sexta-feira, abril 06, 2007

BRAGUINHA - 100 ANOS.

Caro leitor, você que foi criado no Brasil certamente, ao longo de sua vida, deve ter ouvido algumas músicas como: “Chiquita Bacana lá da Martinica, se veste com uma casca de banana nanica” ou então “ Capelinha de melão, é de São João, é de cravo, é de rosa é de manjericão”, e mais: “Euuuu fui às touradas de Madri parará tim bum bum bum”... sem falar naquela: “Adeus amor eu vou partir e nunca mais voltaaarrr”...
E quando criança você deve ter brincado cantando: “Pirulito que bate bate, pirulito que já bateu”... e deve ter visto aqueles desenhos da Disney, como Branca de Neve em que os anões cantam: “Eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou” e também deve ter visto os três porquinhos provocativos: “Quem tem medo do lobo mau, lobo mau, lobo mau?!”
Quando você estava na escola ouviu sua professora contar a história da Dna. Baratinha e cantar: “Quem quer casar com a Dna. Baratinha que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?”? Ou chegou a “pular carnaval” ainda ao som das tradicionais marchinhas como “Eu sou o pirata da perna de pau, do olho de vidro e da cara de mau!” ou ainda “A Estrela Dalva... e as pastorinhas...”
Alguém se lembra da Gal Costa cantando: “Um balancê, balancê... quero dançar com você, entra na roda morena pra ver, um balancê balancê!”
E o recente sucesso do cantor sertanejo Leonardo: “E veste a calça Saint Tropez e deixa o umbiguinho de fora...” e que namorada não sonhou com seu amado lhe cantando, Carinhoso: “Meu coração, não sei por que, bate feliz, quando te vê!”
Chapeuzinho Vermelho cantava: “Pela estrada afora eu vou bem sozinha, levar estes doces para a vovozinha!”
Bem, depois de tantas lembranças, de músicas tão diferentes, de épocas tão distantes umas das outras, você deve estar perguntando o porque de tudo isso. Porque o importante é saber o que elas todas têm em comum, além de serem todas elas sem exceção músicas de muito bom gosto, muito bem feitas, que fizeram bastante sucesso e se tornaram parte da cultura musical brasileira, sendo da memória e conhecimento de todo o nosso povo... elas simplesmente têm em comum ter atrás de sí o compositor BRAGUINHA, que estaria completando 100 anos no final do mês de março de 2007 se não tivesse falecido no natal do ano passado.
Ao contrário da maioria das lendas cariocas da MPB, Braguinha não teve sua origem nos morros do Rio. Nascido no seio de uma família de classe média, abandonou a carreira de arquiteto para dedicar-se à sua paixão, a música.
Como na primeira metade do século XX era ultrajante para um pequeno burguês viver da música popular, ele e outros parceiros seus da época decidiram adotar pseudônimos de passarinhos. Foi justamente aí que o jovem Carlos Alberto Ferreira Braga ficou conhecido como o “João de Barro”. Por que justamente o João de Barro? Ora, não era ele um ex-arquiteto? E qual pássaro também é construtor de casas?!
Nos anos 30, Braguinha forma com seus amigos (entre eles Noel Rosa) sua banda, chamada de “Bando dos Tangarás”, tendo como vocalista o “Almirante” que mais tarde veio a tornar-se seu cunhado.
Como vimos, não somente a música popular trás consigo o legado de Braguinha, mas também o cinema. Foi ele o responsável por diversas dublagens e versões importantes para diversos filmes estrangeiros e trilhas para filmes nacionais.
Diversos filmes da Disney como Bambi, Dumbo, Pinóquio além dos já citados tiveram a chancela de Braguinha.
Quem viveu a infância nos anos 60 e 70 certamente deve se lembrar daqueles pequenos compactos de vinil colorido que traziam consigo diversas canções infantis e narrações de histórias, da coleção “Disquinho”... sim, isso mesmo, Braguinha estava por detrás destas produções.
Não tão conhecidos como seus trabalhos musicais, Braguinha foi diretor e roteirista da Cinédia.
Exemplo de gênio artístico, versátil e indiscutivelmente bem sucedido dados os sucessos que sobram ao longo de sua obra, a cultura brasileira pode se orgulhar de ter entre suas estrelas o brilho de Braguinha. Parceiro de mitos como Noel Rosa, Charles Chaplin (isso mesmo, você leu direitinho, o próprio Carlitos), do médico homeopata Alberto Ribeiro que foi seu melhor amigo e parceiro ao longo da vida, a influência de Braguinha estende-se pelas décadas posteriores à sua aposentadoria.
Grandes estrelas da MPB do presente e do passado foram influenciadas pela obra de Braguinha, tais como Orlando Silva, Carmem Miranda, Gal Costa, Leonardo, João Bosco, Elis Regina entre diversos outros.
E como podemos encerrar esta homenagem? Cantando? Boa idéia... mas o que? É muuuita coisa... “Chegou, a turma do funil... ha ha ha ha, mas ninguém dorme no ponto!”... “Loirinha, loirinha, seus claros olhos de cristal... desta vez ao invés da moreninha serás a rainha do meu carnaval!”

Abril de 2007.

Foto: monumento a Braguinha, no Rio de Janeiro, em foto de minha autoria de 2005, próximo ao túnel do Leme.

Links:

http://braguinha.ag.com.br/

http://www.mpbnet.com.br/musicos/braguinha/

http://www.samba-choro.com.br/artistas/braguinha

http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Alberto_Ferreira_Braga

quinta-feira, janeiro 18, 2007

A ÉTICA NA COMUNICAÇÃO


Um comentário que começa a partir de uma definição objetiva dos conceitos de ética e moral, as principais influências em nossa cultura e o comportamento dos meios de comunicação hoje.

Ética e moral – conceitos.

A primeira vista e segundo o senso comum, ética e moral aparecem como termos sinônimos. Porém, para que possamos discutir o conceito de ética de forma mais completa, torna-se necessário aprofundar este significado do modo como ele aparece na tradição filosófica ocidental.

Vamos partir então do estabelecimento da diferença entre os conceitos dualistas bem e mal de um lado, e bom e mau de outro.

Numa prova ginasiana seríamos elogiados pelo professor de língua e literatura se explicássemos a diferença falando que os primeiros dizem respeito a substantivos, e os segundos a adjetivos.

Apesar desta significação básica e gramatical dos conceitos lançarem uma pista para aquilo no qual queremos chegar, ainda não é o suficiente.

Vamos então nos cercar nesta pista gramatical – enquanto substantivos podem ocupar a posição de sujeito da oração, os adjetivos forçosamente são predicados, ou seja, qualidades aplicáveis a determinados sujeitos.

Uma vez sendo sujeito pressupõe-se que se trata de uma entidade autônoma ao nosso conhecimento, enquanto o segundo, predicado, não tem sentido se não aplicável ao primeiro.

Assim, bem e mal estão nos domínios da moral na medida em que são aplicáveis a princípios universais da cultura que regem julgamentos e comportamentos – princípios transcendentes por independerem de situações específicas e circunstanciais para serem aplicados.

Ética, por sua vez, está no domínio do bom e do mau, da relatividade imanente ao sujeito em questão, ou seja, se efetivam em situações específicas e circunstancias.



Reflexão moral – legítima quando decorre de uma ação não coagida.

A reflexão moral, portanto, partindo do postulado acima, leva-nos à seguinte conclusão: ela surge de um acordo entre as partes que acatam princípios morais universalizando-os, pelo menos no tocante ao universo daqueles que culturalmente adotam uma codificação moral em comum.

No que diz respeito à civilização ocidental, temos então um panorama histórico de reflexões sobre a essência da moral a qual passamos a discorrer de forma resumida.

Para Platão, um dos mais completos estudiosos da cultura ocidental, a moral é aquilo que você não faria mesmo que fosse invisível.

Na idade média, os filósofos parecem ter centrado a questão ética sobre a polêmica entre vontade divina e livre-arbítrio. Institucional e politicamente o debate recaia sobre quem teria o direito de interpretação da vontade divina, debate este que antecedeu o movimento reformista e a contra-reforma.

Na modernidade, a reflexão ética recaiu sobre a universalidade das decisões morais, como podemos observar em Espinosa, Descartes, Kant e outros.

Kant desenvolveu uma teoria que até os dias de hoje, provavelmente é a mais influente: a teoria do Imperativo Categórico, que diz respeito a uma fórmula universalista de definição dos critérios morais.

Na contemporaneidade, Nietzsche colocou em cheque a universalidade dos imperativos morais; ainda mais recentemente, Adolfo Sanches Vasquez, pensador mexicano de linha marxista considerou a ética como a ciência da moral.

Enfim, parece que esta discussão iniciada na modernidade perdura pela contemporaneidade – qual o critério de definição dos imperativos morais e quem tem legitimidade de estabelecer tais critérios?!



Ética na comunicação

Sobre o tema ética na comunicação, a discussão objetiva o estudo sobre os efeitos que as mensagens exercem sobre seus receptores.

Ocorre então na comunicação hoje um procedimento de cunho pragmático: o valor moral não depende da ação em si, mas sim dos efeitos produzidos.

Um conflito na comunicação Pode-se observar entre as concepções kantianas nos quais a ação em si é julgada, e a concepção maquiaveliana, onde “os fins justificam os meios”.

Os meios de comunicação de massa exercem um procedimento de leitura da realidade onde a linha entre o ético e o cínico encontram uma tênue divisão.

Isso pode ser explicado na medida em que analisamos os procedimentos jornalísticos vigentes nos dias atuais.

O que ocorre é a filtragem que transforma a media agenda em public agenda. Media agenda trata-se de todo o levantamento de fatos encaminhados aos agentes decisores da editoração que selecionarão o que vai compor a public agenda – aquilo que será publicado.

Qual é a legitimidade que as chefias de editoração dos departamentos jornalísticos dos meios de comunicação de massa possuem para exercerem o papel de juízes que farão a leitura do real traduzida naquilo que vai ao ar, e da forma que vai ao ar: quais os ênfases, quais os enfoques, quais as prioridades, qual a distribuição e classificação das notícias?! E principalmente, quais os critérios utilizados?!

Por outro lado, existe também a postura ética do receptor das mensagens nos meios de comunicação de massa.

Uma polêmica ocorre entre os estudiosos do tema: a audiência em si assume uma postura passiva, absorvente, e vulnerável diante dos meios de comunicação de massa, ou possui senso crítico desenvolvido o suficiente para descartar e mesmo reagir a respeito daquilo que os meios procuram transmitir?!

Na verdade, esta polêmica ao que parece encontra uma solução na seguinte constatação: a de que os meios por si só não possuem poder de definir a opinião de forma absoluta, integrando sim uma rede de fatores que o fazem, mas não de forma independente e isolada.

Essa limitação dos efeitos da mídia teria uma dupla causa: de um lado, a existência de uma rede de comunicações interpessoais que concorrem na produção e principalmente na difusão de informações e, de outro, os mecanismos seletivos que cada receptor coloca em prática e que condicionam a sua exposição, atenção, percepção e retenção da mensagem recebida.[1]


[1] Barros Filho, C. / ÉTICA NA COMUNICAÇÃO / São Paulo, Moderna, 1997 – p. 127.

Matrix - A Trilogia Revolucionária.

Texto apresentado como dissertação final avaliativo do curso de Estética dos Meios de Comunicação no curso de pós-graduação lato sensu em Gestão de Comunicação sob orientação da profa. dra. Cristina Costa. - 2005, na ECA-USP. Muito mais completo e aprofundado, trás estudos sistemáticos do significado cultural e artístico de Matrix, seus símbolos e conceitos, bem como informações técnicas sobre o filme.
Por que falar sobre Matrix?

Questionamentos sobre a religião, racionalidade e ciência são temas altamente debatidos ao longo do roteiro dos irmãos Wachovsky, roteiristas e diretores.
A crítica é dividida. Alguns elogiam o debate filosófico do filme; outros dizem que a trilogia é pseudo-filosófica.
Acredito que o conteúdo reflexivo do filme é realmente exagerado dado o caráter comercial da produção. Porém, é justamente através deste exagero das reflexões que o filme apresenta ao público uma linguagem até então inédita no cinema: o espectador é preso a uma trama a qual, mesmo sem entender seu sentido, pode perceber o intenso movimento que lá ocorre, gerando assim a catarse responsável em parte pelo sucesso do filme, um bom motivo para se falar de Matrix, experiência bem sucedida de conciliação entre consumo e reflexão.
O primeiro contato – estranhamento e fascínio.

Quando pela primeira vez entrei no cinema para assistir Matrix, foi comum, ao sair, ouvir as pessoas dizendo: não entendi nada.
Nas duas seqüências da trilogia o fato se repetiu.
Julgo que estas pessoas não deixam de ter razão. Os debates filosóficos são muito densos nesta trilogia.
A pessoa que comigo estava pediu para acompanhá-la até o lado de fora da sala de projeção, pois não estava se sentindo bem.
Ao sairmos, percebi que várias outras pessoas acometidas de náuseas também se retiraram da sala de projeção. Perguntei-me: que estranha catarse seria aquela?!
O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu o que são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas.[1]
Parece que finalmente esta inquietação surgida nos tempos do curso de graduação haviam encontrado uma... “tradução” por assim dizer numa linguagem artística contemporânea na era da informática.
As recordações eram muitas, e senti-me tomado de um excitante turbilhão de idéias o qual dava-me a certeza de que minhas inquietações de jovem estudante não eram extravagâncias excêntricas, mas que encontravam eco numa outra instância, num outro momento, numa outra linguagem, numa outra forma de comunicar.
Mas, ainda que os sentidos nos enganem às vezes, no que se refere às coisas pouco sensíveis e muito distantes, encontramos talvez muitas outras, das quais não se pode razoavelmente duvidar, embora as conhecêssemos por intermédio deles: por exemplo, que eu esteja aqui, sentado junto ao fogo, vestido com um chambre, tendo este papel entre as mãos e outras coisas desta natureza. E como poderia eu negar que estas mãos e este corpo sejam meus? A não ser, talvez, que eu me compare a esses insensatos, cujo cérebro está de tal modo perturbado e ofuscado pelos negros vapores da bile que constantemente asseguram que são reis quando são muito pobres (...) Mas quê? São loucos e eu não seria menos extravagante se me guiasse por seus exemplos.
Todavia, devo aqui considerar que sou homem e, por conseguinte, que tenho o costume de dormir e de representar, em meus sonhos, as mesmas coisas, ou algumas vezes menos verossímeis que estes insensatos em vigília. Quantas vezes ocorreu-me sonhar, durante a noite, que estava neste lugar, que estava vestido, que estava junto ao fogo, embora estivesse inteiramente nu dentro do meu leito?[2]
Assisti ao filme pelo menos umas cinco vezes nos cinema. No vídeo... impossível contar.


[1] Nietzsche, F. / Sobre a Verdade e a Mentira no Sentido Extra-moral / 4ª / Trad. R.R. Torres Filho / Nova Cultural, São Paulo 1987. p. 34.
[2] Descartes, R. / Meditações / 4ª / Trad. J. Guinsburg e B. Prado Jr. / Nova Cultural, São Paulo, 1987-1988 – p. 18.
Os irmãos invisíveis.

Eles eram conhecidos apenas como "the boys", porém, os aficionados do cinema hoje os consideram “invisíveis”. São eles os irmãos Larry e Andy Wachowski diretores e roteiristas que conceberam Matrix, que assim são considerados por evitarem a imprensa o máximo possível.
A influência de Stanley Kubrick sobre os mesmos é inegável.
Os misteriosos "the boys", Larry 37 anos, e Andy, 35, em 1999, quando explodiu o fenômeno "Matrix", tinham feito "Bound" em 1996, cuja temática seria o lesbianismo.
Depois do fenômeno, disseram que não tinham nada a acrescentar aos seus filmes, que eram filmes de ação destinados "a fazer as pessoas pensar".
Filhos de intelectuais de origem polonesa, foram educados numa escola especial para alunos superdotados.
A geração à qual pertencem, legitimou aspectos da cultura sem aquela hierarquização clássica dos frankfurtianos, consumindo desde mangás japoneses até Rambo, ou ainda na perspectiva da latinidade, conciliando o sertanejo com a inserção no mundo da virtualidade iniciado com os videogames na infância – não existe diferença entre alta e baixa cultura.
Essa característica, pretenciosa e arrogante como são os adolescentes desta geração, misturou na concepção de Matrix a profundidade da filosofia ocidental clássica com a dinâmica estética dos filmes de ação hollywoodianos. Dizem eles: "Gostamos dos filmes de ação, de kung-fu, e de todos os filmes de gênero. Queremos apenas que eles sejam mais inteligentes".
O conflito entre o homem e a máquina, razão e emoção.

A trilogia Matrix – Matrix (1999), Matrix Reloaded (2003) e Matrix Revolutions (2003) - lança mão de dois temas básicos.
O primeiro fala sobre o domínio do homem pela sua criação: a máquina.
O tema não é inédito, pois já havia sido explorado em "Blade Runner, o Caçador de Andróides", outro filme altamente filosófico, e antes ainda, por Isaac Asimov em seu clássico “Eu, robô” escrito no início da segunda metade do século XX, logo após a segunda guerra mundial, onde nos alertava sobre um provável futuro no qual as máquinas assumiriam independência com relação ao seu criador, o Homem, se rebelariam e o dominariam.
Ainda dentro do tema, é impossível não se lembrar do famoso computador “HAL” de “2001, uma Odisséia no Espaço”, filme dos anos 70 dirigido pelo consagradíssimo Stanley Kubrick, com suas imagens e linguagem alta e profundamente filosóficas, no qual HAL assume sua subjetividade e rebela-se contra aqueles que, apesar de tê-lo criado, o subjugam... sim, HAL sentiu-se subjugado, deprimiu-se, raciocinou e agiu.
O segundo tema é o da discussão sobre a nossa percepção da realidade: o que é real?
O que é real para mim, pode não ser para você...
E os nossos dementes, vivem eles num mundo irreal? Afinal de contas, não são seres racionais, assim... seriam eles humanos?!
Matrix tornou-se por assim dizer a produção americana mais influente em toda posterioridade da ficção científica, uma vez que seu roteiro mergulha o espectador num emaranhado quebra-cabeças a partir do qual as próprias dúvidas existenciais são retratadas num jogo de macrocosmo e microcosmo.
Uma tomada inédita e inovadora – a cena do treinamento – programação virtual em artes marciais, na qual Neo é congelado no ar a partir de um salto e a imagem realiza uma volta de 360 graus para que o próprio elemento passivo-sujeito do treino – Neo – observe em todos os detalhes a perfeita posição de seus membros no exato milésimo de segundo antes de desferir o golpe com seu pé no adversário – foi rememorada e copiada, plagiada e satirizada em diversas outras produções, como por exemplo, no divertido desenho animado Shrek, ou ainda num comercial de cerveja no Brasil.
Na verdade poderíamos afirmar que Matrix tornou-se modelo para todos os demais filmes de ação, ficção e aventura realizados posteriormente.
Joel Silver, produtor de Matrix chegou a afirmar que a obra é “o primeiro filme do século XXI”.
Matrix (1999) recebeu 4 Oscars – edição, efeitos sonoros, efeitos especiais e som; uma indicação ao Grammy.
Matrix – um novo diálogo.

Matrix seria um gigantesco software num mundo onde as máquinas estavam desenvolvidas de modo tal que dominaram os humanos.
As origens de Matrix foram conseqüência da crise que derivou do boom populacional somado ao esgotamento dos recursos naturais.
A energia elétrica tornou-se escassa após séculos de guerras e mais guerras, primeiramente entre os próprios homens, depois entre homens e máquinas. Assim, o alimento das máquinas, a eletricidade, só podia ser encontrada num único lugar: nos impulsos elétricos do cérebro humano. Subjugados pelas máquinas os humanos eram mantidos num coma eterno conectados a coletores de eletricidade.
Como precisavam estimular a atividade cerebral para que a eletricidade fosse produzida, as mentes humanas eram conectadas em Matrix, e passavam inconscientemente a viver dentro de um mundo que não passava de grande "ilusão virtual"... mas, até que ponto uma ilusão? Eis uma grande questão filosófica que aparece no filme.
A princípio, um sistema perfeito, tão perfeito e precisamente exato quanto os processos matematicamente racionais que geraram os postulados científicos que estão na base da tecnologia que deu origem às máquinas.
Mas o problema surgiu justamente quando alguns humanos, movidos por sua irracionalidade inerente – as emoções - conseguiam em determinados momentos perceber a diferença entre real e virtual calcados nas sensações que decorriam de tais emoções. Como este elemento – o emocional - era totalmente alheio ao “ser” das máquinas, estas por mais que se esforçassem não o conseguiam controlar.
A partir disso Matrix constituiu-se num eterno ciclo previsível de geração, existência e destruição no qual homens e máquinas, apesar de opostos e adversários, eram essencialmente interdependentes no que diz respeito à sobrevivência, sobrevivência esta que se dava no confronto eterno, onde não havia a opção de não se vivenciar tal conflito.
Como podemos ver, Platão e Nietzsche aqui se encontram em suas cosmologias: a dualidade não é descartada, pois há o mundo real e o virtual, reciclando assim as idéias de Platão sobre mundo físico e metafísico, bem como a teoria das forças de Nietzsche se faz presente: as forças constituintes do todo existente não podem não se efetivar, e se efetivam no confronto, no inevitável combate eterno, repetindo-se os ciclos em detalhes e pormenores por toda a eternidade – o eterno retorno do mesmo.
Integrantes da lógica funcional de Matrix, os humanos passariam a agir de modo desarmônico com a mesma, e aprenderam como se desconectar de Matrix para viver num mundo real, concreto. Esta é a causa do surgimento de Zion, uma grande colônia de humanos “despertos” que passaram a desenvolver uma guerra contra as máquinas.
Tais humanos seriam, dentro de Matrix, hackers que, justamente em função de suas capacidades de penetrar sistemas de segurança altamente sofisticados, foram aos poucos descobrindo que o mundo no qual viviam, entendendo que tudo o que estava ao alcance dos seus cinco sentidos nada mais eram que elementos de Matrix, entidades virtuais.
Desde o passarinho que canta, passando pela mosca que zune, os carros que estão nas ruas, os arranha-céus, as pessoas em seus postos e funções sociais, fábricas, campos e flores, animais selvagens, seus parentes, vizinhos, parceiros afetivos, enfim, o todo existente, tudo era o conjunto das entidades virtuais geradas por Matrix nas mentes humanas que aprisionava.
Isto nos lembra “O Mito da Caverna” que abre o Livro VII da “República” de Platão, no qual ele narra a imagem de humanos presos no fundo de uma caverna, onde a realidade que enxergam é somente as sombras projetadas na parede por uma luz que parte de uma fogueira que queima atrás deles. Alguns conseguem se libertar e, com muita dificuldade, escalam a íngreme saída para fora da caverna, onde a verdadeira luz, a luz do sol, lhes ofusca a vista, e precisam de tempo para se habituar a ela. Uma vez em domínio da visão proporcionada pela verdadeira luz, e por conseguinte enxergando os objetos reais tais como eles são, e não só suas sombras, retornam para o fundo da caverna e tentam conscientizar os demais que reagem violentamente, negando seu crédito ao ex-colega, dado que ele corre risco de morte justamente por atentar contra o sistema no qual estão inseridos.
Entre os líderes de Zion estava Morpheus, que libertou do coma, entre outras pessoas, a jovem Trinity e o intrépido Neo, aquele o qual Morpheus julgava ser "o predestinado" citado na profecia de que surgiria um humano dotado de especiais poderes, o qual colocaria fim na guerra entre máquinas e humanos.
Talvez, o mesmo sentido do quipá judeu e do solidéu cristão: a barreira entre o físico e o metafísico; no caso, a barreira entre o real e o virtual.Trinity, a ágil militante da causa humana, apaixona-se por Neo... tudo bem, o filme é hollywoodiano.
Outros personagens fundamentais do filme são o Oráculo, uma senhora negra que seria uma espécie de vidente, parceira do Arquiteto, um senhor grisalho representante da racionalidade máxima, ambos criadores de Matrix – racionalidade e previsibilidade, obsessões do mundo pós-moderno.
No primeiro filme o mundo de Matrix e seus personagens são apresentados. Numa das cenas mais filosóficas, Neo será apresentado ao Oráculo, um momento especial aguardado com ansiedade. É levado então ao apartamento onde vive o Oráculo, e na sala de espera conhece algumas crianças que estão sendo treinadas para desenvolverem o domínio sobre a realidade.
Um garotinho miraculosamente, segura uma colher que se contorce como se fosse de borracha e tivesse vida. Neo, impressionado, toma a colher em suas mãos... o garotinho então lhe diz: "não tente entortar a colher, você não vai conseguir. Tente, antes disso, entender como funciona a realidade, domine a realidade". No ato, Neo consegue fazer a colher entortar-se. Tal colher vai aparecer novamente no segundo filme da série, num momento muito simbólico, pouco antes de Neo partir para uma batalha com as máquinas... enviada pelo mesmo garotinho, já adolescente.
Neste segundo filme, Matrix Reloaded, o mais profundamente filosófico dos três, Neo descobre seus poderes de predestinado, e percebe o quão longe eles podem ir, por causa do elemento emoção, que as máquinas não podem controlar.
No terceiro, Matrix Revolution, ocorre o Armagedon, a batalha final entre homens e máquinas. Nele, as máquinas começam a disputar o poder entre sí, tendo de um lado a Fonte, de onde todas as demais máquinas partiram, e o agente Smith, o principal inimigo de Neo, que assumiu o papel de um vírus ambicioso que contaminou toda Matrix e conseguia igualmente contaminar humanos, multiplicando-se, estabelecendo algo como uma ponte entre o mundo de Matrix e o mundo real, e uma ameaça para humanos e máquinas.
Neo, é jogado para dentro de um espaço intermediário, entre a lógica racional das máquinas e a emotividade humana, onde vai descobrir que Smith nada mais é que seu pólo oposto Este “hiato” é retratado no filme como o metrô, onde trens estão circulando e levando quem lá se encontra para diversos tipos de lugares... realidades.
E é neste mundo que ocorre a eliminação de programas e demais elementos considerados obsoletos na constante evolução de Matrix.
A questão ética da dualidade platônica, a luta entre o bem e o mal, aparece no caso de Merovíngeo, personagem retratado como um "playboy bom vivant" dado aos prazeres da carne como luxo, bebidas e mulheres, que na verdade é um dos mais antigos programas de Matrix que sobreviveu pela força de sua ganância.
Merovíngeo ambicionava dominar o mais possível outros programas menores, ampliando o controle sobre porções cada vez maiores de Matrix; portanto, perseguia Neo que era uma ameaça aos seus planos. Merovíngeo insistia demais em controlar as relações de causa e efeito, e era o único que tinha o poder de retirar Neo do espaço intermediário no qual foi aprisionado; a causalidade vencida pelo acaso, uma contenda tão explorada na obra de Nietzsche no final do século XIX. Tanto era assim que Merovíngeo usava como um dos recursos para sua proteção, na mansão na qual vivia, diversas portas que, quando abertas, jamais dariam acesso ao mesmo lugar. Por exemplo, uma mesma porta era aberta num momento e dava acesso a um shopping center. Se fechada e reaberta no mesmo instante, poderia dar acesso aos alpes suiços, e assim sucessivamente, totalmente imprevisível – a imprevisibilidade do acaso que Merovíngeo usava para se defender da previsibilidade de Matrix.
Por exemplo, no segundo filme, o diálogo entre Neo e o Arquiteto, onde a lógica mecanicista de Matrix e a questão das emoções e do livre-arbítrio são confrontadas, é simplesmente impossível de ser compreendida por pessoas que não tenham sólidas noções de filosofia acadêmica. Porém, é a cena mais esperada do filme, onde a expectativa é a de que Neo se confrontaria na batalha final com o elemento central do controle de Matrix.
A mitologia e a religião – símbolos, signos e metáforas.

Como bem diria Joseph Campbell, assim como em Star Wars repete-se em Matrix a estrutura da psique imprescindível à sua compreensão – o mito, no caso, a saga do herói.
Neo é estranhamento convidado a conhecer Morpheus, o mestre que lhe abre as portas da percepção. Comodamente colocado em sua rotina cotidiana, a ele é colocada a opção de tomar duas pílulas: a azul ou a vermelha. Esta última simplesmente o faria esquecer o presente encontro e ele retornaria à sua velha rotina; a segunda, por sua vez, lhe abriria as portas da compreensão para algo totalmente novo, mas o mestre advertiu: o risco era alto. Mas ele decidiu correr o risco, seduzido pela vontade de saber, bem como por estar enfastiado com o tédio de sua rotina – o desafio: se há algo a ser vivido,
este então será meu objetivo.
O abandono de nossas certezas em busca de verdades mais úteis e abrangentes.
Uma constante busca por nossa auto-realização. Neste sentido, buscamos uma voz, um poder que, capaz de enxergar adiante, nos conforta com segurança ao indicar se o caminho que estamos tomando é o certo ou o errado. As previsões do Oráculo. E não é à toa que Jung tanto os estudou, pois na busca da auto-realização, acabamos por seguir caminhos nos quais sentimo-nos inseguros quanto à nossa capacidade de chegar até o final.
Se os oráculos nos dão respostas obscuras, temos de considerar que a nossa pergunta, via de regra, também é muito obscura. E atentemo-nos – a pergunta certa contém a resposta em si. Tanto que Neo insiste na pergunta: “sou o predestinado?!” e a resposta é “Você ainda não está preparado”. Não se trata de uma negativa, mas de uma afirmativa.
O verdadeiro conhecimento é comparável à dor, pois implica em enfrentar o que se teme. A Luz ofusca aos olhos do prisioneiro que se liberta da caverna de Platão.
Poderes estranhos, dons inimagináveis, realização de prodígios – Neo é o messias, o predestinado... ou seria o “além-do-homem” de Nietzsche?!Pendendo ao viés religioso, é impossível não perceber o messianismo presente no papel e missão de Neo. Representante de um povo humilhado e perseguido, é nele que repousam as esperanças da redenção. Ele possui dons, possui poderes os quais nenhum de seus semelhantes possui – apesar de ser um deles.
O sonho cartesiano presente nos eixos das abcissas e coordenadas – o universo entendido e vivenciado através das equações matemáticas – em Matrix, o metafísico transcende para o virtual, o qual por sua vez se sobrepõe ao real, e com este funde-se. Recordemos uma das cenas finais de Matrix Revolution, quando Neo se depara com a Fonte, que lhe diz: “não precisamos de mais ninguém” – os humanos já não interessavam à máquinas, e Neo já havia percebido a realidade de Matrix desde seu diálogo com o Arquiteto em Matrix Reloaded – a busca da estabilidade de Matrix , as opções que lhe são colocadas em função do emocionalismo humano.
Assim, ocorre a efetivação de uma transcendência entre o físico e o metafísico, aparentemente resolvendo um dos maiores conflitos da mente humana. Um sofisma?
Os mais entusiastas têm dito muitas vezes que este é um filme do futuro: pelo tema (uma sociedade dominada por computadores), pelo sentimento tecnológico que perpassa em todos os seus elementos, enfim, pela tecnologia dos (assombrosos) efeitos especiais. Não pretendo desmentir tal dimensão, mas gostaria de contrapor o que há de assumido primitivismo bíblico em Matrix. Ou seja: o modo como a aventura possui uma fortíssima componente religiosa que se poderia formular através de uma interrogação expectante: que é o outro quando todas as formas de relação passam, já não pelos gestos humanos, mas pelas operações das máquinas? Ou ainda: que sentido faz falar de espírito quando tudo acontece num espaço que já não é físico, mas virtual, sem deixar de ser afectivo e carnal?[1]
Ao assistir Matrix, ocorre na catarse, entre diversas outras sensações, a de se estar inserido num grande videogame: cenas de perseguições e tiroteios, transposição de fases, efeitos de câmera lenta e outros efeitos especiais.
Particularmente, a já comentada cena do treinamento de Neo mostra-nos uma interessante metáfora: como a realidade de Matrix é irreal, pode-se viver nela como se estivesse jogando um videogame de realidade virtual. Assim, com a ajuda de programas de computador específicos conectados ao seu cérebro, Neo aprende em poucos minutos a lutar kung fu, pilotar aviões ou mesmo a pular edifícios. Nada de mais, já que é como se ele estivesse jogando um videogame.
As leis da natureza, como por exemplo, a leis da física, em Matrix são reduzidas à condição de meras ações imaginativas primárias com o objetivo de iludir... mas em Matrix esta ilusão pode destruir – a fronteira é tênue... ilusória – virtual é real e vice-versa.
A realidade é criada e recriada, destruída e construída a cada momento, numa dinâmica cosmológica dentro da perspectiva da física quântica – os minúsculos quantadinâmicos em constante combate entre si – a força não pode não se efetivar, e se efetiva sempre no combate – como diria Nietzsche.
Alguns críticos dizem que Matrix poderia ser ainda mais grandioso se optassem por outro método de filmagem que não o que foi utilizado: o Super 35.
O Super 35 é um processo destinado a obter um formato alargado no ecran de cinema, mas a permitir uma maior facilidade de transferência vídeo, nomeadamente reduzindo a perda de imagem. O processo não é um verdadeiro 'scope', pois não usa lentes anamórficas. Filma-se uma área de aproximadamente 1.6:1, e depois seleciona-se uma seção para as cópias em formato 2.35:1, que serão feitas do mesmo modo que as cópias scope convencionais. Ao contrário do Panavision, que usa todo o negativo, o Super35 desperdiça quase metade, perdendo o correspondente em definição, já que ambas as imagens vão ser projetadas em écrans do mesmo tamanho.
Para vídeo, possivelmente a principal a razão de ser do sistema (apesar de se preferir pontualmente por razões técnicas específicas), abre-se a imagem cinematográfica ou corta-se - como no pan and scan normal -, consoante o interesse de quem controla o sistema. Os efeitos especiais nunca usam toda a área, por motivos economicos, e são sempre cortados convencionalmente para a cópia vídeo. Isto é, “Reservoir Dogs”, um filme sem F/X, tem informação redundante na cópia de écran cheio, e muito pouco será cortado lateralmente (que se note sem comparar lado a lado com a composição original), enquanto que “Terminator 2” ou “True Lies” terão muitas sequências maciçamente cortadas.
O grande impulsionador do sistema é atualmente James Cameron, e é ele próprio que coordena a transferência para vídeo dos seus filmes. Quando filma visualiza de imediato dois enquadramentos. Faz "dois" filmes ao mesmo tempo. Afirmou mesmo que preferia a versão pan and scan de “O Abismo”. Outras fontes esclarecem que se referia à excelente definição da cópia.[2]
[1] Lopes, J. in: www.cinema2000.pt
[2] Explicação técnica do sistema Super 35 extraída do site Cinedie: http://www.cinedie.com/glossario.htm#super35
A catarse de Matrix... também seria virtual?

Virtual ou não, fato é que o espectador de Matrix, gostando ou não, jamais esquece a catarse positiva ou negativa que o afetou naquele momento – mais uma característica estética da trilogia, a qual poderíamos chamar sem temores de “interação virtual” – identidade e repulsa são constantes no intrincado movimento mental provocado pelos irmãos Wachowsky o qual dificilmente num primeiro momento vai definir-se como “entendimento” do filme.
Como poderíamos então compreender o porque de um filme o qual os espectadores reclamavam ao final de nada entender, ser um extraordinário fenômeno de bilheteria, tornando-se imediatamente uma obra “cult” na abertura do século XXI?
Talvez seja justamente este aspecto que lhe confere uma bizarra beleza formal, um charme por identidade na era da informática.
Novos padrões de sensibilidade nas novas gerações se desenvolvem. E os irmãos Wachowsky conseguiram conceber uma leitura deste fenômeno com maestria ao criarem Matrix.
Nisto reside sua beleza formal – a interação entre todos os elementos da obra: roteiro, atores, direção, fotografia, espectador e outros, conciliando a sensibilidade racional com uma nova sensibilidade virtual, onde a contradição não é vista como negativa, mas sim como simplesmente indefinida – virtual e real são uma e a mesma coisa... e ao mesmo tempo não o são.
Trata-se do desenrolar do saber racional, tão cultuado pelos iluministas, diante das dificuldades de respostas que a razão não consegue apresentar às angústias humanas, e a insensibilidade que a matematização renascentista da natureza agressivamente coloca e a civilização industrial adotou como necessária. Em outras palavras: decadência.
Fontes de informação.

Dentro do espírito de Matrix, as fontes de informação e referências utilizadas para a construção deste trabalho são baseados em textos disponíveis na Internet.

http://www.criticanarede.com/meta_matrix.html - site de “Crítica – revista de filosofia e ensino” - exibe um longo artigo versando sobre as hipóteses filosóficas presentes em Matrix: “A Matrix enquanto hipótese metafísica”, de autoria do professor David Chalmers, da Universidade do Arizona, traduzido por Luís Estevinha Rodrigues. Leitura obrigatória para quem tem dúvidas quanto ao caráter filosófico da obra.

http://www.cinepop.com.br/moviepop/matrix2.htm - Cine Pop - exibe uma série de informações sobre a trilogia, curiosidades, críticas, informações técnicas, números, comentários etc., incluindo um excelente texto-guia das reflexões filosóficas presentes em Matrix.

http://www.cinedie.com/the_matrix.htm - Cinedie - site de comentários de cinema, apresenta um completo e rico comentário sobre Matrix.

http://www.cinemaemcena.com.br/crit_editor_filme.asp?cod=224 – Cinema em Cena – o site apresenta um extenso e rico comentário de Matrix Reloaded em todos os seus aspectos: técnico, filosófico, artístico, financeiro e outros, trazendo excelente guia de explicação filosófica das reflexões de Matrix e um interessante fórum de discussão dos internautas.
http://www.cinema2000.pt/ficha.php3?id=135 - Cinema 2000 – o site português exibe toda uma série de apreciações, comentários e críticas profissionais e amadoras sobre Matrix.

http://whatisthematrix.warnerbros.com/ - site oficial da trilogia, obviamente o mais completo de todos, com imagens, trailers, informações diversas, inclusive uma coletânea com um diversos artigos filosóficos desenvolvidos por acadêmicos.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u33318.shtml - Folha online - o artigo de Sérgio D´Ávila intitulado “Doutrina Bush contamina irmãos Wachowsky em “Matrix Reloaded” aponta para uma suposta influenciação conservadora e neoimperialista no referido filme da trilogia.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Matrix - site português de caráter educativo e enciclopédico, exibe consistentes informações sobre a trilogia em forma de verbete, com links para todos os conceitos.

http://hps.infolink.com.br/peco/mid09a.htm - o link exibe um artigo muito rico e consistente de Ricardo Kelmer, analisando a trilogia à luz de conceitos da psicologia.

http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/matrix/critica04.html - Adoro Cinema - exibe uma consistente e rica crítica amadora do leitor Marcos Abrucio.

http://www.atarde.com.br/especiais/matrix2/producao.php - site do jornal bahiano “A Tarde” que exibe uma interessante crítica sobre Matrix.



sábado, maio 21, 2005

QUE A FORÇA ESTEJA COM VOCÊ!


Resumo: aqui o leitor vai encontrar comentários sobre a série Star Wars e um resumo dos seis episódios da saga.





Era para ser uma simples tarde de outono, na última quinta-feira, 19 de maio. Mas foi uma tarde especial para mim.

Na escuridão da sala de cinema, de repente vejo a logomarca "Lucas Film" e ouço com bastante força no dolby estéreo as tradicionais trombetas de John Williams.

Em fração de segundos, o logo da Lucas Film é substituído pelo tradicional logo da série: Star Wars (o certo seria Stars War, não acham?!) - as trombetas ganham mais força ainda.
Os pêlos de meus braços ficam eriçados e um calafrio percorre minha espinha.

Vinte e oito anos depois daquela noite de 1977 quando enchi a paciência dos meus pais para me levarem ao cinema, quando me deparei com uma movimentação incrível na Av. Ipiranga e um logo mock-up especialmente montado em alto-relevo e neon na porta do cine Marabá - incomum, ousado e inovador para a época - anunciava o começo de uma revolução no cinema: uma nova abordagem da ficção científica, a proposta de uma saga, um universo novo de personagens só comparável ao mundo Disney. E, principalmente e acima de tudo, uma revolução no marketing de entretenimento.

A lotação foi tamanha que tivemos de assistir ao filme da galeria superior – naquele tempo as salas de cinema eram gigantescas. As salas dos principais cinemas de São Paulo ofereciam cerca de mil, até mil e duzentos lugares, não raro com duas platéias, uma delas suspensa.

Alguns talvez possam lançar um olhar reprovador, vendo somente como mais um produto de consumo de massa da indústria cultural, e os fãs e expectadores da série, apenas como vítimas do mundo de fantasias consumistas criadas pelo capitalismo.

Porém, com a tradicional (porém questionável) dualidade cósmica platônica levada a seus extremos, entender o jogo de reflexões filosóficas da luta do bem contra o mal, da luta da Ordem dos Cavaleiros Jedi contra o lado sombrio da Força, e o que isso significa dentro da cabeça de um Jedi, e os labirintos aos quais esse caminho leva, é um desafio para aqueles que querem refletir sobre o significado mesmo desta cultura contemporânea, impregnada do capitalismo consumista.

Talvez as novas gerações, ou mesmo as antigas gerações que pouco tiveram contato com a série não entendam a bagunça na ordem dos fatores.

Tudo começou em 1977, com "Guerra nas Estrelas" (título ao qual seria agregado posteriormente: Episódio IV - Uma Nova Esperança"). O fato que explica a saga ter começado a partir do episódio IV e não do episódio I é simples: nenhum investidor do mercado cinematográfico estava acreditando no projeto de George Lucas; assim sendo, para que ocorresse o pontapé inicial, foi escolhido, segundo os critérios próprios dos "business man" do mundo do cinema o roteiro que teria maior probabilidade de emplacar como sucesso. Além disso, também foi mensurado, segundo os recursos da época, o nível previsto do impacto dos efeitos especiais.

Nem é preciso dizer que deu certo.

Para os que não conhecem a série, tudo gira em torno da luta do bem contra o mal. O bem é representado pela Ordem dos Cavaleiros Jedi, uma espécie de versão para ficção científica da iniciática história dos Cavaleiros da Távola Redonda.

Só este fato já enche a história de misticismo, pois os cavaleiros Jedi se Caracterizam por dois símbolos, basicamente: o primeiro é a aptidão do uso de significativos poderes telepáticos, a "Força" como os chamam (algo como o poder da egrégora para os iniciados tradicionais).

O segundo é o uso por exclusividade do chamativo "sabre de luz", a espada de raio laser que a indústria dos brinquedos já tentou por diversas vezes criar uma versão sem sucesso. A técnica de construção do sabre de luz e o seu uso é coisa exclusiva da longa formação e treinamento de um Cavaleiro Jedi.

O mal é representado pela Ordem dos Sith, uma dissidência dos Jedi que, ao contrário daqueles cujo treinamento psicológico visa eliminar paixões e sentimentos degenerativos como o medo, a cobiça, a desconfiança, o ódio e outros, vêem nestes sentimentos e paixões uma forma de expansão da Força e a canalizam não para servir, como é o propósito dos Jedi, mas para dominar.

O episódio IV foi o primeiro grande sucesso daquele que viria a se tornar um dos maiores atores de Hollywood pelos vinte anos seguintes: Harrison Ford, que interpretou um mercenário que por um acaso se viu envolvido com a corrente do bem, e mesmo contra seu gosto ao lado destes teve de lutar por uma questão de sobrevivência... e no final acaba se dando bem - o filme é hollywoodiano, e "se dar bem” num filme hollywoodiano significa: casar com a mocinha para viverem felizes para todo o sempre.

Mark Hamill, que interpretou o principal personagem dos primeiros três filmes da série (que na verdade seriam os três últimos da seqüência prevista inicialmente) - não conseguiu emplacar um sucesso no mesmo nível de Harrison Ford.

Seria impossível descrever aqui cada um dos milhares de personagens de toda a série. Vamos então a um pequeno resumo da saga.

Episódio 1 - A Ameaça Fantasma - fala sobre a infância de Anakin Skywalker, personagem central de toda a história, e como ele teve contato com os Cavaleiros Jedi, que nele perceberam que a Força se manifestava de forma excepcional, enquanto surgiam rumores de dissidências na república e a tentativa de invasão do planeta Naboo.

Episódio 2 - O Ataque dos Clones - fala sobre a iniciação Jedi de Anakin Skywalker. Paralelamente, mostra de forma mais evidente a organização do golpe de Estado tramado pelo senador Palpatine, cuja verdadeira identidade seria revelada no episódio três. Além disso, o filme mostra como Anakin e a senadora Padmé se apaixonam e se casam em segredo, o que era proibido para um Jedi, que por regra é celibatário.

Episódio 3 - A Vingança dos Sith - Anakin, em função dos seus dons excepcionais foi admitido ao Conselho dos Cavaleiros Jedi antes ainda de obter o título de mestre, título que lhe conferiria autonomia no seio da Ordem. Desde a sua infância os Jedi se dividiam nas opiniões sobre Anakin. Yoda, o anãozinho verde, talvez o mais destacado líder Jedi, chamou a atenção no episódio 1 do motivo porque a princípio se opunha ao treinamento daquela criança: o medo era forte nele e seria a porta de entrada para o lado sombrio da Força, como realmente aconteceu quando Anakin, em função de uma perturbação mental deixou-se tomar pelo medo dando condições de ser dominado pelo lado sombrio da Força. Politicamente, um grande jogo de dissidências da República e de confusões e incertezas no Conselho Jedi durante uma guerra separatista que ocorria, tudo orquestrado pelo senador Palpatine que consegue enfim aplicar um golpe de estado e instaurar um Império com poderes absolutos, cooptando Anakin para o lado sombrio da Força, que assume o nome de Lord Darth Vader.


Episódio 4 - Uma Nova Esperança - Luke Skywalker, um dos filhos de Anakin cresce criado pelo tio, sem saber a verdade sobre suas origens. Léia, sua irmã gêmea, que fora criada por um membro da família real banida, é prisioneira do Império. Obi Wan Kenobi reaparece em cena atendendo a um pedido de socorro de Léia, que alertava para o perigo da Estrela da Morte - uma espécie de nave-satélite-quartel do Império que tinha o poder de destruir planetas inteiros reduzindo-os a pó em frações de segundos. Léia se reencontra com Luke unidos pelo acaso, e eles ainda não têm consciência de que são irmãos. Entra em cena o mercenário Hans Solo e seu parceiro, Chewbacca, o gigante peludo da raça Wookie que outrora havia sido amigo de Yoda. Luke é iniciado no treinamento Jedi por Obi-Wan, e demonstrou ter aprendido bem as lições ao conseguir com a utilização da Força uma estupenda vitória para os rebeldes, enfraquecendo o Império. Destaque para os dois andróides, ícones da série, R2D2 (ou Artoo Detoo) e C3PO (ou Trespiô), e para o reencontro de Anakin e Obi-Wan num duelo Jedi.

Episódio 5 - O Império Contra-Ataca - Luke se dirige a um planeta longínqüo para continuar seu treinamento Jedi dirigido por Yoda. Darh Vader desfere um duro ataque contra os rebeldes da resistência como represália à derrota imposta no episódio anterior. Luke se depara com seu pai, Dath Vader, e eles lutam segundo as artes Jedi. Mas Luke ainda era um aprendiz e não teve forças para vencer seu pai, que já planejava cooptá-lo para o lado sombrio da Força. Ausente. Jabba The Hutt, uma criatura repugnante, mistura de sapo gigante e lesma, bandido intergalático que seqüestra e aprisiona Léia e Hans. Darth Vader decepa uma das mãos de seu filho Luke, mas o pouco de bondade que restava em seu coração o impediu de matá-lo; ao invés disso, revelou a Luke a verdade sobre sua paternidade, a qual se recusou a acreditar, conseguindo fugir.

Episódio 6 - O Retorno de Jedi - O Império toma iniciativa de reconstruir uma nova Estrela da Morte, agora mais poderosa. Surgem os Ewoks, criaturas engraçadinhas que lembram a ursinhos, mas que a despeito do sua aparência frágil e cômica revelaram-se aguerridos e eficientes guerreiros que colaboraram com os rebeldes. Pintchiwawa! - o grito de guerra - e de vitória - dos Ewoks, personagens que posteriormente deram origem a uma série de TV. Yoda, já bem idoso e no final dos seus dias, comunica a Luke que em breve ele terá de passar pela sua prova final para tornar-se definitivamente um mestre Jedi: enfrentar Darth Vader, confirmando-lhe que ele era seu pai, vindo a falecer em seguida. Seguem-se duas batalhas finais paralelas: a dos rebeldes contra o Império e a de Luke contra seu pai, terminando com a vitória do lado bom da Força.


Douglas Gregorio::
Outono de 2005.

quarta-feira, abril 20, 2005

O FLORESCER DA ROSA

RESUMO - o texto abaixo coloca a visão sobre as perspectivas do novo papado à luz da trajetória de Ratzinger, do legado de João Paulo II e dos grandes desafios da presença da Igreja na humanidade do século XXI.

"Pontífice romano, aproximar-te não convém
da cidade de dois rios.
Ali há de cuspir teu próprio sangue,
Você e os seus, quando a rosa florescer".
Centúrias de Nostradamus, II, 97. *

Chegamos ao século XXI... e o primeiro Papa do século é o líder máximo da Inquisição.

"Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé" - um nome moderno para o órgão da Igreja que já se chamou Santíssima Inquisição e Santo Ofício.

Um conclave rápido como era previsto: a saúde do Papa João Paulo II não ia bem desde o início dos anos 90, quando então a Igreja começou a se preparar para a sucessão. Toda a estrutura do conclave já estava montada desde a primeira metade da década passada; isso sem contar que desde o ano 2000 a renúncia de João Paulo II era cogitada por motivos de saúde.

Um conclave que se iniciou definido - não seria exagero pensar assim.

Após um pontificado ambígüo, onde ao mesmo tempo que a Igreja modernizou cada vez mais seu marketing usando-se das mais modernas e inovadoras ferramentas, com a figura de um Papa "pop", sempre presente na mídia, girando em torno ao mundo levando a influência da Igreja aos mais longínqüos confins da terra, sem no entanto descuidar da sua vocação conservadora guardiã da "família, da moral, da ordem e dos costumes cristãos" contra os valores "efêmeros" da sociedade de consumo e da cultura temporal. João Paulo II realizou sim um grande pontificado, e sem dúvida figura entre os nomes mais importantes da história contemporânea.

Lamentam-se os poucos avanços secularizadores da Igreja. Pais de família e mulheres não podem receber as ordens eclesiais, ministrar os sacramentos e exercer o ministério da fé. Por que? Será que por alguma questão dogmática?

Ora pois, o celibato clerical não está nas origens da Igreja. Foi imposto pelo papado no século nono, quase mil anos depois da passagem de Jesus pela terra. Por que?

Muito simples: até então, os padres legalmente constituiam famílias com espôsa e filhos. O problema ocorria quando da morte de um padre: filhos e esposas reivindicavam legítimo direito de herança - e conseguiam. O resultado é que os bens da Igreja estavam escorrendo das mãos do clero para filhos e esposas que não eram do clero de uma forma muito rápida. Tornou-se necessário "estancar a sangria" - e assim permanece até hoje.

Lamentável é a ausência do arcebispo de Milão, Cardeal Martini, que chegou a defender abertamente a ordenação de mulheres e o casamento dos padres.

Lamentável também é a ausência de um latino-americano no papado. No mundo globalizado, na era das instituições midiáticas, o quão importante seria para o desenvolvimento dos continentes ao sul do equador o reconhecimento da emergência do poder e cultura destes blocos, hoje chamados de "emergentes" dado o estigma que se formou em torno dos termos "Terceiro Mundo" e "subdesenvolvimento".

Ratzinger nos anos 80 liderou ofensivas veementes desferidas contra movimentos e tendências que se formaram nas Igrejas locais destes países, frutos das reformas do Concílio Vaticano II interpretados e adaptados num mundo pós-guerra, o mundo da "Guerra Fria", bloqueando a participação que a poderosíssima Igreja (vimos uma demonstraçaõ grande deste poder na mídia em torno dos funerais de João Paulo II) nas questões sociais defendendo posturas de cobrança da sociedade na distribuição de renda e promoção humana.

O voto de silêncio imposto ao teólogo e ex-frade franciscano Leonardo Boff (hoje casado com sua ex-secretária) representou para o mundo todo o poder atualísimo da Inquisição, não mais com torturas e fogueiras, mas ainda com forte censura, controle centralizador e o "Index" - lista negra de escritos proibidos - mais ativo que nunca.

Que a teologia da Libertação tinha lá seus equívocos ninguém nega - em especial pela dificuldade que esta tendência teológica tinha em apresentar aos fiéis de todas as classes sociais uma resposta convincente em termos da tão necessária mística exigida em qualquer manifestção religiosa. Em outras palavras, uma espiritualidade pobre, a qual apesar de se confirmar nas teorias teológicas das academias católicas latino-americanas pouco ou nada figurava na prática litúrgica, o que provocou uma migração muito grnade de fiéis para outras religiões, em especial para as seitas pentecostalistas e neopentecostalistas no caso da América Latina.

Por outro lado, nada que o amadurecimento e desenvolvimento desta tendência não pudesse superar, dados os apelos modernizantes e em especial de promoção humana e desenvolvimento que poderia promover nos blocos de países atormentados pela miséria - e podemos até perguntar: não seria isto uma atitude um tanto que evangélica?!

Ratzinger impôs nos seminários nos anos 80 um severo clima de terror; a imprensa brasileira explorou a fartar uma polêmica envolvendo o "pôster de Che Guevara", dado que em função de uma campanha de fiscalização repressora desferida pelo hoje Papa contra as casas religiosas brasileiras, seminaristas receberam a ordem de retirar das vistas dos representantes do Vaticano qualquer objeto de decoração, livros ou qualquer símbolo que pudesse fazer com que alguém pensasse que a Igreja Latinoamericana estaria se tornando uma extensão dos partidos de esquerda.

Enfim, para sermos positivos podemos fazer votos que este papado nos surpreenda. Nos surpreenda ao nos dar uma resposta até então inédita ante os desafios delineados pelo século XXI, o mundo da globalização, o mundo midiático da internet e da televisão, o mundo das novas conjunturas bélicas centradas no oriente médio e o mundo dos governos paralelos sulamericanos exercidos pelo narcotráfico. Um mundo onde a AIDS consome a cada dia que passa uma África sem perspectiva, e vários outros desafios.

Alimentando as esperanças, podemos torcer para que as tendências ideológicas reconhecidas no novo papado não se confirmem, e que tenhamos um papado cadenciado com as necessidades humanísticas exigidas neste início de século.

Apesar dos pesares, peço sua benção Bento XVI, e oro ao Espírito Santo que ilumine seu pontificado. Sem ironia e com toda sinceridade, assim o desejo.

Douglas Gregorio::
Bacharel em Filosofia e ex-seminarista da Arquidiocese de São Paulo.
Outono de 2005.

* João Paulo II visitou a cidade de dois rios, Lion, na França, mas ali nada sofreu, por que? Porque a rosa não tinha florescido ainda... ela foi florescer mais tarde, quando os socialistas - que usam a rosa como símbolo - subiram ao poder na Espanha. Então, o pontífice romano cuspiu seu sangue pelos tiros de Mehmed Ali Agca.

sábado, janeiro 29, 2005

EDS, obrigado.

Agradeço ao pessoal da EDS pelo prestígio prestado em suas constantes visitas a este espaço cultural. Sejam sempre benvindos e estejam à vontade para comentários e sugestões.

segunda-feira, dezembro 27, 2004

O pentecostalismo - o outro lado da moeda

Resumo: o texto a seguir é um capítulo da dissertação de final de semestre apresentada no curso de mestrado em comunicação social da ECA-USP para a cadeira de cultura popular; o curso foi ministrado pelo Prof. Dr. Luiz Roberto Alves, atual secretário de cultura do município de Mauá na Grande São Paulo, que além da USP leciona na Universidade Metodista. Ele fala sobre os aspectos sociológicos da influência das seitas pentecostalistas sobre as sociedades urbanas das grandes cidades brasileiras, constituindo uma forma de expressão de cultura popular.
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O pentecostalismo, este controvertido filho do protestantismo, no Brasil se configura como uma das formas mais características de religiosidade popular na medida em que entre seus adeptos sempre contou em sua maioria com forte adesão de elementos dos estratos mais marginalizados da sociedade: negros, favelados, migrantes, mestiços, norte/nordestinos, analfabetos e outros.

Neste sentido, o pentecostalismo vai representar aquilo que Marliena Chauí bem aponta: uma “(...) orientação para a conduta de vida, sentimento de comunidade e saber sobre o mundo, compensando a miséria por um sistema de “graças”: cura, emprego, regresso ao lar do marido ou esposa infiel, do filho delinqüente, da filha prostituída, do fim do alcoolismo. (...)”[1]

O significado de um “rebanho santo”, “povo escolhido”, grupo privilegiado que aderiu a uma proposta pela qual se reserva uma farta recompensa, uma compensação, a idéia propriamente dita de redenção está justamente no integrar um grupo distinto da grande massa social, liberto de todos os males demoníacos que pairam sobre o “comum dos mortais”, como os vícios, os prazeres imorais, as tentações pecaminosas oferecidas pelos espetáculos em geral e assim por diante.

Decorre desta postura uma banalização daquilo que se considera a demonização do cotidiano. O demônio passa a estar presente nos mínimos atos e fatos do dia a dia. Ele torna-se o inimigo sempre à espreita que tem especial predileção pelas “ovelhas do rebanho santo de Cristo”, já que os “outros” (os não-pentecostais) já lhe pertencem. Sempre a postos para atacar não desperdiçando uma oportunidade sequer, rei da astúcia que se usa das mais variadas possíveis e imagináveis artimanhas e disfarces, Satanás desfere incansávelmente, dia e noite seus incessantes ataques contra os escolhidos de Jesus.

O vizinho que ouve uma música em volume alto, a pessoa que compartilha o assento do ônibus que involuntariamente exibe uma revista com um anúncio que mostra uma mulher seminua, a atendente de comércio que exibe um decote um pouco mais ousado, a novela que incita a relações de traição, o filme que exibe uma cena violenta, tudo isso ou até a simples fatalidade de um objeto cujo formato pode lembrar um órgão genital, tudo isso constitui ataques de Satanás aos filhos de Deus, e se tornam significantes de uma confirmação cotidiana de uma santidade adquirida, reconfirmação da dignidade e garantia de redenção conpensatória da salvação com a vida digna no além, no paraíso dos redimidos onde Cristo reunirá a sua Igreja.

Nervosismo, dores de cabeça, insônia, medo, desmaios, desejos de suicídio, doenças cujas causas os médicos não descobrem, visões de vultos, audições de vozes, vícios e depressão, todos estes sinais representam segundo o pentecostalismo a possessão demoníaca.

Considerando que estes fenômenos, em especial nas grandes cidades podem tranquilamente ser considerados triviais e comuns, frutos mesmo do estresse urbano, qualquer ser humano seria um possesso em potencial.

Por isso tudo – uma exagerada visão banalizada de demonização do cotidiano, e a necessidade de afirmação da salvação crística, redenção com a recompensa de uma vida melhor, é que decorre um outro significado de importante reflexo na cultura urbana contemporânea: a guerra santa.

De discurso intransigente, o pentecostalismo firma-se como um exército de cristãos prontos a combater pela causa de Cristo as “agências de Satã” que se fazem presentes no mundo.

Concorrentes no mercado da oferta de soluções materiais via promessa de força espiritual, as religiões mediúnicas, em especial os cultos afro foram assim estigmatizados como a materialização imediata destas agências satânicas presentes no mundo.

A história deste confronto já registrou diversos episódios e práticas de agressão do pentecostalismo aos cultos afro, uma perseguição antiga, que começou com a igreja católica, passou pelo estado e no século XX consolidou-se nas seitas pentecostalistas, reforçando-se a partir da década de 80.

Invasões de templos, difamações, interrupções de cultos, literatura agressiva, discurso depreciativo, utilização de rádio, TV e mídia impressa para campanhas de difamação e tudo o mais são apenas algumas das ações agressivas mais comuns que se tornaram significantes da guerra santa movida pelos pentecostais contra os cultos afro.

Nos anos 90, tal idéia se reforçou com o advento da Teologia do Domínio que grosso modo trata de organizar os cristãos no combate ao demônio que se organiza distribuindo seu poder a subalternos, que se fazem representar segundo a cultura local em distribuição regional hierarquizada. Em outras palavras, a administração demoníaca brasileira estaria a cargo dos Exus, Caboclos, Pretos Velhos, Orixás e demais entidades do panteão dos cultos afro, subalternas do maioral dos demônios, Lúcifer. Esta Teologia do Domínio contou com grande adesão das denominações neopentecostais, e também do protestantismo tradicional.

Assim, as camadas populares urbanas que tiveram ao seu dispor toda uma gama de significados que lhes conferia uma série de funções dentro do papel de povo escolhido a caminho da redenção numa nova vida que viria após o grande dia do juízo onde se faria a justiça de Deus e não mais a dor da exclusão social seria o pesado fardo a ser transmitido de geração para geração.

[1] Chauí, M. / Notas sobre cultura popular in Revista Questão Popular, Kairós, São Paulo, 1980. p. 18.
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Douglas Gregorio - ECA-USP
Dezembro de 2004.

domingo, dezembro 26, 2004


Enteógenos - vegetais considerados sagrados dentro das tradições mágicas e xamânicas. Utilizados em rituais em diversas culturas e ao longo dos séculos, seus efeitos proporcionam a expansão da consciência e experiências místicas praticamente indescritíveis. As comunidades e correntes religiosas que desenvolvem doutrinas em torno dos enteógenos chamam hoje a atenção por conseguirem superar diversas dificuldades sociais do homem, inclusive a cura para males como a dependência química e outros. Muitos os consideram a chave para outras dimensões, a qual abrirá as portas do retorno do homem às suas origens mais misteriosas. Posted by Hello

O Salão Dourado

Resumo - o texto a seguir narra a participação de Irineu Gabriel da Luz, antropólogo, num exótico ritual de origem xamânica, onde se vivenciou uma profunda e inigualável experiência de expansão da consciência através do uso das Plantas do Poder.

Eram aproximadamente vinte e duas horas quando decidimos nos dirigir para o lugar onde antigamente funcionava a casa do feitio. Caminhamos em fila indiana por uns 300 metros mais ou menos. Estava muito escuro e nossas poucas lanternas tornavam aquela caminhada uma aventura.

Passamos pela antiga igreja. Para mim foi um impacto. Fui tomado por tristeza ao vê-la sendo utilizada como depósito. Ali eu vi e aprendi coisas tão exóticas e bonitas, vivi experiências profundas e conheci pessoas muito bacanas. As coisas nesta vida mudam, e temos de aprender a respeitar isso. Logo, eu não podia me deixar tomar por aquela tristeza. Aquela noite seria muito especial, e isso poderia me atrapalhar.

Chegamos no local planejado. Começamos com os preparativos: dispomos as cadeiras em círculo, montamos o altar. O lampião a gás deu-nos trabalho, acabamos desistindo dele. Por felicidade, eu tinha uma lanterna com diversos recursos, entre eles uma luminária fluorescente que substituiu o lampião à altura.

Estávamos em oito pessoas, nosso anfitrião, seu jovem parceiro, nosso amigo o fiscal dos trabalhos de antigamente que eu reconheci ao chegar, e meu amigo basco, além dos demais: outros jovens e alguns necessitados que eram atendidos pelos préstimos terapêuticos do nosso anfitrião.

Nas horas que antecederam o trabalho nosso anfitrião nos falara sobre suas experiências com estados alterados de consciência e percepção quando esteve pesquisando tradições indígenas e populares na Amazônia, Peru, México e América Central e Caribe. Procurava dividir conosco um pouco de toda sua vasta bagagem cultural.

Depois de acaloradas discussões que se estenderam até os minutos de excitante clima que antecediam a abertura dos trabalhos daquela noite, dado momento nosso anfitrião interrompeu as empolgadas discussões e convidou-nos à concentração serena. Era chegada a hora.

Primeiramente, o firmamento dos pontos: Ogum e Oxum em oposição no local, norte e sul, masculino e feminino, yin e yang, a dualidade cósmica. Como diria Heráclito: “dos contrários nasce a mais bela harmonia”.
Fui convidado pelo nosso anfitrião a junto de outro amigo firmar o ponto de Oxum.

A fogueira estava acesa. Um agradável cheiro de pinho e ervas aromáticas aos poucos foi tomando conta do ambiente.

Nos reunimos num barracão aberto que de um lado possuia uma série de cadeiras dispostas lado a lado, e em frente de cada uma, mesinhas de tocos que antes eram utilizados para a bateção dos cipós. Eram separadas do ambiente por uma baixa mureta, e do lado oposto havia uma seqüência de cavidades no solo arredondadas e revestidas, do tamanho aproximado de um barril de chope, encabeçadas por um crucifixo de dupla trave horizontal popularmente conhecido como “Cruz de Caravaca” – um dos mais significativos símbolos da doutrina que ali reinava, cujo significado seria a segunda volta de Cristo. Tais cavidades seriam as fornalhas nas quais se preparava a bebida, agora desativadas.

Nos posicionamos em círculo no espaço entre as fornalhas e os tocos de bateção.

Silêncio. Fazia frio. Todos muito bem agasalhados, enrolados em cobertores.

Defumação. Um bastão de incenso foi aceso pelo nosso anfitrião, que se utilizando de passes ao estilo xamânico preparava não só ambiente, mas também cada um de nós através duma espécie de lavagem áurica.

Nosso amigo ex-fiscal assumia a função de acólito, zelando por todos os detalhes para que os trabalhos transcorressem da melhor forma.

Instrumentos xamânicos e o perfume que emanava da fogueirinha harmonizavam as vibrações do ambiente em meio à fria floresta.

- Qual motivo nos trouxe aqui?! O saber?! Saber por saber nada resolve. Vamos refletir com calma, preparar nossa mente para o que nos espera a partir de agora. Somente assim seremos melhores do que somos neste momento. Só assim alcançaremos a cura – era o que dizia nosso anfitrião, com a voz serena de quem assumia a direção dos trabalhos.

Orações, mantras, sibilos e sinais sonoros.

Nosso amigo ex-fiscal se dirige ao altar. Com reverência e respeito, estende as alfaias e empunha um pequenino copo de cerâmica vitrificada. Sacode a garrafa. Deita uma quantidade da bebida no copo. Em sentido horário as pessoas começam a reverentemente serem servidas.

Bebi com reverência e compenetração – em minha mente, minha alma e minha consciência, pedi proteção e pedi licença para integrar a egrégora que estaria sendo evocada naquele momento.
Voltamos a nos sentar. Novos mantras. Concentração.

O Deus dos mil nomes – respeitosamente evocado no início dos trabalhos.
Vagarosamente, uma sensação de leveza começou a me envolver. Uma prazerosa sensação de estar interagindo de forma mais íntima com os elementais da natureza começava a tomar conta de mim. Visão mais apurada. Começava a visualizar com facilidade a aura dos objetos. A floresta a nossa volta, o jogo de luz e sombras, arbustos e árvores configuravam um surrealista quadro que passavam a assumir um novo sentido, muito mais interessante. A cada movimento das minhas mãos e de objetos que me circundavam, um lisérgico rastro purpurinado se descortinava diante de minha visão. Suavidade, prazer, elevado estado de concentração, olfato, paladar e audição apurados.

Mantras, concentração, elevação de vibrações. Harmonia.

Creio que cerca de uma hora depois, os mantras foram interrompidos.

O clima de concentração já era forte, intenso.

Nosso amigo fiscal se dirige novamente para o altar. Com a mesma reverência anterior, sacode agora outra garrafa e o ritual de distribuição da bebida se repete.

Gosto fortíssimo, desagradável. Desde há mais de dez anos, quando então experimentei pela primeira vez aquela enigmática bebida, eu não duvidava que era mágica e poderosa.

Sentamo-nos, retomamos a concentração introspectiva e a entoação dos mantras. Frio. Cânfora e ervas aromáticas na fogueira ajudava a manter o equilíbrio. Luzes apagadas.
Dado momento, vi-me viajando num escuro espaço à velocidade da luz quando então entrei num grande salão dourado. Este salão reluzia de tal forma que eu parecia estar dentro do próprio sol, como que envolto numa caixinha lapidada do mais nobre metal. Agora luz, muita luz.
Um homem com uma expressão muito serena se aproximou sorrindo. Tive a impressão de conhecê-lo há milênios.

-Você está prestes a iniciar a batalha decisiva na busca do seu verdadeiro eu. Não será fácil. Está disposto a continuar?

-Não vim até aqui para desistir! – respondi.

-Pois bem, então que a luz esteja contigo. Não será fácil, mas não se preocupe porque eu estarei a seu lado em todos os momentos. Prepare-se!

Como que pilotando uma nave que seria meu próprio corpo astral, fui projetado em incrível velocidade para fora daquele salão reluzente.

Procurava a todo custo controlar a velocidade e a direção daquela nave, mas meus esforços eram inóqüos. Temia cair nos abismos que eu sobrevoava, neles mergulhava a velocidades incríveis sem saber o que eu acharia ali, temendo me estatelar contra uma montanha, uma muralha, contra paredes que nunca apareciam senão no meu temor.
Sentia a pressão dentro dos meus ouvidos, uma energia que enchia meu corpo astral como uma bexiga prestes a explodir, se expandindo em proporção cada vez maior, causando sensações por vezes desagradáveis.

Havia energias por serem queimadas que me impulsionavam quer eu quisesse, quer eu não quisesse. “A força não pode não se efetivar” dizia Nietzsche.

O meu temor era o de justamente não poder controlar aquelas forças. Por vários momentos estive à beira do desespero, cheguei a pensar que eu iria perder totalmente o controle, começaria a berrar. De fato, eu me debatia na cadeira, sacudia a cabeça, gesticulava como louco sem controle, pronunciava palavras desconexas em vários idiomas.

Eu já havia tido contato com a bebida várias vezes, mas aquela ocasião estava sendo diferente de todas as outras; sim, cada vez que se tem contato com a bebida se desenvolve uma situação única, mas aquela em especial estava sendo a mais intensa, a mais enigmática, pois nunca antes havia tido a sensação ameaçadora de perda de controle.

O ritmo dos mantras levava-me como que ao sabor de marolas do mar.

No fundo eu tinha uma consciência, e esta estava sob controle. Sabia que deveria me conter, me esforcei, mas não conseguia. Sabia que eu deveria manter meu equilíbrio, minha serenidade, mas parece que ainda não seria naquele momento que eu o conseguiria. Fiz várias tentativas de retornar ao salão dourado, de entrar em contemplação serena, de controlar aquelas forças todas.

Dado momento me desfiz dos agasalhos. Sentia muito calor. Suava.

O diretor dos trabalhos interrompeu o que estava sendo feito e convidou a todos para entoar novos mantras, agora todos de pé em torno da fogueira. Era um novo desdobramento do desenvolvimento das técnicas de concentração.

Em parte eu fui favorecido pela medida, porém, fui subitamente tomado por uma violenta rejeição orgânica à bebida. Retirei-me do círculo e tentei vomitar sem sucesso: meu estômago modificado não permitia. Isto me provocou um desconforto grande, mas logo passou. Desde meu primeiro contato com a bebida, era a primeira vez que eu sofria este tipo de reação.

Voltamos, sentamos novamente. Aos poucos eu ia recobrando o estado normal de percepção. Neste momento, vejo o velho amigo ex-fiscal reverencialmente volta-se para mim sorrindo, transparecendo muita luz e bondade, bondade que reinava na egrégora daquele trabalho. Com feliz e acolhedor sorriso revigorante, oferecia-me novamente a bebida.

Cheguei a pensar em recusar, mas, como eu havia dito, não tinha chegado até ali para desistir. Além disso, percebi que era oferecida por ordem do nosso anfitrião. Diretor dos trabalhos, com certeza sabia o que estava fazendo, logo, havia um propósito justo e positivo para mim naquela atitude, seria negativo recusar. Com alegria e coragem, levantei-me e me dirigi até o sorridente ex-fiscal junto ao altar. Bebi.

Voltei para meu lugar, sentei-me novamente. Concentração, mantras entoados. Convites, vozes de comando. Meu anfitrião agora se preocupava mais comigo e em meio aos mantras dirigia-me gestos e vozes de comando entoadas musicalmente, o que era muito agradável e me auxiliava a conduzir meu trabalho pessoal.

Aos poucos fui novamente retornando às minhas tarefas astrais – a responsabilidade na condução da nave. Novamente os abismos. Novamente os olhares furiosos e ameaçadores de monstros e seres de outras dimensões. O frio, o gelo, o escuro. E eu encarregado de vencer aquele longo vale gelado, conduzindo a minha nave, viajando em velocidades muito superiores às da luz. O impacto sobre meu corpo astral era fortíssimo. Passava a compreender que os valores espirituais seriam o combustível, o material, os elementos constituintes daquela nave, e que conforme a solidez de sua construção eu conseguiria chegar no meu destino de forma cada vez mais consolidada. Percebia o quanto o amor e sentimentos construtivos de combate à negatividade como ódio, rancor, inveja e tudo o que possa a estes se assemelhar seria justamente o que eu deveria buscar.

Mas eu ainda não estava preparado.

Em todos os momentos pensava na mulher que eu amo. Era a maior força que eu podia sentir.

Abismos. A nave subia e descia, virava aqui e acolá, sem rumo, sem equilíbrio, e por mais que eu me esforçasse em telepaticamente manter a reta direção, eu nada conseguia.

Eu me debatia na cadeira, pronunciava palavras desconexas em vários idiomas, soluçava, arrotava, o cheiro das ervas e do pinho passaram a me incomodar, mas desejava o cheiro da cânfora que ajudava para com o equilíbrio. Por momentos pensei que os demais estariam julgando meu desequilíbrio, mas todos os que estavam ali de certa forma já tinham realizado a mesma viajem que eu, e sabiam o quanto era importante eu passar por aquilo, e compreendiam minhas dificuldades. E viam a beleza e o sentido pedagógico que existia por detrás de tudo aquilo.

Novamente fomos convidados a ficar de pé. Novos mantras.

Lembrei-me de um destes mantras, o primeiro que se gravou em minha memória através de uma reportagem de TV sobre a bebida que eu tinha visto há muitos anos: “Confio no sol, confio na lua, confio em meu mestre que é o dono do Poder!”. Belíssimo.

Novamente convidados a sentar.

Dado momento o anfitrião interrompe e pergunta ao basco e também para mim se agüentariamos continuar. –É lógico! – corajosamente respondi – está difícil, mas vim aqui para isso.

Continuamos. Mantras entoados.

A força da bebida foi me deixando aos poucos. Vagarosamente fui recobrando o estado normal de percepção. Nos reunimos em torno da fogueira, agradecemos a forte e positiva egrégora que nos envolveu naquela noite e entoamos em coro um recital de orações: pai-nosso, ave-maria, salve-rainha e outras, por várias vezes. O anfitrião, com belas palavras sábias encerra os trabalhos e todos nos cumprimentamos em confraternização.

Por algumas horas ainda permaneci enxergando rastros lisérgicos purpurinados nos objetos em movimento. Profundidade, a quebra de uma grossa casca exterior. Talvez isso tenha ocorrido naquela noite, uma casca a qual vinha sendo desgastada pela bebida ao longo dos mais de dez anos nos quais com ela estive em diversas ocasiões.

Este encontro com meu mentor neste grande salão dourado foi um ponto de partida, sem dúvida. Agora, a viagem real começou efetivamente. Mas eu ainda não sou um bom piloto. Ainda preciso praticar, preciso adquirir o equilíbrio que faltou naquela noite. Enfrentar sem medo os mergulhos nos abismos, seguro de que não irei estatelar-me contra parede alguma.

Ser senhor da minha nave até que um belo dia eu possa pousá-la no porto seguro do Dono do Poder. Que assim seja.

Irineu Gabriel da Luz
Primavera de 2004.

segunda-feira, novembro 15, 2004

Psicofluidos


No universo xamânico pode-se experimentar a revelação da sabedoria ancestral encontrada na natureza, na medida da expansão da consciência. Em dimensões paralelas ocorre a descoberta de um novo paradigma cósmico capaz de revolucionar a estrutura do conhecimento científico contemporâneo e abrir o portal para o retorno da humanidade ao paraíso perdido. - comentário baseado no trabalho de um pesquisador do xamanismo amazônico da década de 70.
Posted by Hello

sexta-feira, outubro 01, 2004

O Prodígio da Macedônia

O Prodígio da Macedônia.
Resumo: trata-se de um pequeno texto biográfico sobre Alexandre o Grande, como prévia ao lançamento do filme que estará nos cinemas na segunda quinzena de novembro de 2004.
O prodígio da Macedônia.

“Alexander The Great
His name struck fear into the hearts of men
Alexander the Great
Became a legend mongst mortal men.”
Steve Harris


A Macedônia se localiza na região da península dos Balcãs, ou península balcânica, localidade onde se destaca a Grécia, entre outros países.

Antes ainda da ascenção dos romanos, após a decadência da democracia ateniense por volta dos século III a.C., a macedônia foi governada pelo rei Filipe.

O rei Filipe foi muito esperto ao aproveitar o desgaste da rivalidade entre Esparta e Atenas, isso sem contar com as constantes invasões persas, que foram enfraquecendo os reinos hegemônicos do mundo helênico. Neste sentido, aproveitando o pontapé inicial de Filipe, o príncipe da Macedônia, educado pelo maior professor que podia se contratar na época, Aristóteles, ao subir ao trono levou todos os projetos de construção da hegemonia macedônica de Filipe à realidade: tratava-se de Alexandre.

O pai de Alexandre morreu precocemente assassinado por um de seus chefes militares, e Alexandre tornou-se rei muito jovem, por volta dos vinte anos.

Dizem que era um rapaz extremamente belo e muito prendado nas várias artes que poderiam ser ensinadas a um jovem de elite de sua época. Também, pudera. Já foi dito quem era seu preceptor.

Ainda adolescente destacava-se na arte da equitação. Foi famoso o episódio em que surpreendeu cavaleiros mais experientes ao domar um cavalo extremamente rebelde e agressivo que viria a se tornar seu inseparável corcel: Bucéfalo. E o episódio contou com o descobrimento de uma técnica básica de adestramento equino percebida por Alexandre na ocasião: ele desconfiou que o nervosismo de Buce´falo vinha do medo que tinha da sua própria sombra; virando a cabeça de Bucéfalo em direção ao sol, pôde montá-lo sem maiores dificuldades. Ele tinha apenas treze anos, e havia nascido em 356 a.C.

Extremamente intelectualizado, desde os 13 anos estudou diversas matérias com seu admirável mestre: psicologia, astronomia, botânica, zoologia, letras, direito, retórica, lógica, medicina, política e, como não podia deixar de ser, a filosofia.
A influência de Aristóteles foi tanta que ocorria o seguinte: extremamente sanguinário, Alexandre tinha por hábito destruir TODAS as casas das cidades que seus exércitos invadiam, exceto... as casas dos filósofos.

Depois da conquista da Grécia, suas tropas marcharam sobre a Pérsia (Irã).

Foi famoso o episódio no qual cortou o “Nó Górdio” – havia um templo em Górdia, na Pérsia, e nele um nó, nó cego eu ninguém conseguia desfazer, e uma profecia de que quem desatasse o nó conquistaria a Pérsia. Ele simplesmente cortou o nó com sua espada.

Depois de conquistar a Pérsia marchou sobre o Egito, na época anexado ao que era o Império Persa.

A cultura sempre foi preocupação de Alexandre. Fundou uma cidade no Egito e deu-lhe seu nome: Alexandria, e fez dela o mais importante centro cultural da antiguidade, e financiou a construção de uma das mais importantes bibliotecas de toda a história, a qual chegou a oferecer meio milhão de obras, todas escritas em rolos de pergaminho manuscritas. Se não tivesse sido destruída séculos mais tarde pelos muçulmanos, com certeza seria hoje a maior biblioteca do mundo.

Alexandria tornou-se base de produção cultural do Império Macedônio; começou a atrair intelectuais de todo o mundo conhecido, já que ali não ocorria censura e o financiamento para pesquisas era abundante, isso sem contar com o ambiente de troca e interação cultural onde sábios do mundo todo se encontravam.

Neste centro construiu uma torre de trinta andares, inovadora para uma época em que comumente as construções não ultrapassavam dois andares. No alto desta torre foi instalado um farol, o famoso Farol de Alexandria, associando a simbologia da iluminação à cultura. A palavra farol tem sua origem aí, uma vez que esta torre foi construída na ilha de Faros.

Uma de suas últimas conquistas foi a Índia.

Casou-se com uma nobre persa de nome Roxana.

No seu retorno para a Macedônia, quando então Roxana estava grávida, parou na região da Babilônia. Tinha a intenção de tornar a cidade capital do seu império. Ali, acometido por uma estranha doença faleceu aos 33 anos de idade em 323 a.C., sem portanto conhecer seu único filho, Alexandre IV.
Após sua morte seu império foi dividido entre quatro partes, cada uma cabendo aos seus principais generais.

A política de difusão cultural promovida por Alexandre chamou-se de helenismo, a qual tinha como característica básica a unificação cultural de ocidente e oriente, e lançou as bases da cristianização do ocidente, uma vez que o cristianismo, alguns séculos mais tarde, encontrou terreno fértil em sua associação à cultura helênica, principalmente através do trabalho de Paulo que fundou comunidades cristãs nas principais cidades helênicas, herdeiras da cultura alexandrina, e também dirigiu obras codificadoras da ética cristã a estas comunidades, todas obviamente escritas em grego, cuja importância internacional, em função justamente do trabalho de Alexandre, corresponderia à atual importância do inglês: era o idioma mais utilizado nas comunicações de cunho internacional.

Alexandre o Grande recebeu uma importante e inusitada homenagem de uma das bandas de rock mais destacadas no pós-guerra: o Iron Maiden que em 1986 lançou a canção “Alexander The Great” em seu álbum “Somewhere in Time”, na qual toda a história dos maiores feitos de Alexandre é narrada. A música foi composta por Steve Harris, mas com certeza ocorreu aí influência de Bruce Dickinson, que além de vocalista é historiador. É mais uma das manifestações culturais do Iron Maiden, a “última das grandes bandas” da safra dos anos 70, cuja trajetória foi marcada por letras intelectualizadas e evocações de mitos e episódios históricos, como a denúncia do massacre de indígenas americanos pelos colonizadores europeus em “Run to the Hills”, o belo trabalho com a mitologia egípcia no álbum “Powerslave”, a descrição de um dos mais famosos mitos gregos em “Flight of The Ícarus” e outras.

E em muito breve, poderemos ver na telona a vida de Alexandre o Grande. Dando continuidade à atual tendência hollywoodyana de reviver a época dos grandes épicos dos anos 50 e 60, a qual começou com Gladiator, depois Troia e agora Alexander que estará nos cinemas brasileiros na segunda quinzena de novembro de 2004.

Douglas Gregorio::
Primavera de 2004.

quarta-feira, setembro 01, 2004

Olga - O Filme

OLGA BENÁRIO E LUÍS CARLOS PRESTES – ROMANCE E LUTA

DOUGLAS GREGORIO::
Setembro de 2004.

“Bem unidos, façamos
Desta luta, a final!
Numa terra sem amos – A Internacional!”

Não me lembro exatamente qual ano, só me recordo que era um dos últimos da década de 80. O local, a Praça da Sé, em São Paulo. Uma esolarada tarde do dia primeiro de maio, feriado.

No palanque, representantes de várias entidades discursando em comemoração à data dos trabalhadores.

De repente, um côro consonante de várias vozes como em em palavras de ordem: HOW! HOW! HOW! – não era o Papai Noel. O tom dos gritos eram muito mais agressivos que as gargalhadas do velhinho natalino. Eram gritos de guerra.

Eu olho para trás e vejo uma grande bandeira azul escuro, tendo em seu centro o círculo branco com o símbolo do sigma grego. Apesar de décadas de atraso, eram os neo-nazistas, então chamados de “Carecas” que faziam uma corrente e avançavam sobre a multidão.

Eu indignado com aquela bandeira integralista, gesticulava para os organizadores no palco exigindo providências. O que aqueles nazi-fascistas do Terceiro Mundo faziam ali, em nosso meio?!

A porradaria comeu solta. No final, a vitória: conseguimos expulsar as dezenas de Skin Heads da praça, e ainda por cima conseguimos tomar-lhes aquela bandeira horrível e atear fogo no símbolo de toda aquela palhaçada violenta.

Logo em seguida, eis que surge, ele... o velhinho... agora sim o velhinho, o “Cavaleiro da Esperança” – Luís Carlos Prestes em pessoa.

Na época eu era um adolescente secundarista. Tinha vivenciado bem de perto a campanha das Diretas Já e o renascimento da esquerda no Brasil.

No colégio eu estudava a história do Brasil contemporâneo, e uma das coisas as quais me intrigavam era justamente a figura daquele velhinho.

Eu me perguntava – como este homem pôde apoiar o retorno de Getúlio Vargas para seu segundo mandato, o homem que o aprisionou e enviou sua esposa, Olga Benário, para os campos de concentração nazistas?!

Em seguida, eis que um amigo de faculdade, Carlos Fagiolo, candidato a deputado estadual sobe ao palanque para discursar.

“Galinhas Verdes! “ – falava o Carlão, referindo-se ao caricáto apelido dos membros do movimento integralista.

Aproveitei a oportunidade, acenei: Carlão!... conclusão: tive a oportunidade de dirigir a pergunta acima a quem melhor poderia respondê-la: o próprio Prestes.

“Foi uma questão de circunstâncias, da busca de conquistas e objetivos maiores. Eu não podia colocar questões pessoais na frente disso” – a resposta.

E assim lá ia eu, todo contente para casa, por ter trocado umas breves palavras com um dos monstros sagrados da história do Brasil.

Mas desde aquela época, desde aquela idade, eu tinha uma questão em mente: os comunistas estavam equivocados – sempre tive a convicção disso. E realmente, minhas convicções vieram a se confirmar não muito mais tarde daquele dia, com a queda do Muro de Berlin em 1989.

O crime do rico a lei o cobre,
o estado esmaga o oprimido.
Não há direito para o pobre,
Ao rico tudo é permitido!
À opressão não mais sujeitos,
somos iguais todos os seres,
não mais deveres sem direitos,
não mais direitos sem deveres!

Esta estrofe do hino da Internacional Socialista numa única linha explica o porque de eu achar os comunistas equivocados. Quem puder entender, entenda... aliás, os comunistas tentaram excluir do hino esta mesma estrofe, porque afinal de contas, não foram eles que o compuseram.
Ai, ai, ai... será que alguém se recorda do quanto este hino rendeu críticas ao Lula em 1989?!

E assim me aproximei o máximo que pude de Olga.

OLGA
Direção de Jayme Monjardim, baseado no livro de Fernando de Morais.
Com Camila Morgado como Olga, e Caco Ciocler como Prestes.
Floriano Peixoto como Filinto Müller e Fernanda Montenegro como Leocádia Prestes.

Apesar das criticas e recríticas, o filme é excelente. Nem se sente passar as duas horas e vinte minutos de pura história e exemplos de determinação e disciplina.
Monjardim não poderia ter escolhido outra atriz para representar Olga senão Camila Morgado, a qual até na aparência física fica bem próxima de Olga.

Resumo:

Olga foi enviada ao Brasil pelo comitê central do partido comunista com a missão de proteger Prestes que se encontrava exilado em seu regresso. Prestes foi o maior representante do comunismo em terras brasileiras.

Passando-se por um casal de ricos portugueses em lua de mel, com escalas em alguns países antes de chegar ao Brasil, fato é que esta a lua de mel acabou virando real. Eles se apaixonaram.
Depois de uma série de intrigas, perseguições e traições, finalmente a polícia de Getúlio prende Prestes e Olga que são separados para nunca mais se verem, exceto por cartas.
Detalhe – Olga estava grávida quando foi presa.

Filinto Müller, chefe da polícia política durante a ditadura do Estado Novo, entrega Olga à Gestapo. Estrangeira, com facilidade foi deportada pelos fascistas que estavam no poder.

Filinto Müller fez carreira política chegando a senador. Com o fim do Estado Novo, foi convocado a dar explicações sobre os crimes que cometeu, entre eles a deportação de Olga, a qual jurava ele ter sido uma ordem de Getúlio.

Judia e comunista, foi encaminhada a uma prisão alemã – onde deu a luz a Anita Leocádia. Anita, em homeganem a Anita Garibaldi, e Leocádia, em homenagem à avó paterna, a qual através de intensa campanha internacional consegue uma verdadeira proeza: que os nazistas lhe concedessem a guarda da neta.

Hoje, Anita tem 67 anos e foi indenizada recentemente por dificuldades impostas pelo governo brasileiro por ter sido impedida de trabalhar e exilada durante a recente ditadura militar que veio com o golpe em 1964.
Separada da filha, anos mais tarde Olga soube que ela estava em companhia da avó, o que lhe aliviou a alma.

Como todos os demais judeus, Olga ficou sendo torturada, humilhada e submetida a trabalho escravo nos campos de concentração nazistas até morrer em 1942.Os historiadores não conseguem situar ao certo como e onde ela morreu, se fuzilada ou vítima da câmara de gás. Só se sabe que a morte dela ocorreu em 1942.

O filme realmente é muito triste, mas com certeza é mais uma excelente obra que vem confirmar o renascimento do cinema brasileiro e uma excelente opção para aqueles que apreciam bons filmes que possam somar aos seus conhecimentos e à sua base cultural.