segunda-feira, dezembro 27, 2004

O pentecostalismo - o outro lado da moeda

Resumo: o texto a seguir é um capítulo da dissertação de final de semestre apresentada no curso de mestrado em comunicação social da ECA-USP para a cadeira de cultura popular; o curso foi ministrado pelo Prof. Dr. Luiz Roberto Alves, atual secretário de cultura do município de Mauá na Grande São Paulo, que além da USP leciona na Universidade Metodista. Ele fala sobre os aspectos sociológicos da influência das seitas pentecostalistas sobre as sociedades urbanas das grandes cidades brasileiras, constituindo uma forma de expressão de cultura popular.
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O pentecostalismo, este controvertido filho do protestantismo, no Brasil se configura como uma das formas mais características de religiosidade popular na medida em que entre seus adeptos sempre contou em sua maioria com forte adesão de elementos dos estratos mais marginalizados da sociedade: negros, favelados, migrantes, mestiços, norte/nordestinos, analfabetos e outros.

Neste sentido, o pentecostalismo vai representar aquilo que Marliena Chauí bem aponta: uma “(...) orientação para a conduta de vida, sentimento de comunidade e saber sobre o mundo, compensando a miséria por um sistema de “graças”: cura, emprego, regresso ao lar do marido ou esposa infiel, do filho delinqüente, da filha prostituída, do fim do alcoolismo. (...)”[1]

O significado de um “rebanho santo”, “povo escolhido”, grupo privilegiado que aderiu a uma proposta pela qual se reserva uma farta recompensa, uma compensação, a idéia propriamente dita de redenção está justamente no integrar um grupo distinto da grande massa social, liberto de todos os males demoníacos que pairam sobre o “comum dos mortais”, como os vícios, os prazeres imorais, as tentações pecaminosas oferecidas pelos espetáculos em geral e assim por diante.

Decorre desta postura uma banalização daquilo que se considera a demonização do cotidiano. O demônio passa a estar presente nos mínimos atos e fatos do dia a dia. Ele torna-se o inimigo sempre à espreita que tem especial predileção pelas “ovelhas do rebanho santo de Cristo”, já que os “outros” (os não-pentecostais) já lhe pertencem. Sempre a postos para atacar não desperdiçando uma oportunidade sequer, rei da astúcia que se usa das mais variadas possíveis e imagináveis artimanhas e disfarces, Satanás desfere incansávelmente, dia e noite seus incessantes ataques contra os escolhidos de Jesus.

O vizinho que ouve uma música em volume alto, a pessoa que compartilha o assento do ônibus que involuntariamente exibe uma revista com um anúncio que mostra uma mulher seminua, a atendente de comércio que exibe um decote um pouco mais ousado, a novela que incita a relações de traição, o filme que exibe uma cena violenta, tudo isso ou até a simples fatalidade de um objeto cujo formato pode lembrar um órgão genital, tudo isso constitui ataques de Satanás aos filhos de Deus, e se tornam significantes de uma confirmação cotidiana de uma santidade adquirida, reconfirmação da dignidade e garantia de redenção conpensatória da salvação com a vida digna no além, no paraíso dos redimidos onde Cristo reunirá a sua Igreja.

Nervosismo, dores de cabeça, insônia, medo, desmaios, desejos de suicídio, doenças cujas causas os médicos não descobrem, visões de vultos, audições de vozes, vícios e depressão, todos estes sinais representam segundo o pentecostalismo a possessão demoníaca.

Considerando que estes fenômenos, em especial nas grandes cidades podem tranquilamente ser considerados triviais e comuns, frutos mesmo do estresse urbano, qualquer ser humano seria um possesso em potencial.

Por isso tudo – uma exagerada visão banalizada de demonização do cotidiano, e a necessidade de afirmação da salvação crística, redenção com a recompensa de uma vida melhor, é que decorre um outro significado de importante reflexo na cultura urbana contemporânea: a guerra santa.

De discurso intransigente, o pentecostalismo firma-se como um exército de cristãos prontos a combater pela causa de Cristo as “agências de Satã” que se fazem presentes no mundo.

Concorrentes no mercado da oferta de soluções materiais via promessa de força espiritual, as religiões mediúnicas, em especial os cultos afro foram assim estigmatizados como a materialização imediata destas agências satânicas presentes no mundo.

A história deste confronto já registrou diversos episódios e práticas de agressão do pentecostalismo aos cultos afro, uma perseguição antiga, que começou com a igreja católica, passou pelo estado e no século XX consolidou-se nas seitas pentecostalistas, reforçando-se a partir da década de 80.

Invasões de templos, difamações, interrupções de cultos, literatura agressiva, discurso depreciativo, utilização de rádio, TV e mídia impressa para campanhas de difamação e tudo o mais são apenas algumas das ações agressivas mais comuns que se tornaram significantes da guerra santa movida pelos pentecostais contra os cultos afro.

Nos anos 90, tal idéia se reforçou com o advento da Teologia do Domínio que grosso modo trata de organizar os cristãos no combate ao demônio que se organiza distribuindo seu poder a subalternos, que se fazem representar segundo a cultura local em distribuição regional hierarquizada. Em outras palavras, a administração demoníaca brasileira estaria a cargo dos Exus, Caboclos, Pretos Velhos, Orixás e demais entidades do panteão dos cultos afro, subalternas do maioral dos demônios, Lúcifer. Esta Teologia do Domínio contou com grande adesão das denominações neopentecostais, e também do protestantismo tradicional.

Assim, as camadas populares urbanas que tiveram ao seu dispor toda uma gama de significados que lhes conferia uma série de funções dentro do papel de povo escolhido a caminho da redenção numa nova vida que viria após o grande dia do juízo onde se faria a justiça de Deus e não mais a dor da exclusão social seria o pesado fardo a ser transmitido de geração para geração.

[1] Chauí, M. / Notas sobre cultura popular in Revista Questão Popular, Kairós, São Paulo, 1980. p. 18.
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Douglas Gregorio - ECA-USP
Dezembro de 2004.

domingo, dezembro 26, 2004


Enteógenos - vegetais considerados sagrados dentro das tradições mágicas e xamânicas. Utilizados em rituais em diversas culturas e ao longo dos séculos, seus efeitos proporcionam a expansão da consciência e experiências místicas praticamente indescritíveis. As comunidades e correntes religiosas que desenvolvem doutrinas em torno dos enteógenos chamam hoje a atenção por conseguirem superar diversas dificuldades sociais do homem, inclusive a cura para males como a dependência química e outros. Muitos os consideram a chave para outras dimensões, a qual abrirá as portas do retorno do homem às suas origens mais misteriosas. Posted by Hello

O Salão Dourado

Resumo - o texto a seguir narra a participação de Irineu Gabriel da Luz, antropólogo, num exótico ritual de origem xamânica, onde se vivenciou uma profunda e inigualável experiência de expansão da consciência através do uso das Plantas do Poder.

Eram aproximadamente vinte e duas horas quando decidimos nos dirigir para o lugar onde antigamente funcionava a casa do feitio. Caminhamos em fila indiana por uns 300 metros mais ou menos. Estava muito escuro e nossas poucas lanternas tornavam aquela caminhada uma aventura.

Passamos pela antiga igreja. Para mim foi um impacto. Fui tomado por tristeza ao vê-la sendo utilizada como depósito. Ali eu vi e aprendi coisas tão exóticas e bonitas, vivi experiências profundas e conheci pessoas muito bacanas. As coisas nesta vida mudam, e temos de aprender a respeitar isso. Logo, eu não podia me deixar tomar por aquela tristeza. Aquela noite seria muito especial, e isso poderia me atrapalhar.

Chegamos no local planejado. Começamos com os preparativos: dispomos as cadeiras em círculo, montamos o altar. O lampião a gás deu-nos trabalho, acabamos desistindo dele. Por felicidade, eu tinha uma lanterna com diversos recursos, entre eles uma luminária fluorescente que substituiu o lampião à altura.

Estávamos em oito pessoas, nosso anfitrião, seu jovem parceiro, nosso amigo o fiscal dos trabalhos de antigamente que eu reconheci ao chegar, e meu amigo basco, além dos demais: outros jovens e alguns necessitados que eram atendidos pelos préstimos terapêuticos do nosso anfitrião.

Nas horas que antecederam o trabalho nosso anfitrião nos falara sobre suas experiências com estados alterados de consciência e percepção quando esteve pesquisando tradições indígenas e populares na Amazônia, Peru, México e América Central e Caribe. Procurava dividir conosco um pouco de toda sua vasta bagagem cultural.

Depois de acaloradas discussões que se estenderam até os minutos de excitante clima que antecediam a abertura dos trabalhos daquela noite, dado momento nosso anfitrião interrompeu as empolgadas discussões e convidou-nos à concentração serena. Era chegada a hora.

Primeiramente, o firmamento dos pontos: Ogum e Oxum em oposição no local, norte e sul, masculino e feminino, yin e yang, a dualidade cósmica. Como diria Heráclito: “dos contrários nasce a mais bela harmonia”.
Fui convidado pelo nosso anfitrião a junto de outro amigo firmar o ponto de Oxum.

A fogueira estava acesa. Um agradável cheiro de pinho e ervas aromáticas aos poucos foi tomando conta do ambiente.

Nos reunimos num barracão aberto que de um lado possuia uma série de cadeiras dispostas lado a lado, e em frente de cada uma, mesinhas de tocos que antes eram utilizados para a bateção dos cipós. Eram separadas do ambiente por uma baixa mureta, e do lado oposto havia uma seqüência de cavidades no solo arredondadas e revestidas, do tamanho aproximado de um barril de chope, encabeçadas por um crucifixo de dupla trave horizontal popularmente conhecido como “Cruz de Caravaca” – um dos mais significativos símbolos da doutrina que ali reinava, cujo significado seria a segunda volta de Cristo. Tais cavidades seriam as fornalhas nas quais se preparava a bebida, agora desativadas.

Nos posicionamos em círculo no espaço entre as fornalhas e os tocos de bateção.

Silêncio. Fazia frio. Todos muito bem agasalhados, enrolados em cobertores.

Defumação. Um bastão de incenso foi aceso pelo nosso anfitrião, que se utilizando de passes ao estilo xamânico preparava não só ambiente, mas também cada um de nós através duma espécie de lavagem áurica.

Nosso amigo ex-fiscal assumia a função de acólito, zelando por todos os detalhes para que os trabalhos transcorressem da melhor forma.

Instrumentos xamânicos e o perfume que emanava da fogueirinha harmonizavam as vibrações do ambiente em meio à fria floresta.

- Qual motivo nos trouxe aqui?! O saber?! Saber por saber nada resolve. Vamos refletir com calma, preparar nossa mente para o que nos espera a partir de agora. Somente assim seremos melhores do que somos neste momento. Só assim alcançaremos a cura – era o que dizia nosso anfitrião, com a voz serena de quem assumia a direção dos trabalhos.

Orações, mantras, sibilos e sinais sonoros.

Nosso amigo ex-fiscal se dirige ao altar. Com reverência e respeito, estende as alfaias e empunha um pequenino copo de cerâmica vitrificada. Sacode a garrafa. Deita uma quantidade da bebida no copo. Em sentido horário as pessoas começam a reverentemente serem servidas.

Bebi com reverência e compenetração – em minha mente, minha alma e minha consciência, pedi proteção e pedi licença para integrar a egrégora que estaria sendo evocada naquele momento.
Voltamos a nos sentar. Novos mantras. Concentração.

O Deus dos mil nomes – respeitosamente evocado no início dos trabalhos.
Vagarosamente, uma sensação de leveza começou a me envolver. Uma prazerosa sensação de estar interagindo de forma mais íntima com os elementais da natureza começava a tomar conta de mim. Visão mais apurada. Começava a visualizar com facilidade a aura dos objetos. A floresta a nossa volta, o jogo de luz e sombras, arbustos e árvores configuravam um surrealista quadro que passavam a assumir um novo sentido, muito mais interessante. A cada movimento das minhas mãos e de objetos que me circundavam, um lisérgico rastro purpurinado se descortinava diante de minha visão. Suavidade, prazer, elevado estado de concentração, olfato, paladar e audição apurados.

Mantras, concentração, elevação de vibrações. Harmonia.

Creio que cerca de uma hora depois, os mantras foram interrompidos.

O clima de concentração já era forte, intenso.

Nosso amigo fiscal se dirige novamente para o altar. Com a mesma reverência anterior, sacode agora outra garrafa e o ritual de distribuição da bebida se repete.

Gosto fortíssimo, desagradável. Desde há mais de dez anos, quando então experimentei pela primeira vez aquela enigmática bebida, eu não duvidava que era mágica e poderosa.

Sentamo-nos, retomamos a concentração introspectiva e a entoação dos mantras. Frio. Cânfora e ervas aromáticas na fogueira ajudava a manter o equilíbrio. Luzes apagadas.
Dado momento, vi-me viajando num escuro espaço à velocidade da luz quando então entrei num grande salão dourado. Este salão reluzia de tal forma que eu parecia estar dentro do próprio sol, como que envolto numa caixinha lapidada do mais nobre metal. Agora luz, muita luz.
Um homem com uma expressão muito serena se aproximou sorrindo. Tive a impressão de conhecê-lo há milênios.

-Você está prestes a iniciar a batalha decisiva na busca do seu verdadeiro eu. Não será fácil. Está disposto a continuar?

-Não vim até aqui para desistir! – respondi.

-Pois bem, então que a luz esteja contigo. Não será fácil, mas não se preocupe porque eu estarei a seu lado em todos os momentos. Prepare-se!

Como que pilotando uma nave que seria meu próprio corpo astral, fui projetado em incrível velocidade para fora daquele salão reluzente.

Procurava a todo custo controlar a velocidade e a direção daquela nave, mas meus esforços eram inóqüos. Temia cair nos abismos que eu sobrevoava, neles mergulhava a velocidades incríveis sem saber o que eu acharia ali, temendo me estatelar contra uma montanha, uma muralha, contra paredes que nunca apareciam senão no meu temor.
Sentia a pressão dentro dos meus ouvidos, uma energia que enchia meu corpo astral como uma bexiga prestes a explodir, se expandindo em proporção cada vez maior, causando sensações por vezes desagradáveis.

Havia energias por serem queimadas que me impulsionavam quer eu quisesse, quer eu não quisesse. “A força não pode não se efetivar” dizia Nietzsche.

O meu temor era o de justamente não poder controlar aquelas forças. Por vários momentos estive à beira do desespero, cheguei a pensar que eu iria perder totalmente o controle, começaria a berrar. De fato, eu me debatia na cadeira, sacudia a cabeça, gesticulava como louco sem controle, pronunciava palavras desconexas em vários idiomas.

Eu já havia tido contato com a bebida várias vezes, mas aquela ocasião estava sendo diferente de todas as outras; sim, cada vez que se tem contato com a bebida se desenvolve uma situação única, mas aquela em especial estava sendo a mais intensa, a mais enigmática, pois nunca antes havia tido a sensação ameaçadora de perda de controle.

O ritmo dos mantras levava-me como que ao sabor de marolas do mar.

No fundo eu tinha uma consciência, e esta estava sob controle. Sabia que deveria me conter, me esforcei, mas não conseguia. Sabia que eu deveria manter meu equilíbrio, minha serenidade, mas parece que ainda não seria naquele momento que eu o conseguiria. Fiz várias tentativas de retornar ao salão dourado, de entrar em contemplação serena, de controlar aquelas forças todas.

Dado momento me desfiz dos agasalhos. Sentia muito calor. Suava.

O diretor dos trabalhos interrompeu o que estava sendo feito e convidou a todos para entoar novos mantras, agora todos de pé em torno da fogueira. Era um novo desdobramento do desenvolvimento das técnicas de concentração.

Em parte eu fui favorecido pela medida, porém, fui subitamente tomado por uma violenta rejeição orgânica à bebida. Retirei-me do círculo e tentei vomitar sem sucesso: meu estômago modificado não permitia. Isto me provocou um desconforto grande, mas logo passou. Desde meu primeiro contato com a bebida, era a primeira vez que eu sofria este tipo de reação.

Voltamos, sentamos novamente. Aos poucos eu ia recobrando o estado normal de percepção. Neste momento, vejo o velho amigo ex-fiscal reverencialmente volta-se para mim sorrindo, transparecendo muita luz e bondade, bondade que reinava na egrégora daquele trabalho. Com feliz e acolhedor sorriso revigorante, oferecia-me novamente a bebida.

Cheguei a pensar em recusar, mas, como eu havia dito, não tinha chegado até ali para desistir. Além disso, percebi que era oferecida por ordem do nosso anfitrião. Diretor dos trabalhos, com certeza sabia o que estava fazendo, logo, havia um propósito justo e positivo para mim naquela atitude, seria negativo recusar. Com alegria e coragem, levantei-me e me dirigi até o sorridente ex-fiscal junto ao altar. Bebi.

Voltei para meu lugar, sentei-me novamente. Concentração, mantras entoados. Convites, vozes de comando. Meu anfitrião agora se preocupava mais comigo e em meio aos mantras dirigia-me gestos e vozes de comando entoadas musicalmente, o que era muito agradável e me auxiliava a conduzir meu trabalho pessoal.

Aos poucos fui novamente retornando às minhas tarefas astrais – a responsabilidade na condução da nave. Novamente os abismos. Novamente os olhares furiosos e ameaçadores de monstros e seres de outras dimensões. O frio, o gelo, o escuro. E eu encarregado de vencer aquele longo vale gelado, conduzindo a minha nave, viajando em velocidades muito superiores às da luz. O impacto sobre meu corpo astral era fortíssimo. Passava a compreender que os valores espirituais seriam o combustível, o material, os elementos constituintes daquela nave, e que conforme a solidez de sua construção eu conseguiria chegar no meu destino de forma cada vez mais consolidada. Percebia o quanto o amor e sentimentos construtivos de combate à negatividade como ódio, rancor, inveja e tudo o que possa a estes se assemelhar seria justamente o que eu deveria buscar.

Mas eu ainda não estava preparado.

Em todos os momentos pensava na mulher que eu amo. Era a maior força que eu podia sentir.

Abismos. A nave subia e descia, virava aqui e acolá, sem rumo, sem equilíbrio, e por mais que eu me esforçasse em telepaticamente manter a reta direção, eu nada conseguia.

Eu me debatia na cadeira, pronunciava palavras desconexas em vários idiomas, soluçava, arrotava, o cheiro das ervas e do pinho passaram a me incomodar, mas desejava o cheiro da cânfora que ajudava para com o equilíbrio. Por momentos pensei que os demais estariam julgando meu desequilíbrio, mas todos os que estavam ali de certa forma já tinham realizado a mesma viajem que eu, e sabiam o quanto era importante eu passar por aquilo, e compreendiam minhas dificuldades. E viam a beleza e o sentido pedagógico que existia por detrás de tudo aquilo.

Novamente fomos convidados a ficar de pé. Novos mantras.

Lembrei-me de um destes mantras, o primeiro que se gravou em minha memória através de uma reportagem de TV sobre a bebida que eu tinha visto há muitos anos: “Confio no sol, confio na lua, confio em meu mestre que é o dono do Poder!”. Belíssimo.

Novamente convidados a sentar.

Dado momento o anfitrião interrompe e pergunta ao basco e também para mim se agüentariamos continuar. –É lógico! – corajosamente respondi – está difícil, mas vim aqui para isso.

Continuamos. Mantras entoados.

A força da bebida foi me deixando aos poucos. Vagarosamente fui recobrando o estado normal de percepção. Nos reunimos em torno da fogueira, agradecemos a forte e positiva egrégora que nos envolveu naquela noite e entoamos em coro um recital de orações: pai-nosso, ave-maria, salve-rainha e outras, por várias vezes. O anfitrião, com belas palavras sábias encerra os trabalhos e todos nos cumprimentamos em confraternização.

Por algumas horas ainda permaneci enxergando rastros lisérgicos purpurinados nos objetos em movimento. Profundidade, a quebra de uma grossa casca exterior. Talvez isso tenha ocorrido naquela noite, uma casca a qual vinha sendo desgastada pela bebida ao longo dos mais de dez anos nos quais com ela estive em diversas ocasiões.

Este encontro com meu mentor neste grande salão dourado foi um ponto de partida, sem dúvida. Agora, a viagem real começou efetivamente. Mas eu ainda não sou um bom piloto. Ainda preciso praticar, preciso adquirir o equilíbrio que faltou naquela noite. Enfrentar sem medo os mergulhos nos abismos, seguro de que não irei estatelar-me contra parede alguma.

Ser senhor da minha nave até que um belo dia eu possa pousá-la no porto seguro do Dono do Poder. Que assim seja.

Irineu Gabriel da Luz
Primavera de 2004.

segunda-feira, novembro 15, 2004

Psicofluidos


No universo xamânico pode-se experimentar a revelação da sabedoria ancestral encontrada na natureza, na medida da expansão da consciência. Em dimensões paralelas ocorre a descoberta de um novo paradigma cósmico capaz de revolucionar a estrutura do conhecimento científico contemporâneo e abrir o portal para o retorno da humanidade ao paraíso perdido. - comentário baseado no trabalho de um pesquisador do xamanismo amazônico da década de 70.
Posted by Hello

sexta-feira, outubro 01, 2004

O Prodígio da Macedônia

O Prodígio da Macedônia.
Resumo: trata-se de um pequeno texto biográfico sobre Alexandre o Grande, como prévia ao lançamento do filme que estará nos cinemas na segunda quinzena de novembro de 2004.
O prodígio da Macedônia.

“Alexander The Great
His name struck fear into the hearts of men
Alexander the Great
Became a legend mongst mortal men.”
Steve Harris


A Macedônia se localiza na região da península dos Balcãs, ou península balcânica, localidade onde se destaca a Grécia, entre outros países.

Antes ainda da ascenção dos romanos, após a decadência da democracia ateniense por volta dos século III a.C., a macedônia foi governada pelo rei Filipe.

O rei Filipe foi muito esperto ao aproveitar o desgaste da rivalidade entre Esparta e Atenas, isso sem contar com as constantes invasões persas, que foram enfraquecendo os reinos hegemônicos do mundo helênico. Neste sentido, aproveitando o pontapé inicial de Filipe, o príncipe da Macedônia, educado pelo maior professor que podia se contratar na época, Aristóteles, ao subir ao trono levou todos os projetos de construção da hegemonia macedônica de Filipe à realidade: tratava-se de Alexandre.

O pai de Alexandre morreu precocemente assassinado por um de seus chefes militares, e Alexandre tornou-se rei muito jovem, por volta dos vinte anos.

Dizem que era um rapaz extremamente belo e muito prendado nas várias artes que poderiam ser ensinadas a um jovem de elite de sua época. Também, pudera. Já foi dito quem era seu preceptor.

Ainda adolescente destacava-se na arte da equitação. Foi famoso o episódio em que surpreendeu cavaleiros mais experientes ao domar um cavalo extremamente rebelde e agressivo que viria a se tornar seu inseparável corcel: Bucéfalo. E o episódio contou com o descobrimento de uma técnica básica de adestramento equino percebida por Alexandre na ocasião: ele desconfiou que o nervosismo de Buce´falo vinha do medo que tinha da sua própria sombra; virando a cabeça de Bucéfalo em direção ao sol, pôde montá-lo sem maiores dificuldades. Ele tinha apenas treze anos, e havia nascido em 356 a.C.

Extremamente intelectualizado, desde os 13 anos estudou diversas matérias com seu admirável mestre: psicologia, astronomia, botânica, zoologia, letras, direito, retórica, lógica, medicina, política e, como não podia deixar de ser, a filosofia.
A influência de Aristóteles foi tanta que ocorria o seguinte: extremamente sanguinário, Alexandre tinha por hábito destruir TODAS as casas das cidades que seus exércitos invadiam, exceto... as casas dos filósofos.

Depois da conquista da Grécia, suas tropas marcharam sobre a Pérsia (Irã).

Foi famoso o episódio no qual cortou o “Nó Górdio” – havia um templo em Górdia, na Pérsia, e nele um nó, nó cego eu ninguém conseguia desfazer, e uma profecia de que quem desatasse o nó conquistaria a Pérsia. Ele simplesmente cortou o nó com sua espada.

Depois de conquistar a Pérsia marchou sobre o Egito, na época anexado ao que era o Império Persa.

A cultura sempre foi preocupação de Alexandre. Fundou uma cidade no Egito e deu-lhe seu nome: Alexandria, e fez dela o mais importante centro cultural da antiguidade, e financiou a construção de uma das mais importantes bibliotecas de toda a história, a qual chegou a oferecer meio milhão de obras, todas escritas em rolos de pergaminho manuscritas. Se não tivesse sido destruída séculos mais tarde pelos muçulmanos, com certeza seria hoje a maior biblioteca do mundo.

Alexandria tornou-se base de produção cultural do Império Macedônio; começou a atrair intelectuais de todo o mundo conhecido, já que ali não ocorria censura e o financiamento para pesquisas era abundante, isso sem contar com o ambiente de troca e interação cultural onde sábios do mundo todo se encontravam.

Neste centro construiu uma torre de trinta andares, inovadora para uma época em que comumente as construções não ultrapassavam dois andares. No alto desta torre foi instalado um farol, o famoso Farol de Alexandria, associando a simbologia da iluminação à cultura. A palavra farol tem sua origem aí, uma vez que esta torre foi construída na ilha de Faros.

Uma de suas últimas conquistas foi a Índia.

Casou-se com uma nobre persa de nome Roxana.

No seu retorno para a Macedônia, quando então Roxana estava grávida, parou na região da Babilônia. Tinha a intenção de tornar a cidade capital do seu império. Ali, acometido por uma estranha doença faleceu aos 33 anos de idade em 323 a.C., sem portanto conhecer seu único filho, Alexandre IV.
Após sua morte seu império foi dividido entre quatro partes, cada uma cabendo aos seus principais generais.

A política de difusão cultural promovida por Alexandre chamou-se de helenismo, a qual tinha como característica básica a unificação cultural de ocidente e oriente, e lançou as bases da cristianização do ocidente, uma vez que o cristianismo, alguns séculos mais tarde, encontrou terreno fértil em sua associação à cultura helênica, principalmente através do trabalho de Paulo que fundou comunidades cristãs nas principais cidades helênicas, herdeiras da cultura alexandrina, e também dirigiu obras codificadoras da ética cristã a estas comunidades, todas obviamente escritas em grego, cuja importância internacional, em função justamente do trabalho de Alexandre, corresponderia à atual importância do inglês: era o idioma mais utilizado nas comunicações de cunho internacional.

Alexandre o Grande recebeu uma importante e inusitada homenagem de uma das bandas de rock mais destacadas no pós-guerra: o Iron Maiden que em 1986 lançou a canção “Alexander The Great” em seu álbum “Somewhere in Time”, na qual toda a história dos maiores feitos de Alexandre é narrada. A música foi composta por Steve Harris, mas com certeza ocorreu aí influência de Bruce Dickinson, que além de vocalista é historiador. É mais uma das manifestações culturais do Iron Maiden, a “última das grandes bandas” da safra dos anos 70, cuja trajetória foi marcada por letras intelectualizadas e evocações de mitos e episódios históricos, como a denúncia do massacre de indígenas americanos pelos colonizadores europeus em “Run to the Hills”, o belo trabalho com a mitologia egípcia no álbum “Powerslave”, a descrição de um dos mais famosos mitos gregos em “Flight of The Ícarus” e outras.

E em muito breve, poderemos ver na telona a vida de Alexandre o Grande. Dando continuidade à atual tendência hollywoodyana de reviver a época dos grandes épicos dos anos 50 e 60, a qual começou com Gladiator, depois Troia e agora Alexander que estará nos cinemas brasileiros na segunda quinzena de novembro de 2004.

Douglas Gregorio::
Primavera de 2004.

quarta-feira, setembro 01, 2004

Olga - O Filme

OLGA BENÁRIO E LUÍS CARLOS PRESTES – ROMANCE E LUTA

DOUGLAS GREGORIO::
Setembro de 2004.

“Bem unidos, façamos
Desta luta, a final!
Numa terra sem amos – A Internacional!”

Não me lembro exatamente qual ano, só me recordo que era um dos últimos da década de 80. O local, a Praça da Sé, em São Paulo. Uma esolarada tarde do dia primeiro de maio, feriado.

No palanque, representantes de várias entidades discursando em comemoração à data dos trabalhadores.

De repente, um côro consonante de várias vozes como em em palavras de ordem: HOW! HOW! HOW! – não era o Papai Noel. O tom dos gritos eram muito mais agressivos que as gargalhadas do velhinho natalino. Eram gritos de guerra.

Eu olho para trás e vejo uma grande bandeira azul escuro, tendo em seu centro o círculo branco com o símbolo do sigma grego. Apesar de décadas de atraso, eram os neo-nazistas, então chamados de “Carecas” que faziam uma corrente e avançavam sobre a multidão.

Eu indignado com aquela bandeira integralista, gesticulava para os organizadores no palco exigindo providências. O que aqueles nazi-fascistas do Terceiro Mundo faziam ali, em nosso meio?!

A porradaria comeu solta. No final, a vitória: conseguimos expulsar as dezenas de Skin Heads da praça, e ainda por cima conseguimos tomar-lhes aquela bandeira horrível e atear fogo no símbolo de toda aquela palhaçada violenta.

Logo em seguida, eis que surge, ele... o velhinho... agora sim o velhinho, o “Cavaleiro da Esperança” – Luís Carlos Prestes em pessoa.

Na época eu era um adolescente secundarista. Tinha vivenciado bem de perto a campanha das Diretas Já e o renascimento da esquerda no Brasil.

No colégio eu estudava a história do Brasil contemporâneo, e uma das coisas as quais me intrigavam era justamente a figura daquele velhinho.

Eu me perguntava – como este homem pôde apoiar o retorno de Getúlio Vargas para seu segundo mandato, o homem que o aprisionou e enviou sua esposa, Olga Benário, para os campos de concentração nazistas?!

Em seguida, eis que um amigo de faculdade, Carlos Fagiolo, candidato a deputado estadual sobe ao palanque para discursar.

“Galinhas Verdes! “ – falava o Carlão, referindo-se ao caricáto apelido dos membros do movimento integralista.

Aproveitei a oportunidade, acenei: Carlão!... conclusão: tive a oportunidade de dirigir a pergunta acima a quem melhor poderia respondê-la: o próprio Prestes.

“Foi uma questão de circunstâncias, da busca de conquistas e objetivos maiores. Eu não podia colocar questões pessoais na frente disso” – a resposta.

E assim lá ia eu, todo contente para casa, por ter trocado umas breves palavras com um dos monstros sagrados da história do Brasil.

Mas desde aquela época, desde aquela idade, eu tinha uma questão em mente: os comunistas estavam equivocados – sempre tive a convicção disso. E realmente, minhas convicções vieram a se confirmar não muito mais tarde daquele dia, com a queda do Muro de Berlin em 1989.

O crime do rico a lei o cobre,
o estado esmaga o oprimido.
Não há direito para o pobre,
Ao rico tudo é permitido!
À opressão não mais sujeitos,
somos iguais todos os seres,
não mais deveres sem direitos,
não mais direitos sem deveres!

Esta estrofe do hino da Internacional Socialista numa única linha explica o porque de eu achar os comunistas equivocados. Quem puder entender, entenda... aliás, os comunistas tentaram excluir do hino esta mesma estrofe, porque afinal de contas, não foram eles que o compuseram.
Ai, ai, ai... será que alguém se recorda do quanto este hino rendeu críticas ao Lula em 1989?!

E assim me aproximei o máximo que pude de Olga.

OLGA
Direção de Jayme Monjardim, baseado no livro de Fernando de Morais.
Com Camila Morgado como Olga, e Caco Ciocler como Prestes.
Floriano Peixoto como Filinto Müller e Fernanda Montenegro como Leocádia Prestes.

Apesar das criticas e recríticas, o filme é excelente. Nem se sente passar as duas horas e vinte minutos de pura história e exemplos de determinação e disciplina.
Monjardim não poderia ter escolhido outra atriz para representar Olga senão Camila Morgado, a qual até na aparência física fica bem próxima de Olga.

Resumo:

Olga foi enviada ao Brasil pelo comitê central do partido comunista com a missão de proteger Prestes que se encontrava exilado em seu regresso. Prestes foi o maior representante do comunismo em terras brasileiras.

Passando-se por um casal de ricos portugueses em lua de mel, com escalas em alguns países antes de chegar ao Brasil, fato é que esta a lua de mel acabou virando real. Eles se apaixonaram.
Depois de uma série de intrigas, perseguições e traições, finalmente a polícia de Getúlio prende Prestes e Olga que são separados para nunca mais se verem, exceto por cartas.
Detalhe – Olga estava grávida quando foi presa.

Filinto Müller, chefe da polícia política durante a ditadura do Estado Novo, entrega Olga à Gestapo. Estrangeira, com facilidade foi deportada pelos fascistas que estavam no poder.

Filinto Müller fez carreira política chegando a senador. Com o fim do Estado Novo, foi convocado a dar explicações sobre os crimes que cometeu, entre eles a deportação de Olga, a qual jurava ele ter sido uma ordem de Getúlio.

Judia e comunista, foi encaminhada a uma prisão alemã – onde deu a luz a Anita Leocádia. Anita, em homeganem a Anita Garibaldi, e Leocádia, em homenagem à avó paterna, a qual através de intensa campanha internacional consegue uma verdadeira proeza: que os nazistas lhe concedessem a guarda da neta.

Hoje, Anita tem 67 anos e foi indenizada recentemente por dificuldades impostas pelo governo brasileiro por ter sido impedida de trabalhar e exilada durante a recente ditadura militar que veio com o golpe em 1964.
Separada da filha, anos mais tarde Olga soube que ela estava em companhia da avó, o que lhe aliviou a alma.

Como todos os demais judeus, Olga ficou sendo torturada, humilhada e submetida a trabalho escravo nos campos de concentração nazistas até morrer em 1942.Os historiadores não conseguem situar ao certo como e onde ela morreu, se fuzilada ou vítima da câmara de gás. Só se sabe que a morte dela ocorreu em 1942.

O filme realmente é muito triste, mas com certeza é mais uma excelente obra que vem confirmar o renascimento do cinema brasileiro e uma excelente opção para aqueles que apreciam bons filmes que possam somar aos seus conhecimentos e à sua base cultural.

terça-feira, agosto 10, 2004

Reflexões científicas sobre a bíblia

REFLEXÕES SOBRE CONSTATAÇÕES CIENTÍFICAS E PARACIENTÍFICAS ACERCA DE ALGUMAS PASSAGENS BÍBLICAS – 2ª edição.

Douglas Gregorio::
Resumo: trata-se de um longo texto que comenta do ponto de vista científico e paracientífico uma série de questões bíblicas, desmistificando uma série de lendas e equívocos, sem contudo atacar questões teológicas ou contestar dogmas de fé.

Introdução – a fé e a ciência

A religião e a ciência se parecem com personagens de canções sertanejas, pois ao longo da história sempre se portaram como um casal que vive entre tapas e beijos.

Em diversas ocasiões entraram em conflito para depois se reconciliarem.

Alguns episódios foram muito marcantes. Por exemplo, no Renascimento, época na qual muito se discutiu a respeito das concepções sobre o universo conhecido; todos sabemos que a versão oficial da Igreja na época era fundamentada nas teses aristotélicas que diziam que nosso planeta estaria estático no centro de um universo perfeito.

Os cientistas da pré-modernidade, ao contrário diziam: não o planeta Terra, mas o Sol estaria no centro de um sistema em movimento.

Por defender a teoria heliocêntrica cientistas foram mortos, torturados, presos e censurados pela Igreja. Giordano Bruno foi condenado à fogueira pela Santíssima Inquisição. Copérnico só deixou publicar o seu “A Revolução das Orbes Celestes” no dia de sua morte. Galileu, como bem se sabe, sofreu censura e prisão sendo obrigado a abjurar suas idéias para escapar da morte.

Centenas de anos depois o papa João Paulo II veio a público e apresentou o reconhecimento oficial de erro da Igreja no caso Galileu, gerando perplexidade na comunidade científica internacional pela postura cínica.

E assim, entre tapas e beijos, ciência e religião caminham lado a lado ao longo da história humana.

O texto que se segue trata de um tema muito delicado: o lado racional da existência da pessoa de Jesus.

O objetivo não é o de contestar dogmas ou denunciar atitudes de má fé da Igreja, desmascarar lendas e mitos ou coisa que o valha, mas sim o de chamar a atenção para alguns detalhes que geram grandes equívocos no entendimento daquele que talvez tenha sido o momento mais importante da história do ocidente: o curtíssimo período estimado em pouco mais de 30 anos no qual viveu um homem chamado Jesus na região do atual oriente médio, o qual a maioria das pessoas acredita ter sido a encarnação do Criador de todo o universo.

Seus ensinamentos morais e teológicos mudaram o curso da história do ocidente, exercendo até os dias de hoje, passados mais de dois mil anos, descomunal influência sobre a cultura de mais da metade da civilização. Um homem que dividiu a história. Tanto que o próprio calendário em vigência na maior parte do mundo tem como ponto zero o ano em que se estima que ele, Jesus, tenha nascido.

Mesmo as pessoas mais descrentes e avessas à religião são obrigadas a viver segundo leis civis totalmente baseadas na moral cristã.

Simples ou gigantescos, pobres ou suntuosos, templos cristãos de várias denominações se espalham pelo mundo. Além das igrejas tradicionais existe um sem número de doutrinas, seitas e organizações, e cada uma delas reivindica ser a legítima herdeira e representante da doutrina de Jesus. A influência política e social das organizações e instituições cristãs podem ser sentidas em todos os momentos da história, inclusive no presente.

O texto a seguir não pretende ser um estudo completo, muito menos tem um caráter acadêmico. Expõe somente algumas considerações científicas e religiosas coletadas ao longo de uma vida de estudos... até o momento.

ADVERTÊNCIA – aconselho que só prossiga a leitura caso você souber administrar em sua consciência de forma harmônica a abordagem de assuntos, a princípio religiosos, à luz da história e da arqueologia, ou seja, à luz da ciência.

Não é objetivo deste texto contestar valores da doutrina cristã ou judaica, muito menos dogmas de fé. Em nenhum momento minha intenção foi a de apresentar qualquer tipo de denúncia ou coisa parecida. Não se trata disso absolutamente.

Em resumo, este texto fala de um Jesus histórico, o Jesus humano que viveu em sociedade. Não fala sobre o Jesus dos altares, o Jesus teológico, o Jesus que vive na convicção daqueles que vivenciam a experiência da fé. O Jesus do qual fala este texto é o Jesus que nasceu, viveu e morreu na Palestina num determinado período da história.

O assunto é delicado, portanto, peço bastante bom senso e compreensão porque não quero provocar a discórdia, muito menos ofender cristãos ou judeus de quaisquer denominações.

Nota sobre a segunda edição – nada foi excluído do texto original da primeira edição deste estudo. Esta segunda edição, além de aprimorar a redação e editoração do texto, acrescenta e aprofunda algumas informações, mas reitero que nada foi excluído do texto original da primeira edição.

O AUTOR.
Outono de 2004

As fontes de informação – a bíblia e os escritos apócrifos.

Se fôssemos comentar questões sobre conflitos que ocorrem entre constatações racionais e relatos literários da bíblia de um modo geral, o que não é objetivo deste texto, surgiriam debates como, por exemplo, sobre o processo do êxodo dos judeus do Egito que aparece no antigo testamento, o qual estima-se ter ocorrido há mais de cinco mil e setecentos anos.

As famosas “pragas” que recaíram como maldições sobre o Egito, as quais teriam sido obra da ira do Todo Poderoso segundo o relato bíblico, podem ser analisadas sob outro ponto de vista que não seja o religioso.

Ainda hoje há épocas do ano em que as águas se tornam barrentas assumindo cor avermelhada como sangue, obviamente épocas de chuvas. Considerando as latitudes equatoriais do Egito, haveria muito granizo e chuvas ácidas que arrasariam plantações como se elas tivessem sido submetidas a uma chuva de fogo; a umidade excessiva faria com que moscas se multiplicassem, espalhando doenças de pele que provocariam feridas, ou ainda outros tipos de doenças contagiosas das quais os recém-nascidos e lactentes seriam vítimas fatais. As rãs também se multiplicariam, dada a abundância de alimento que teriam.

Nenhum destes fenômenos seria fora do comum.

Ainda sobre este assunto ocorrem épocas do ano nas quais as marés que ocorrem na delta do Nilo fazem com que se torne possível atravessar a pé porções de terra que antes eram o fundo do Mar Vermelho.

Assim, podemos perceber que muitas vezes as tradições religiosas podem lançar mão de fenômenos naturais floreando-os com artifícios literários.

No novo testamento, bem como nas tradições religiosas pós-bíblicas isto não deixa de acontecer.

Vejam o conflito que existe nas informações que Lucas, em seu evangelho, nos dá a respeito de fatos históricos narrados. Fala Lucas que o nascimento de Jesus deu-se durante o reinado de Herodes, quando então Quirino seria o govenador romano da Síria, época na qual o imperador Augusto havia ordenado um recenseamento[1].

Pois bem, os registros históricos dizem o seguinte: quando Quirino governou a Síria, Herodes já havia morrido, e não existe registro ou sequer alusão em qualquer outra fonte possível e imaginável que o Imperador Augusto tenha convocado um recenseamento.

A bíblia, no seu novo testamento, conta com quatro evangelhos tidos como “oficiais”. Porém, é de conhecimento geral que existem diversos outros escritos históricos, muitos dos quais escritos por personalidades bíblicas importantes como os apóstolos Pedro, Tiago, Bartolomeu e vários outros, falando sobre os ensinamentos, a vida e os feitos de Jesus, ou mesmo sobre épocas bíblicas anteriores ou posteriores a Jesus.

Tais escritos, os ditos livros “apócrifos” indiscutivelmente são documentos históricos dos tempos bíblicos, e sob uma série de alegações ao longo da história foram apartados da versão “oficial” que temos hoje da bíblia. No entender da ciência, os apócrifos não podem, em hipótese alguma, serem ignorados.

Um dos motivos que a Igreja alega para excluí-los do cânon bíblico é o de que foram escritos em épocas muito distantes da passagem de Jesus pela terra, mais precisamente a partir do segundo século da Era Cristã, o que lhes torna suspeitos de apresentarem informações imprecisas. Porém, fato é que, mesmo os quatro evangelhos oficiais não possuem confirmações cabais da data nas quais foram escritos.

Além disso, os apócrifos possuem informações que entram em choque com a imagem que se tem dos fatos e personagens bíblicos em geral, inclusive de Jesus, que poderiam gerar sérios conflitos.

Tomemos como exemplo o apócrifo evangelho árabe da infância de Jesus, adotado pelos cristãos coptas do Egito. Ele possui passagens que podem ser consideradas, no mínimo, polêmicas.

Ele narra que numa ocasião Jesus menino brincava com seus amiguinhos moldando bichos de barro; com seus poderes sobrenaturais, miraculosamente fazia com que os bichinhos ganhassem vida e se movessem. Estava com seus amiguinhos nesta brincadeira miraculosa quando se desentendeu com um deles, e o matou com uma simples ordem. Na seqüência, este evangelho narra outra passagem na qual Jesus criança, irritado com um golpe acidental que recebeu de uma criança que corria próximo a ele, também a mata com uma simples ordem. Há outra passagem ainda na qual Jesus é encaminhado à escola onde um professor repreende suas travessuras infantis. Desgostoso com a reprimenda que recebera, o menino Jesus também mata o professor de forma sobrenatural. Tais fatos fazem com que seus pais decidam por afastá-lo do convívio comunitário até que amadureça e aprenda a controlar seus poderes, uma vez que ele matava qualquer pessoa diante da mínima contrariedade.

Se Jesus realmente cometeu tais atos não há como provar do ponto de vista racional e científico, e também não podemos dizer que os evangelhos, sejam os apócrifos ou os “oficiais” constituam fontes idôneas e precisas da narração biográfica de Jesus porque, afinal de contas, foram escritos por partidários, seguidores e discípulos, não podendo portanto ser considerados fontes neutras de informações históricas.

Por exemplo, existe quase que uma unânimidade entre os atuais pesquisadores ao afirmarem ser pouco provável que Jesus tenha nascido em Belém. Mais provável que Jesus tenha nascido na cidade de Nazaré. A própria Igreja, que tradicionalmente reage de forma veemente a contestações do gênero, assume uma surpreendente postura semi-aberta de defesa desta tese. Como ficaria então a devoção que existe à Igreja da Natividade em Belém, construída sobre o local onde se acredita Jesus ter nascido, local este assinalado por uma estrela de prata afixada no chão?!

A data é outra controvérsia entre os historiadores, incluindo aí historiadores que também são padres católicos. O padre John Meier fala que Jesus teria nascido no ano 7 ou 6 a.C., dois anos antes da morte de Herodes em 4 a.C, e precisa a morte de Jesus em 7 de abril do ano 30 [2].

Continuando nesta linha de raciocínio, a visita dos reis magos e o posterior massacre dos meninos recém-nascidos seriam apenas lendas carregadas de simbolismo, tal como aparecem no segundo capítulo do evangelho de Mateus: os três reis simbolizam numericamente a plenitude; o fato de representarem nações diferentes simboliza a universalidade do advento do Cristo para a humanidade, e o fato de serem reis simboliza a superioridade da realeza do submissão de todo e qualquer poder temporal à realeza daquele que seria o Filho de Deus. Os três presentes seriam o ouro, símbolo da realeza, o incenso, símbolo da divindade e a mirra, símbolo da amargura que remete à dor, portanto, a condição humana e a missão de Jesus.

Com certeza, Mateus quis muito mais transmitir idéias teológicas através do simbolismo utilizado do que descrever os fatos e circunstâncias que envolveram o nascimento de Jesus tal como ele tenha de fato ocorrido.

No apócrifo evangelho Armênio da infância de Jesus ocorrem descrições de um faustoso cortejo dos reis magos em visita a Herodes a fim de tomar satisfações sobre o nascimento do messias, apresentando-lhe uma carta que herdaram do próprio Seth, que teria sido o terceiro filho de Adão, do qual descenderia o messias, no caso, Jesus. Cabe a nós observar que o livro do Gênese que nos fala sobre Seth data de 3000 anos anteriores ao nascimento de Jesus. Será que uma carta seria conservada por tanto tempo assim?!

Segundo o padre Jaldemir Vitório, o texto que alude ao nascimento de Jesus no evangelho de Mateus lança mão do gênero literário “midrash”, que utiliza a vida de grandes personagens históricos para narrar a vida de outro personagem histórico posterior. Assim, o nascimento em Belém seria uma associação ao rei Davi do antigo testamento[3].

Além da questão da natividade, não há sinais de que Jesus teria exercido a profissão de carpinteiro. Mais provável que tenha sido pescador ou agricultor, pelo que podemos deduzir com base nas próprias informações obtidas nos evangelhos “oficiais” e também das condições sócio-econômicas da época. Ao observar as parábolas evangélicas atribuídas a Jesus e as descrições de situações cotidianas por ele vividas, encontraremos constantes alusões à agricultura: plantações de videiras, trigo, mostarda, oliveiras, figueiras, flores do campo e outras, bem como barcos, águas, redes, peixes, inclusive há várias passagens nas quais Jesus aparece dentro das embarcações.

Se Jesus utilizava elementos do imaginário popular para compor suas pregações de modo que as pessoas mais simples pudessem entender o teor de seus ensinamentos, por que em nenhum momento, nem em escritos apócrifos, nem em escritos oficiais, encontrou-se uma narração aludindo à madeira trabalhada, confecção de móveis, oficinas e ferramentas de carpintaria?! Alguns estudiosos afirmam que, na época, o termo “carpinteiro” era usado para se referir a trabalhadores humildes, algo como o popular termo “peão” que se usa hoje para trabalhadores de baixa qualificação.

Outro sinal de contradição que aparece nos evangelhos está na genealogia de Jesus tal como ela é descrita por Mateus e como é descrita por Lucas. Ambos os evangelistas apresentam longas listas de antepassados, porém, só existem apenas dois nomes em comum entre ambas.

É no mínimo um fato que merece uma checagem mais precisa a transição das tradições orais[4] para a tradição escrita, pois o tempo e as influências envolvidas submetem a essência das mensagens à diversas influências que podem alterar o seu teor e desviar os fatos da veracidade.

Os ditos, feitos, doutrina e ensinamentos de Jesus eram transmitidos por tradição oral até aproximadamente 70 anos após a data estimada de seu nascimento, quando então Marcos escreveu o seu evangelho, considerado o primeiro a ser escrito.[5] Por isso mesmo é que muitas narrações dos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) começam com as frases: “naquele tempo”, “naqueles dias”, “naquela época” e outras similares.

Por estes exemplos podemos perceber o quanto existem de desencontros e contradições dentro da própria bíblia, que antes de mais nada trata-se de um documento histórico composto de escritos reunidos, escritos estes originados de épocas e lugares muitas vezes muitos distantes, séculos, milênios até. Foram transmitidos a nós de diversas formas, sujeitos a alterações e mesmo a adulterações ao longo dos séculos; traduções sobre traduções, versões as mais diversas sujeitas a fatores mil que podem influenciar, tais como diferenças culturais de tempo e lugar, perseguições e interpretações políticas e religiosas, e vários outros.

Convenhamos que, do ponto de vista racional, a probabilidade de que os escritos bíblicos tenham chegado a nós alterados de alguma forma é muito maior que a probabilidade de serem hoje, tal como são, fiéis à sua origem.


Leitura científica e leitura religiosa da bíblia.

Não se falará aqui sobre a questão da interpretação da bíblia, pois como já firmamos na introdução, o objetivo deste texto não é o de contestar dogmas teológicos. Trata-se de depurar os fatos históricos documentados pelos textos bíblicos, separando as conclusões que temos ao longo da história sobre seu real significado, das tradições religiosas, literárias e populares criadas com fins pedagógicos ou publicitários.

O que estamos querendo dizer é que, para se ter uma noção precisa do que ocorreu na época de um fato bíblico, precisamos abordar este texto de forma científica, à luz da arqueologia, sociologia, política, economia e outras ciências, comparando os fatos paralelos a este fato, as documentações paralelas aos escritos bíblicos, sem temer estar contrariando alguma tradição teológica divulgada a título de compreensão popular e transmissão facilitada da mensagem.

Vamos tomar por exemplo a crucificação de Jesus, como veremos no ítem a seguir.

Jesus foi um condenado por causas essencialmente políticas.

A tortura da cruz era especialmente reservada para os inimigos de Roma, ou seja, para os opositores políticos do Império Romano. Logo, Jesus e os ditos “ladrões” crucificados ao seu lado foram condenados por motivos que merecem uma análise mais apurada do que considerar somente aquilo que a bíblia nos diz.

A inscrição que era colocada sobre a cruz tinha por função explicar o motivo da condenação. E por que esta inscrição foi escrita em três idiomas: grego, latim e hebraico? Simples: grego porque era um idioma internacional, equivalente ao que o inglês é para nós hoje. Hebraico porque esta era a língua local e latim porque era a língua oficial do Império Romano[6].

“Jesus de Nazaré, o rei dos judeus”, este foi o motivo da condenação de Jesus. Pode parecer que isto não seja motivo, aliás, nem lógica tem esta relação. Vamos então esclarecer algumas coisas: proclamar-se rei era o mesmo que desafiar diretamente o poder do Império Romano, já que diante de César não poderia haver outros reis. E Jesus proclamou-se rei no interrogatório ao qual foi submetido[7]. Mesmo ressalvando que seu reino não era deste mundo, conceitualmente Jesus proclamou-se rei, e esta foi a causa central da sua condenação ao suplício na cruz.

No ato da crucificação, ocorreu uma discussão entre as autoridades judaicas e Pilatos quanto à inscrição na cruz. Os judeus queriam que estivesse escrito: “Eu sou o rei dos judeus”, mas os romanos escreveram “O rei dos Judeus”, ao que as autoridades romanas responderam: “O que escrevi, escrevi”.[8] O que significa isto?

Se nós vivessemos naquela época, e passassemos diante de uma pessoa crucificada, moribunda, e vissemos a inscrição “Fulano, o rei do povo x”, o que iríamos pensar? Podíamos até sentir pena de ver uma pessoa passando por tanta dor, mas não há como negar que seria no mínimo irônico ver o “rei” naquela situação; e que povo fraco este que permitiu que seu rei fosse submetido a tudo aquilo...

Assim, dizer que Jesus era “o rei dos judeus” era zombar de todos os judeus, pois, ao olhar para aquela cena, quem associaria aquela imagem à imagem de um rei? E vale lembrar que um rei representa toda uma nação. Em outras palavras, foi uma atitude irônica dos romanos para com Jesus e os judeus em geral. Por isso os judeus insistiram para que os romanos escrevessem “eu sou o rei dos judeus” porque, ao colocar a frase na voz ativa, toda a carga irônica excluiria do seu escopo os judeus em geral, recaindo somente sobre a pessoa de Jesus ao permitir a seguinte réplica: “nenhum judeu reconhece um rei neste homem, quem está dizendo isso é ele”.

A recusa dos romanos em alterar a frase fazia parte de sua arrogante política de humilhação dos povos dominados.

Até aqui nada de contraditório, mas, Jesus foi um condenado político, e a causa imediata da condenação de Jesus ainda não está clara.

Proclamar-se rei era um crime político perante os romanos, mas este ato não se resumiu a uma resposta dada num interrogatório.

Imaginemos se um simples mendigo lançasse insultos em praça pública contra César. O máximo que aconteceria seria simplesmente ser surrado pelos soldados romanos até se calar, se é que os soldados se preocupariam com isso. Por que então Jesus era tão ameaçador a ponto de merecer a condenação à morte?

Alguns podem contestar a tese de que a causa da condenação de Jesus teria sido política em função das passagens onde os fariseus, juntamente com partidários do rei Herodes, buscavam algo para incriminá-lo publicamente. Para tanto, usaram-se do questionamento sobre o imposto que era pago pelos judeus aos dominadores romanos; a resposta foi muito mais astuta que a pergunta: “A César o que é de César e a Deus o que é de Deus” [9]. Porém, podemos perceber o quanto estas passagens reforçam por sí mesmas a tese da condenação política.

Ciente da conotação política de seu ministério, a resposta de Jesus nada mais foi que uma resposta política. Como líder de destaque em seu tempo, Jesus não seria ingênuo ao ponto de cair numa armadilha retórica cujos objetivos eram o de deixá-lo sem saída: se a resposta fosse positiva, Jesus estaria publicamente desmoralizado; se a resposta fosse negativa como seus adversários esperavam, estaria de forma pública e notória configurada uma causa de prisão: incitação popular à insubordinação.

Entregar-se à prisão, ainda de forma tão tola, obviamente não estava nos planos de Jesus naquele momento. Por isso sua saída retórica demonstrou a superioridade perceptível ao ser duplamente positiva: paguemos então nossos impostos, se este é o preço a ser pago para que possamos continuar servindo ao nosso Deus – o fim compensa o meio.

A bíblia fala que Jesus invadiu o templo de Jerusalém armado com um chicote e revirou as mesas dos cambistas.

Foi esta a causa imediata da prisão de Jesus.

Era no templo de Jerusalém que ocorria a troca da moeda local pela moeda romana, ou seja, o câmbio. Era um local de negócios. Mais que simples pombos e outras quinquilharias, o templo na verdade funcionava como centro financeiro daquela região.

Não é difícil supor que o templo equivalia às nossas atuais bolsas de valores. Com certeza era no templo que se reuniam os homens de negócios para realizar suas transações.

Um lugar tão importante assim, obviamente, seria muito movimentado e policiado. Será que um só homem armado com um chicote conseguiria entrar e causar todo um tumulto? Não seria ele rapidamente contido e expulso dali pelos vigias? Mas não. Foi dito que ele revirou mesas e expulsou os “vendilhões”.

Obviamente que Jesus não fez tudo isso sozinho. Não é difícil entender que Jesus só conseguiria ter invadido o templo acompanhado de uma multidão revoltosa enfurecida; afinal de contas, Jesus era um pregador seguido por multidões. Tratava-se portanto de uma revolta popular com forte conotação política, o que tornava Jesus um elemento ameaçador à ordem política e social ditada pelos dominadores romanos, os quais contavam com o apoio da classe dominante local.

Após sua prisão, Jesus foi submetido a julgamento popular que deu ao povo reunido em praça pública o poder de escolha entre Barrabás e Jesus. Ambos eram acusados do mesmo crime: sublevar a população contra o poderio romano.

Barrabás era um zelota. Os zelotas constituiam um movimento político de cunho guerrilheiro, cujo objetivo era o de combater a dominação romana na palestina. Barrabás nunca foi um ladrão como a história o acusou, bem como os outros dois crucificados ao lado de Jesus também eram zelotas, e não ladrões. Ladrões nunca eram crucificados, somente condenados por motivos políticos eram crucificados.

As imagens da crucificação que se fizeram ao longo da história contém diversos equívocos de pequena importância, mas que podem intrigar os leigos.

Nas imagens tradicionais, Jesus aparece com cravos fincados nas palmas das mãos e nos pés, um sobre o outro, atravessados pelo cravo a partir do “peito” do pé, sobre uma cunha colocada debaixo dos pés como escora.

Existiam diversas técnicas da tortura da crucificação. Famosa foi, por exemplo, a crucificação de André, que se deu em X, ou a de Pedro, que se deu de cabeça para baixo, segundo a história, por pedido do apóstolo que alegava não ter a dignidade para morrer da mesma forma que o seu Senhor.

A técnica utilizada para crucificar Jesus foi a crucificação latina, e funcionava da seguinte forma: primeiro, o condenado era submetido a horas de torturas preliminares que o deixavam exausto. Tais torturas eram basicamente o açoitamento com chicote latino, composto de três tiras de couro com duas bolas de chumbo nas pontas cada. A pessoa era algemada com os braços acima da cabeça, presa a um poste, e dois carrascos aplicavam golpes, um de cada lado, intercalando de forma intermitente os golpes.

Como já sabemos, o condenado era obrigado a carregar a cruz até o local onde seria crucificado. Os locais de crucificação eram pré-determinados pelas autoridades romanas, e nestes locais já existiam postes adequados à crucificação, assim, o que era carregado pelo condenado não seria o conjunto da cruz, composto de poste vertical e trave horizontal, mas somente esta última peça.

Os cravos eram fincados não nas palmas das mãos, pois neste local eles não sutentariam o peso do corpo. Na verdade, eles eram fincados pouco abaixo dos pulsos, na extremidade do braço, onde se encontram em bifurcação os dois longos ossos que compõe a parte anterior do braço, garantindo assim a sustentação, funcionando como argola.

Da cintura para baixo, o crucificado era colocado na posição de perfil (de lado), colocando-se uma tabuinha sobre seus tornozelos nas quais era fincado um longo cravo que atravessava os pés logo acima dos tornozelos, já junção com as pernas, que eram ligeiramente dobradas obrigando o crucificado a se apoiar sobre o cravo, potencializando suas dores.

O objetivo desta técnica de tortura era a de causar uma morte lenta e muito dolorosa, já que a causa da morte seria a asfixia. Exaurido de suas forças e obrigado a sustentar o peso de seu corpo sobre cravos que atravessavam sua carne e seus ossos, o organismo reagia com dificuldades de circulação do sangue, considerando que no processo de açoitamento já teria perdido sangue, e as feridas dos cravos provocariam uma lenta hemorragia, o que provocava fortes formigamentos pelo corpo todo.

Na crucificação latina as canelas do condenado eram fraturadas no ato da fixação na cruz para tornar o apoio ainda mais dolorido.

Todo o processo culminava com uma lenta e progressiva diminuição da capacidade respiratória até provocar horas mais tarde o colapso dos pulmões, não sem antes ter sofrido fortes dores abdominais pelo comprometimento do diafragma.

Dependendo da situação do acusado, por piedade os carrascos aplicavam golpes de lança ou espada para acelerar o processo; Jesus teve seu corpo atravessado por uma lança.[10]

Para se comprovar que a cruz era reservada exclusivamente para os inimigos políticos de Roma que contra ela ousavam insuflar as massas, e não para criminosos comuns, podemos citar o exemplo do líder escravo Espártaco e seus milicianos, escravos revoltosos. Mulheres e crianças das milícias de Espártaco foram escravizadas e os homens sobreviventes da batalha na qual a milícia foi subjugada, todos crucificados, inclusive Espártaco.

A aparência de Jesus

O filme “Jesus de Nazaré”, lançado em 1977 pelo diretor Franco Zefirelli fez grande sucesso. Nele, o ator que representa Jesus, Robert Powell, era um homem tão belo que provocava suspiros nas platéias femininas. Tinha cabelos loiros e encaracolados, alva pele indo-européia, brilhantes olhos profundos de um azul bem vivo.

Esta imagem foi utilizada por muitos artistas ao longo da história para retratar a pessoa de Jesus.

A bíblia não faz menção à aparência física da pessoa de Jesus.

Fato é que, na Palestina daqueles tempos, os judeus apresentavam características muito próximas à dos atuais árabes: pele numa tonalidade escura intermediária entre a pele ariana e a pele negróide, olhos entre o castanho escuro e o preto como os cabelos, de aspecto também intermediário entre o ariano encaracolado e o negróide.


Seriam os ensinamentos e práticas de Jesus originais e autóctones?

Sobre a questão da origem da bagagem cultural demonstrada por Jesus, as atenções recaem sobre o misterioso período de pobre documentação histórica que remonta a infância e a juventude de Jesus, já que se estima que seu trabalho começou a obter notoriedade pública a partir dos seus últimos três anos de vida.

Muitas suposições e teorias já se desenvolveram sobrte esta questão. De uma forma generalizada a hipótese mais comum é a de que de alguma forma Jesus estaria se dedicando a estudos.

Isto entraria em contradição com o status que envolvia a pessoa de Jesus, o “filho do carpinteiro”, cujo significado já foi explicado anteriormente. Afinal de contas, sabemos que o acesso das classes populares à alfabetização é algo que surgiu recentemente na história da humanidade, a partir da Revolução Francesa no século XVIII, e mais acentuadamente a partir do século XX, pois mesmo na atualidade encontra-se significativas parcelas das classes menos favorecidas analfabetizadas em países mais pobres.

Até então, a alfabetização era um privilégio das elites. Como Jesus obteve seus conhecimentos ainda permancece um mistério.

Existe uma hipótese de que Jesus teria sido educado no Egito, sob a responsabilidade de sociedades iniciáticas. Pode até ser possível, já que Mateus nos fala que a família de Jesus, logo após seu nascimento, foi para o Egito fugindo da perseguição de Herodes [11], porém, o evangelista é taxativo com relação ao curto período de permanência no Egito e o retorno à Galiléia quando Jesus ainda era um bebê, nada falando sobre o envolvimento de Jesus em escolas iniciáticas egípcias. Assim, estamos diante de uma possibilidade extremamente hipotética.

Outra hipótese, e esta sim muito mais provável, seria a de que Jesus teria sido educado pelos Essênios. Segundo estudos arqueológicos sobre os Manuscritos do Mar Morto, não só sobre o teor dos textos, mas também as circunstâncias que os originaram, sabe-se que os Essênios compunham uma sociedade iniciática estabelecida na região onde teria vivido Jesus.

Judeus por convicção radical, os Essênios seguiam uma rígida disciplina moral e alimentar. Celibatários, dedicavam-se com afinco ao estudo das antigas escrituras, em especial da bíblia.

De vida simples, os Essênios adotavam um estilo de vida isolado em comunidades semelhantes aos monastérios nas desérticas e afastadas regiões de Qmran, ao sul de Israel.

Os Manuscritos do Mar Morto e as circunstâncias que os originaram refletem indubitavelmente todo o ambiente ideológico e histórico no qual viveu Jesus. Tratam-se de uma biblioteca escrita em papiros, encontradas em cavernas da já citada região de Qmran em 1947, considerada uma das mais estupendas descobertas arqueológicas do século XX.

As cavernas nas quais estavam escondidos em jarras situam-se próximas a um sítio arqueológico no qual se constatou a existência de um antigo monastério Essênio destruído por volta do ano 68 da Era Cristã, descoberto pelo padre Roland de Vaux, arqueólogo, no início dos anos 50. Numa região de revoltas políticas e de constantes invasões e guerras, nada mais sensato que preservar uma biblioteca de uma provável destruição escondendo-a num local onde dificilmente seria descoberta por invasores.

Os Manuscritos do Mar Morto reunem documentos datados entre 67 a.C. e 200 d. C., portanto, a comunidade esteve ativa na época contemporânea de Jesus.

Não há nos Manuscritos do Mar Morto nenhuma alusão à pessoa de Jesus, porém, ocorrem uma série de coincidências que de certa forma ligam Jesus aos Essênios.

Os Essênios organizavam-se em grupos de doze discípulos e um líder. Realizavam o ritual eucarístico do pão e vinho. Realizavam o ritual do batismo com água [12], praticavam o celibato, dedicavam-se à cura das doenças, acreditavam na não-violência e pregavam a divisão igualitária dos bens entre os membros da comunidade.

O retiro espiritual realizado por Jesus no deserto dedicando-se ao jejum e meditação por quarenta dias com o objetivo de colocar-se à prova seria uma prática Essênia [13].

A túnica de Jesus era tramada numa única peça, sem costuras [14]. Tramar a túnica numa única peça sem costuras era um costume Essênio[15].

Até o momento não se estabeleceu nenhuma prova cabal de que Jesus teria tido ligação com os Essênios, porém, como podemos perceber, as coincidências são enormes, detalhistas até.

Há uma certa controvérsia sobre a seguinte questão: teria Jesus sido influenciado pelos Essênios ou o contrário? Pois bem, os Essênios entraram em processo de decadência na época posterior à morte de Jesus, e o cristianismo começou a se desenvolver por volta de 70 d.C., e o desaparecimento dos Essênios coincide com esta data. Assim, mais provável que Jesus tenha sido influenciado pelos Essênios que o contrário.


Teria a obra de Jesus terminado na cruz?

Desde o final do século XIX pesquisadores de diversas nacionalidades contestam o desaparecimento de Jesus após sua morte na cruz. Mas, como isso seria possível?

Segundo a tradição evangélica, o corpo de Jesus teria desaparecido da sepultura, ressuscitado. Após algumas aparições e a transmissão de mais alguns ensinamentos, ele teria ascendido aos céus.

Mas há pesquisadores que afirmam que as coisas foram além disso.

Nicolas Notovitch, russo, afirmou que em 1894 teria descoberto no Tibete um manuscrito que estava em guarda de um mosteiro budista na cidade de Himis, no qual haviam registros da vida de um homem santo naquele mosteiro chamado Issa, que seria Jesus.

Nos trinta anos posteriores desenrolou-se uma polêmica sobre o tal manuscrito. Pesquisadores chegaram a acusar Notovitch de fraude, entre eles o hindu Abhedananda, pesquisador, e seu amigo inglês Max Muller, especialista em línguas orientais.

Tanto Abhedananda como Muller chegaram a afirmar categoricamente que a história de Issa não passava de uma grande fraude, anos antes de 1929, quando numa atitude paradoxal lideraram um projeto de pesquisa que culminou na publicação da tradução e comentário do tal manuscrito, corroborando a crença na veracidade da história de Issa.

Os lamas do mosteiro de Himis anos antes negaram a visita de Notovitch e a existência do manuscrito. Porém, naquele ano de 1929, surgiu uma forte corrente de lamas de Himis que contradiziam as declarações dos colegas, afirmando que Notovitch havia sim visitado o mosteiro, e o manuscrito, autêntico.

No mesmo ano de 1929, outro pesquisador russo, Nicolas Roerich, estava realizando trabalhos na região de Ladakh e Caxemira, onde constatou registros da passagem no local de um santo homem chamado Issa, grande mestre de virtude e profeta.

Segundo os registros pesquisados por Roerich, Issa teria vindo de uma terra distante e recebido profunda instrução em mosteiros e outros centros religiosos e culturais da Índia a respeito dos escritos védicos e correntes diversas do hinduísmo. Consta ainda que, após entrar em conflito com as classes sacerdotais por se opor ao sistema de castas, alegando que o mesmo não era o desígnio de Deus para a humanidade, Issa teria sido expulso da Índia, e dirigiu-se ao Nepal.

No Nepal, Issa teria por muitos anos se dedicado ao estudo do budismo, e depois continuou suas viagens, sempre denunciando as hipocrisias das classes sacerdotais, defendendo a redenção das classes menos favorecidas e minorias sociais.

Por tais práticas, Issa também sofreu perseguições na Pérsia de onde foi expulso, tendo retornado então à Palestina, onde reafirmou sua origem israelita.

Ainda hoje, na cidade de Srinagar, na região de Anzimar, na Caxemira, pode-se visitar uma antiga tumba de um profeta chamado Yuz Assaf. Esta sepultura está orientada de leste para oeste, tal como perscreve a tradição judaica. Sobre esta tumba se encontra uma lápide decorada com a imagem de Yuz Assaf, e o mesmo apresenta cicatrizes nas mãos e nos pés.

Yuz Assaf teria morrido por volta dos oitenta anos, e teria se casado, gerando filhos.
Até hoje, os descendentes de Yuz Assaf reivindicam o reconhecimento da descendência direta de Jesus.


Epílogo

Enfim, encerramos esta pequena reflexão de cunho científico sobre a história e a arqueologia de fatos e questões que se relacionam a Jesus, a bíblia e o cristianismo.

Eu espero que este trabalho colabore com a sua reflexão, meu caro leitor, e enriqueça o seus conhecimentos acerca de um dos principais pilares da cultura ocidental: as origens judaico-cristãs.

Para os que não têm fé, que este estudo não seja uma arma de ataque contra os crentes, já que não foi criado com este objetivo. Aos que têm fé, que este estudo sirva para que reflitam sobre suas convicções, agora enriquecidos com maiores conhecimentos sobre aquilo que tanto respeitam.

Longe de ser um tratado completo, este estudo ignora a maioria das milhares de versões sobre as mais diversas passagens bíblicas. É só um pouquinho daquilo que eu conheço e quero, sem nenhuma intenção lucrativa, dividir com você, leitor amigo.

Douglas Gregorio Miguel ::
outono de 2004.

Bibliografia:

- École Biblique de Jerusalém / A Bíblia de Jerusalem / Edições Paulinas, São Paulo, 1985. (antigo e novo testamento).

- Marques, Oscar C. / O Mistério da Rosa Mística / Editora Tecnoprint, Rio de Janeiro, 1991 (em especial o capítulo 5: “A Fraternidade Essênia, ramo esotérico da Fraternidade Branca”).

- Tricca, Maria H. O. (org.) / Apócrifos, os Proscritos da Bíblia / Mercuryo, São Paulo, 1989.

- Tricca, Maria H. O. (org.) / Apócrifos II, os Proscritos da Bíblia / Mercuryo, São Paulo, 1992.

- Vermes, Geza (org.) / Os Manuscritos do Mar Morto / Mercuryo, São Paulo, 1995.

- Wilson, Edmund / Os Manuscritos do Mar Morto / Cia. Das Letras, São Paulo, 1994.

- Putin, P. e Schoereder, G. / Os Anos Misteriosos de Jesus / in Revista Sexto Sentido nº 04 / pp. 32 – 35 / Mythos, São Paulo, 1994.

- Cavalcante, R. / Quem foi Jesus? / in Revista Super Interessante nº 183 / pp. 41 – 49 / Abril, São Paulo, 2002.

- Toledo, R. P. de / O Jesus da História / in Revista Veja de 23 de dezembro de 1992 / pp. 48 – 59 / São Paulo, Abril, 1992.
[1] - Lc 1, 5; 2, 1-2.
[2] - Meier, John / Rethinking the Historical Jesus / Doubleday, New York, 1991.
[3] - Declaração dada à revista Super Interessante nº 183, publicada em dezembro de 2002.

[4] - Tradições orais: conhecimento não documentado, não escrito, transmitido de boca em boca.
[5] - Não confundir a ordem com a qual se apresentam os livros bíblicos com a ordem cronológica na qual foram escritos; na bíblia, o primeiro evangelho “oficial” que aparece é o de Mateus, mas cronologicamente, o primeiro evangelho a ser escrito foi o de Marcos.
[6] - A título de curiosidade, a famosa sigla INRI que temos divulgada hoje em dia é a abreviatura de parte do que estava escrito no alto da cruz, especificamente a frase em latim, a saber: IESUS NAZARENUS REX IUDEORUM – Jesus Nazareno Rei dos Judeus.
[7] - Jo 18, 37.
[8] - Jo 19, 21-22.
[9] - Mt 22, 15-22; Mc 12, 13-17; Lc 20, 20-26.
[10] - Para maiores detalhes sobre as técnicas de crucificação confira: Keller, Werner / E a Bíblia Tinha Razão / Melhoramentos, São Paulo, 2000.
[11] - Mt, 2 13 – 23.
[12] - É quase que certo que João Batista teria sido um Essênio, pois a descrição de sua pessoa e de seus hábitos como temos no evangelho de Mateus 3, 4 é extremamente semelhante ao modo de vida dos Essênios.
[13] - Mt. 4, 1-2.
[14] - Jo 19, 23.
[15] - Marques, Oscar C. / O Mistério da Rosa Mística/ Tecnoprint – Rio de Janeiro, 1991 – p. 80.

sábado, julho 31, 2004

A Vitória Grega - Olimpíadas 2004

A Vitória Grega
Resumo: um comentário sobre as olimpíadas de Atenas - o significado da simbologia da cerimônia de abertura e as implicações políticas e culturais previstas do evento.
Quando os gregos criaram os jogos olímpicos com toda certeza nem desconfiavam dos desdobramentos que este evento teria vários séculos depois.

A Olímpiada de Moscou em 1980 foi um marco na história dos jogos olímpicos modernos, na medida em que a cerimônia de abertura representava a efervecência que antecipava os acontecimentos do final da década: a abertura da então União Soviética para o mundo, o advento da mundialização e as radicais transformações na cultura e nos costumes que viriam a partir de então.

Os espanhóis e os coreanos tiveram um êxito muito grande no que diz respeito à grandiosidade exigida e na interrelação sócio-econômica e histórica que decorreu do evento: o surgimento da União Européia e o ápice dos tigres Asiáticos.

Como foi amplamente comentado na imprensa, os gregos estão apostando tudo nesta olimpíada no sentido de provocar a “decolagem” da Grécia no cenário internacional, em especial no que diz respeito ao seu já tão forte turismo.

Há questões que se referem a momentos culturais da humanidade, como foi por exemplo, o Iluminismo em relação à Revolução Francesa; mas este movimento cultural deu-se de forma ligada a uma determinada época.

A filosofia e a cultura helênica vai muito além disso, aliás, muito além das fronteiras da própria Grécia – Alexandre, O Grande que o diga – trata-se da configuração mais completa dos fundamentos da civilização ocidental.

E os gregos exploraram isto de forma magistral na cerimônia de abertura das olimpíadas.
O Centauro – meio homem, meio cavalo – símbolo mitológico do lado animal que existe dentro de cada um de nós e que precisa ser domado, este eterno conflito entre razão e instinto – bem foi colocado na cerimônia como elemento primordial que fecundou a criatividade humana – o conflito – como bem diria Heráclito, “da tensão entre a corda e o arco na cítara nasce a mais bela harmonia” – a harmonia dos contrários.

Tanto assim foi que Eros esteve presente do começo ao fim da bela cerimônia que bem poderia ser interpretada segundo um instrumental de Nietzsche – a razão de Apolo em contraposição à embriaguês de Dionísio.

A tragédia grega – o despedaçar do bode que ocorria no final das cerimônias bacantes nas quais a embriaguês e a libertinagem garantiam o caos gerador – também esteve presente de forma bem direta – o esfacelar da cabeça, representando os vários momentos do desdobramento da cultura grega no ocidente – de memorável representação da pedra cúbica pitagórica, presente de forma intensa até os dias de hoje no simbolismo esotérico – por exemplo, o trono do Imperador, arcano IIII do tarô – a pedra fundamental da criação, centelha divina dentro de cada homem – a racionalidade construtora da cultura, seu alicerce mais fundamental.

Espetacular desfile da “clepsidra” na qual toda a história helênica e ocidental foi contada de forma direta e completa, a partir da civilização minóica até a civilização contemporânea. Édipo, espetacular, Héracles (Hércules) em combate com a Hidra, a guerra de Tróia e por aí vai.

Nada mais mediterrâneo que a oliveira, presente de Palas-Atena, a deusa da sabedoria, para os homens. Alimento indispensável ao homem mediterrâneo com seu azeite de múltiplo uso, uma árvore resistente que adapta-se aos mais variados tipos de terreno – assim como se idealizava a Hélade (grécia) de Péricles, o Pai da Democracia, contemporâneo de Sócrates, Platão, Aristóteles e outros grandes mestres da cultura helenista, mãe de toda cultura ocidental.

E percebam – do começo ao fim, Eros, o impulso fecundador, sempre presente... aliás, a cerimônia em seu momento mais humano – pós-Centauro – foi iniciada pelo casal de amantes – sede fecundos! E gerai uma civilização! E aqui estamos nós!

Mudando um pouco o foco dos comentários, exponho a má impressão sobre o mau gosto da roupa da delegação brasileira na abertura – um verde-abacate-cítrico cheirando a New Wave dos anos 80 (dá-lhe B 52), com uma ridícula textura-estampa nas gravatas e saias que, se não fossem os comentaristas da Globo, eu jamais ligaria com a textura das calçadas de Ipanema – mais uma vez o Rio de Janeiro apresenta-se em nome do Brasil, ignorando todo nosso ecletismo e grandesa cultural.

Longe de mim querer alimentar a tola rivalidade entre paulistanos e cariocas, já que enquanto bandeirante sou suspeito em relação a quem adora papar goiaba, a velha hegemonia ditatorial presente em nossas entidades esportivas só pode ter como resultado absurdos como esta ridícula escolha do projeto de Mônica Conceição para os trajes de abertura – isso sem comentar a candidatura sem base alguma do Rio de Janeiro para as Olimpíadas. Mas isto é outra história.
Parabéns para as delegações africanas que apresentaram belíssimos e imponentes trajes, como por exemplo, a Etiópia, a Libéria, Mali, Niger, Nigéria e Benin, mostrando que não só a miséria é algo que a eles deva ser relacionado. A Malásia (Ásia) também fez memorável desfile de abertura.

Já Barbados, Brasil e Botsuana... deixaram muito a desejar neste sentido.

Parabéns para Gianna Angeloupolos, presidente do comitê organizador, pela presença carismática, confiante a acolhedora que passou ao mundo no discurso de boas vindas e abertura das Olimpíadas.

Bancaremos os próximos Pan-Americanos – onde? – Rio de Janeiro, ótimo, vejamos no que vai dar. E assim, bancando eventos e espetáculos esportivos do gênero, quem sabe os países emergentes poderão encontrar um caminho na fascinante teia de comunicação internacional para mandar o seu recado: podemos trabalhar, podemos vencer! E que bela vitória grega!
Douglas Gregorio::

segunda-feira, maio 31, 2004

Tróia

Segue um comentário do filme Tróia, com explicações literárias, arqueológicas e mitológicas, bem como indicações de livros e outros filmes do gênero.
TRÓIA (Troy) - E.U.A - 2004
Brad Pitt como AQUILES.
Eric Bana como HEITOR.
Orlando Bloom como PÁRIS.
Diane Krueguer como HELENA.
Sean Bean como ODYSSEUS (Ulisses).
Direção de Wolfgang Petersen.
Roteiro de David Berniof, baseado no poema A ÍLIADA de Homero.
Estúdio: Warner Bros.
Tempo: 165 minutos.

É claro que um helenista (aficionado de cultura grega) como eu não poderia se furtar a assistir e comentar um filme como este. Quando soube que estava sendo preparado o lançamento de Tróia há alguns meses, uma ansiedade muito grande tomou conta de mim. Acredito que fui recompensado.

Meu primeiro contato com a mitologia grega deu-se por volta dos meus dez anos, quando então li as obras de Monteiro Lobato "O Minotauro" e "Os Doze Trabalhos de Hércules".

Desde aquela época, meu interesse por mitologia em geral, em especial a grega e a egípcia nunca mais acabou.

Um cego não pode escrever... então ele conta suas histórias oralmente. Assim foi Homero, o rapsodo grego que desenvolveu os poemas orais, posteriormente escritos não se sabe por quem, que deram origem a duas das principais obras da mitologia grega: a Ilíada e a Odisséia, sendo a primeira inspiração para o grande lançamento da semana: TRÓIA.

Após o sucesso de Gladiator (2000), Holywood está tentando retomar o sucesso dos grandes épicos que "arrebentaram" nos anos 60, com destaque para "Spartacus" e "Ben Hur". E Tróia, esta superprodução que já está batendo recordes (porém, não todos os que seus produtores esperavam) está vindo nesta linha.

O filme não faz menção aos aspectos mitológicos do poema, privilegiando o aspecto histórico. Infelizmente. Talvez porque a imensa variedade de versões dos mitos faz com que isto se torne um tanto que impreciso.

Tirando a "carinha de bebê" de Brad Pitt, julguei sua representação de Aquiles muito condigna para com o mito. Talvez um Schwarzenegger reunisse imagem e genialidade dramática para conduzir o papel atendendo à expectativa mítica de forma mais completa, porém, Brad Pitt encarnou a rudez e a friesa do sanguinário semideus Aquiles de forma aplaudível, e mesmo genial. Além disso, o mais famoso brutamontes do cinema deve estar mais ocupado com seus compromissos de governador da Califórnia.

Como podemos observar, é claro que Tróia deve ter custado a Brad Pitt vários meses de musculação intensiva, e talvez... provavelmente... ajudado por anabolizantes... ou ainda por algum tratamento especial de imagem.

O clima de aventura toma conta do filme do primeiro ao último minuto, e podem acreditar: nem se sente os 165 minutos passarem.

Cenários e figurinos espetaculares. Fotografia e efeitos especiais idem. Além da atuação memorável de Brad Pitt, Eric Bana "arrebentou" com sua formidável representação do herói Heitor que quase ofuscou Brad Pitt. Com certeza, Diane Krueger fez jus ao papel de Helena, a mulher mais bela do mundo, de certo que pouco destaque teve ao longo do filme.

Filme rodado no litoral mexicano, com uma série de problemas, entre eles nada mais, nada menos que dois furacões, e, coincidência irônica do destino, Brad Pitt sofreu uma lesão no tendão de Aquiles e as filmagens precisaram ser suspensas por duas semanas.

No final do filme, no discurso de encerramento de Odysseus (Ulisses) ocorre uma dica: parece que teremos a continuação da história num novo filme, muito provavelmente na continuação do poema de Homero, a Odisséia, que narra o retorno de Odysseus para a ilha que reinava, Ítaca, retorno esse que veio a durar vinte anos devido à maldição do deus do mar Posseidon, um dos protetores de Tróia.

A guerra de Tróia segundo a mitologia clássica: Aqueles que viriam a ser os pais de Aquiles, a nereida (deusa do mar) Tétis e o mortal Peleu decidiram se casar. Então, ocorreu uma grande festa no Olimpo. Éris, a deusa da discórdia foi desconvidada. Ofendida, rumou ao Jardim da Hespérides e obteve o valioso fruto de ouro, o "Pomo das Hespérides", que seriam as valiosas frutas de ouro maciço que traziam também poderes místicos, um tesouro cujo acesso era negado até mesmo aos deuses.
Éris lançou no meio da festa o pomo de ouro com a inscrição: "À mais formosa". Hera (Juno), Atena (Minerva) e Afrodite (Vênus) começaram então a brigar entre si pelo prêmio. Estava feita então, a discórdia. Daí a expressão "pomo da discórdia".

Para resolver o impasse, os deuses decidiram convidar o mortal Páris para decidir. Assim, Hera lhe ofereceu riqueza e poder, Atena, sabedoria e sagacidade guerreira e Afrodite, o amor da mulher mais bela do mundo. É claro que Afrodite acabou levando o pomo de ouro. Só que a mulher mais bela do mundo já era casada: Helena, esposa de Menelau, rei dos gregos, primo do general Agamenon. Com a ajuda de Afrodite, Páris rapta Helena, e esta se apaixona por ele, e passam a viver em Tróia (Ílion - daí Ilíada).

Menelau e seus parentes não se conformam com a afronta e partem com uma frota de mil navios cheios de soldados para resgatar Helena de Tróia, cercada por muros que jamais foram transpostos por inimigos.

O exército grego tinha como seu mais destacado guerreiro Aquiles, o aqueu, líder da elite dos guerreiros, os Mirmidões. Extremamente hábil em todas as artes bélicas, Aquiles era dotado da força dos deuses. Sua mãe, Tétis, no ato do seu nascimento, segurando-o pelos pés o mergulhou no Rio Styx (Estíge ou Estígia), o rio que banha o reino dos mortos, tornando-o invunerável, exceto pelos calcanhares por onde foi segurado. Junto de Aquiles seguia o rei de Ítaca, não menos destacado guerreiro, conhecido pela apurada astúcia, seu melhor amigo, Odysseus (Ulisses). Havia uma profecia que dizia que se ele, Odysseus, partisse para Tróia, não voltaria para sua casa em menos de 20 anos. Outra versão diz que essa era uma maldição de Posseidon (Netuno), deus do mar. A história destes vinte anos originou o outro poema de Homero, a Odisséia, já retratada no cinema nos anos 60 sob o título de "Ulisses".

Os Troianos, por sua vez, seriam defendidos por seu mais destacado guerreio Hector (Heitor), "o domador de cavalos", pelo seu rei e pai Príamo e seu irmão Páris.

Estava feita a guerra.

Anos e anos se seguiram de batalhas e batalhas, até que Aquiles entrou em desacordo com Agamenon sobre a posse de Criseida (Briseida em algumas versões), sacerdotisa de Apolo, protetor de Tróia, feita refém durante a profanação do templo de Apolo por Aquiles. Em algumas versões, ambos teriam se apaixonado. Este decidiu retirar-se da batalha, baixando a moral dos exércitos gregos, dado que, quando ele estava em batalha, a vitória era certa.

Então, o Mirmidão Pátroclo, o principal pupilo de Aquiles (seu primo em algumas versões), vestiu sua armadura e assumiu seu lugar nas batalhas, sendo morto por Heitor que o confundiu com Aquiles. Inconformado com a morte do discípulo, Aquiles retorna ao combate, forçando a volta dos troianos para dentro de seus muros, exceto de Heitor que bravamente decidiu enfrentá-lo. Por três dias Heitor foge de Aquiles correndo em torno dos muros de Tróia até que, finalmente, recebe um golpe com a lança de Peleu, pai de Aquiles, na garganta.

Para humilhar os troianos, Aquiles amarra Heitor pelos pés e o arrasta num grotesco espetáculo.

Mais tarde, Tróia é finalmente invadida através de um plano de Odysseus. Os navios gregos se retiram, fingindo rendição, porém, se escondem numa baía entre as montanhas. Deixam como sinal de rendição um presente: uma grande escultura de um cavalo. Os troianos festejam e se embebedam, baixando a guarda, levando o cavalo para dentro dos muros de Tróia como um troféu.

Porém, na calada da noite, de dentro do cavalo surge um tropa grega, entre os quais Odysseus e Aquiles, que prontamente iniciam o saque em Tróia, abrindo os portões para as tropas gregas que até então estavam escondidas.

Mais tarde, os troianos se rearmariam e mais guerras se dariam, sob o comando de Enéias.

Muitos, muitos mais detalhes, personagens e versões deste mito existem, algumas retratadas no filme, e várias outros não. Porém, é basicamente esta a passagem que foi utilizada pelo roteirista.

Dicas de livros:
Homero / Odisséia / Trad. A. P. Carvalho/ Abril Cultural, São Paulo, 1981.
Bulfinch, T. / O Livro de Ouro da Mitologia / Trad. David Junior / 25ª / Ediouro, Rio de Janeiro, 2001.
Pinsent, J. / Mitos e Lendas da Grécia Antiga / Trad. O. M. Cajado / 2ª / Edusp-Melhoramentos - São Paulo 1978.
Lobato, M / Os Doze Trabalhos de Hércules - Tomos 1 e 2 / 13ª / Brasiliense - São Paulo, 1965.
Existem um sem-número de títulos versando sobre mitologia grega em geral e sobre a guerra de Tróia.

Dicas de filmes:
"Fúria de Titãs", dir. Desmond Davis, Warner Bros. - E.U.A. 1981 - 118 min., com Harry Hamlin, Lawrence Olivier, Ursula Andress, Judi Browker.
Narra o mito de Perseu, o herói que decepou o pescoço da Medusa, o monstro que transformava em pedra as pessoas que o olhassem nos olhos, domando Pégaso, o cavalo alado, lutando contra Tritão, o monstro dos mares, pelo amor de Andrômeda.

"Ulysses", dir. Mario Camerini - Itália, 1954, 104 min., com Kirk Douglas e Anthony Quinn. Narra a "Odisséia", poema de Homero que é continuação da Ilíada, com o retorno de Ulisses (Odysseus) vivido por Kirk Douglas. Rei de Ítaca, viveu um atribulado retorno errante durante 20 anos para sua casa, após a guerra. Nele são retratadas passagens mitológicas muito conhecidas, tais como o episódio em que Ulisses ordena que seja amarrado ao mastro de seu navio, tapa os ouvidos de seus homens com cera e se delicia com o canto das sereias, ou ainda sua luta com o cíclope Polifemo, gigante de um único olho no meio da testa.

DOUGLAS GREGORIO::
Maio de 2004.