".

“As rebeliões eram fáceis de identificar: logo pela manhã, o movimento pelos corredores era mínimo, e o silêncio absoluto... a gente já se preparava".

Até o momento eu estava achando que não valia a pena fotografar aquele ambiente horrível, mas resolvi então registrar o dito "corredor dez", e algumas celas... tudo como se vê em filmes: paredes forradas de fotografias de mulheres nuas. Tudo exatamente como eu imaginava. Numa das celas, cheguei a ver uma pequena televisão PB, daquelas que se fabricavam nos anos 70, deixada ali. Com certeza, já não funcionava há anos.

Depois de dar a volta completa no corredor, parei para ouvir outro carcereiro:

"Nas rebeliões, eu tinha que ficar e correr risco, senão eu ia ficá com fama de “bunda mole” e ia perdê o respeito que eu tinha conquistado dos preso”.

“Quando a gente percebia que ia ter rebelião, já pegava o rádio e falava lá na frente: “a chapa está esquentando!".

"Como eu nunca fugi das rebelião, muitas vezes cheguei a ser chamado para mediar rebeliões noutros pavilhões".

"Ah, aquele do Goulart de Andrade, o "eu vou mas eu volto", era um dos preso mais respeitado de todo o Carandiru. Idoso, não fazia mal a uma mosca, só que já não sabia viver lá fora. Cumpriu pena, foi solto, e de propósito aprontou uma pra voltar. A vida dele era aqui".

"Estupros? Não ocorria, exceto na época em que não havia a visita íntima. Porém, a gente sabia da vida deles aqui fora. Depois das dezesseis horas, o que ocorria dentro da cela a gente já não sabia".

"Os túneis nunca eram cavados de dentro pra fora, e sempre de fora pra dentro. Os comparsa alugava uma casa na vizinhança e faziam o trabalho".

"Tinha preso que saia pra tomar uma cachaça lá fora na rua e voltava como se fosse a coisa mais normal do mundo".

"Alguns, quando cumpriam a pena e saiam, nós tinha que acompanhar até a casa de um familiar, e não era raro não encontrar mais ninguém no endereço que eles sabiam. Eles não tinham mais noção de como se atravessar a avenida, tomar ônibus, metrô, apertar botão de semáforo, esqueciam completamente as noções da vida lá fora".

Desci, fotografei painéis e afrescos. Na entrada, parei novamente para ouvir o depoimento do carcereiro que controlava a porta de entrada principal do pavilhão, que constantemente precisava interromper sua fala para pedir pro pessoal que se aglomerava para ouvi-lo liberar o trânsito, pois haviam centenas de pessoas no entra e sai. Ele dizia:

"Bandido é asseado, as celas e o ambiente em geral era tudo muito limpo, pois isto faz parte do regimento interno, é uma questão legal, cabe ao condenado manter o asseio e a organização do local onde cumpre pena. Se vocês estão vendo tudo sujo e bagunçado agora, é por vários motivos. Primeiro, eles mudaram e não iam ficar pra arrumar o resto que ficou pra trás. Segundo, o povo é muito destruidor. Estes riscos que vocês estão vendo sobre as paredes foi a molecada que veio de fora que fez depois que se abriu para visitação”.

“Nos primeiros dias (da visitação) podia entrar nas celas, mas o pessoal começou a levar coisas e destruir o que lá estava”.

“E por último, depois que todos saíram, precisamos entrar e fazer severa revista em tudo para verificar se tinha alguma coisa comprometedora que eles tinham esquecido. Foram encontradas 245 facas".

"Era só reparar: uma coisa é ser pobre, e outra é ser sujo. Uma camisa furada não precisa estar amarrotada ou encardida. Era só reparar, quando a visita era suja, a cela do cara era mais suja ainda. Mas a maioria era muito organizada e asseada".

"Garota, por favor, não faz isso, não grava o que eu tô falando, sou um funcionário público, pode me comprometer".

"O cigarro era a moeda corrente, sempre em maço, e o Derby valia um real. Se vocês repararam, há uma cela com um cartazinho: “vendo toca-fitas por 50 maços".

"Tinha um detento que me pediu para por favor, na frente dos outros não chamá ele pelo nome, pra chamá ele de ladrão, pros outro não tirá sarro dele. Se não chamasse eles de ladrão, eles perdia o respeito dos outros”.

"Eles tinham gíria e uma linguagem muito própria, e a gente (os carcereiros) pra ser respeitado tinha que falar igual. Não adiantava eu pedir para um preso se apressar para sair da cela porque a demora dele estava atrasando todos os demais. Ele ia rir da minha cara. Tinha que chegar e gritar: “ô ladrão, se liga e desengancha sua bica pra não travar a corredeira”. Aí a coisa mudava de figura".
"Travestis, estupradores e jurados de morte pediam proteção, iam pro pavilhão cinco. Não podia levar o cara qualquer hora, tinha que ser planejado, na hora certa, depois que as cela tinham fechado (16 h.), pois do nada podia aparecer um bando e linchar o cara no meio do pátio. Transferir de pavilhão por proteção era uma operação que tinha que ser planejada, e sempre perigosa".

"O Dexter, acredite se quiser, andava por aí com uma quadrada (arma de fogo) na cintura. Nem a gente, nem a polícia, nem os presos tentavam tomar a arma dele, era o todo poderoso e temido, mas eu sei que teve gente aí que comeu a bunda dele".

"Não tinha esta história de superlotação. Se a cela tinha cinco cama, era cinco preso na cela e chega. Preso dormindo de pé amarrado para não cair é folclore. As exceções se dava quando rebeliões em outros presídios mandavam gente pra cá em regime de urgência. Daí a gente negociava com o pessoal e provisóriamente era colocado um colchão no chão, até se arrumar um lugar, o que ocorria em poucos dias".

"Tatuagem tinha todo um código, por exemplo, caveira atravessada por faca era assassino de PM".

"Homossexualismo rolava, mas nada como nos filmes em que preso novo tem que servir de mulher pra todos antes de começar a comer. Eles não forçava ninguém a fazer o que não queria, exceto se alguém rompesse com os esquemas, aí podia acontecer de tudo: um simples “gelo”, uma porrada, uma surra, até ser obrigado a dar a bunda... ou até morrer, tudo dependia da situação".

"O pavilhão nove era um dos melhores. Aquilo aconteceu lá não sei por que. E te digo: a polícia atirou foi porque quem estava lá atirou primeiro, a maioria estava armada. Neguinho saiu daqui aí fora e deu depoimento como testemunha do ocorrido... palhaço! Só viu quem tava lá dentro, os outros pavilhões male-male ouviram o barulho. Ninguém pode testemunhar o que aconteceu de verdade, quem podia morreu".

"Preso com mais de cinco ou seis anos de pena cumprida ia pro pavilhão dois, é mais perto da rua, por isso ia pra lá aqueles que não iam se interessar em fugir".

Os carcereiros eram todos jovens, se passavam dos trinta eram por poucos anos, e estavam se sentindo finalmente valorizados, pois eram os guias, os monitores, os professores, na verdade, o centro das atenções ali, naquele momento, no qual ser carcereiro não era mais uma profissão que lhes causava vergonha e necessitava ser escondida sob o eufemismo "agente carcerário", mas naquele momento, eles eram os “carcereiros do Carandiru”, os arquivos vivos da história que aquelas centenas e milhares de pessoas de todas as classes e idades procuravam ali. E aparentavam serem pessoas de origem de classe média assalariada, muito provavelmente com no mínimo segundo grau.

Depois disso, caminho de volta: portões, pátio, vamos para o pavilhão dois. Gente de todas as idades, em especial jovens presentes, muitas, muitas pessoas. Todos fascinados, curiosos, perplexos, emocionados até, fotografando, filmando... gente com tripé e reflex fazendo fotos profissionais.

Gente aproveitando para vender livros sobre histórias de penitenciária. Dráusio Varella e seu "Estação Carandiru" era o mais citado.

Pavilhão nove, pavilhão nove, eu queria ver o pavilhão nove, todos queriam ver o palco da carnificina, mas ele estava interditado.

No pavilhão dois, pudemos ver algumas das coisas curiosas que os carcereiros haviam dito. Cada pavilhão tinham suas “capelas”, que eram salas comuns reservadas para cultos religiosos, sempre uma para os católicos, outra para os evangélicos e outra para a umbanda. No pátio central do pavilhão dois, uma exposição de arte carcerária: uma série de dezenas de portas de cela com diversas gravuras. Como não poderia deixar de ser, o futebol era tema de muitas das pinturas. Assim, o Corínthians apareceu na maioria das portas, em seguida o São Paulo. O Santos em algumas, mas... eu e outra moça com quem conversava rodamos em meio a todas as portas, e o Palmeiras não apareceu. Ao que tudo indica, os marginais que lá viveram pouco ou nada se identificavam com o Palmeiras. Aliás, a que mais me chamou a atenção foi uma delas na qual a “Morte”, tradicional caveira de manto e capuz negro aparecia empunhando uma metralhadora, em cuja coronha aparecia escrito como se fosse a grife da arma em letras garrafais: CORINTHIANS.

“FIFA - Federação Internacional de Futebol Amador” (sic), exibia um dos afrescos. E novamente a placa "Jesus Salva".

Algumas peças de artesanato e telas toscas pintadas pelos detentos estavam expostas... uma exposição de fotos cujo tema era tatuagens... uma exposição de “maricas”, aquelas pequenas piteiras usadas para se aproveitar até a última cinza das bitucas dos baseados (cigarros de maconha). Celulares apreendidos, desde modelos mais recentes, até os "tijolões" dos primórdios da telefonia celular analógica no Brasil. Fermento feito de pão podre. Tampões para disfarçar entrada de túneis de fuga, "Nêga Maluca", aquela tosca aguardente feita artesanalmente à base de fermentação de casca de laranja e alcoól de limpeza, ou mesmo alcoól de perfumes e desodorantes.

Uma capela da "Assembléia de Deus" sinalizada com uma placa entalhada em letras góticas bem trabalhadas apresentava altar com alfaias, bateria e guitarra elétrica, modelo clássico de templo pentecostalista dos anos 70. Uma exposição de cutelaria improvisada: estiletes, facas, baionetas, espadas com mais de um metro de comprimento, lanças, um machado de dupla face. Não podia faltar a "teresa", corda improvisada de lençóis, e a "gambiarra", resistência de chuveiro com fios que se ligavam a tomadas e lâmpadas com o objetivo de se aquecer água para café nas celas. Panela de fundo falso, sabão esculpido, truques para esconder celulares, armas e drogas.

Saindo deste pavilhão no qual funcionou somente tal exposição naquele museu tão rústico quanto as peças lá expostas, fui para o pavilhão cinco depois que um funcionário passou avisando que ele acabara de ser aberto à visitação.

Visitantes sejam bem-vindos (sic) dizia um grande letreiro pintado pelos presos no muro do pátio principal. Mostrava também: “O Brasil para Cristo”, uma das principais seitas pentecostalistas brasileiras, com um grosseiro mapa do Brasil, porém com um excelente jogo de cores em resplendor dourado, no afresco sob o portal de entrada do pavilhão.
Na porta, uma tremenda duma placa como marco de inauguração do pavilhão, 1965, evocando o governador Carvalho Pinto, então secretário de obras do governador Abreu Sodré, se não me falha a memória.

Corredor estreito, bem estreito. Entrava-se em grupos e a entrada no interior das celas estava liberada. Tudo muito tosco, muito escuro, sem ventilação e iluminação, muito frio. Confesso que senti um arrepio ao entrar numa cela... não repeti a façanha.

Como a água devia estar cortada há dias, emanava um cheiro horrível de esgoto seco das celas, aparelhadas com arcaicas latrinas, aquelas em que se defeca de cócoras.

Portas pesadas e estreitas. As pessoas que circulavam precisaram abrir espaço para um deficiente que por lá passou com sua cadeira de rodas, passando com diferença de poucos milimetros de cada lado.

Assim, retirei-me apressadamente, pois tudo aquilo já estava me cansando, e remontava a quase duas horas de visita. Me detive para mais umas fotos externas naquele vestíbulo, ou melhor, antepátio, o "hall" ao qual me referi no início... última olhada, e queria sair rápido dali.

No pátio que circundava o pavilhão um senhor puxou conversa comigo: “É triste isso né?!... é muito triste pra uma pessoa ter vivido aqui”. Respondi: “Pois é senhor. Veja: a maior parte de quem veio ver isso é formada pela juventude. É bom que eles vejam isso para pensarem antes de fazer alguma coisa que os faça viver aqui. Acho que quem conheceu isso devia preferir ir para o inferno do que viver aqui”. E ele responde, um pouco atrapalhado: “É, é bom que os “mais moço” queira ir pro inferno do que viver aqui, pra não fazê besteira na vida”.

Na porta, véspera de eleições, cabos eleitorais aproveitavam o movimento para distribuir santinhos de seus candidatos, em especial de candidatos que alegavam ter feito pressão sobre o governo pelo fechamento da Casa de Detenção.

Novamente, luz do sol, avenida Cruzeiro do Sul, novamente liberdade.

“Escroto”, mal gosto, fascínio, bizarro, histórico, macabro, demoníaco, lendário, horrível, fedido... os adjetivos para aquele lugar são vários. Mas fato é que esta experiência fascina tanto que lá haviam excursões escolares. Carandiru Superstar.

Douglas Gregorio::
Primavera de 2002.